O guarda-chuva bolsonarista

Bandeira do Brasil no chão com cruzes pretas em cima dela
Legenda: Protesto em Brasília em referência aos sucessivos recordes de mortes pela Covid-19 no País
Foto: Sergio Lima/AFP

Sei que em 2041 vão tentar entender como chegamos a mais de 400 mil mortes por falta de vacina, distanciamento e máscaras, com parte da população apoiando o culpado por isso. Acredito que a falta de informação de uns e lucro político de outros explica muito, mas gostaria de deixar ao visitante do futuro a riqueza da micro-história para ajudar a decifrar o que se menciona.  

Apresento pessoas que admiro muito e com quem concordo em muita coisa. Mas que apoiam ou sustentam Bolsonaro, uns mais, outros menos, outros efusivamente, outros em silêncio. Vejamo-los. 

O professor de Direito que me inspirou no último semestre. Em 1999 ele me despertou dizendo que o aluno pobre sempre era esquecido pelos mais ricos, que se organizavam em escritórios, panelas e entourages. Lembrou-me que o violão fazia, de fato, a festa dos amigos ricos, mas tirava-me, músico amador, de perto dos livros jurídicos, numa marcha que me tirava o tempo e a dignidade. Nossa, como esse cara me influenciou... mas hoje ele diz “autorizar” o presidente a fazer uma intervenção militar com base no art. 142 da CF/88, e usa seu facebook diariamente para divulgar isso. Esse criminalista tem acesso ao livro de Direito Constitucional que quiser, mas prefere estar nesse autoengano.  

Meu amigo dentista. Neste final de semana mesmo, em que milhares de pessoas foram às ruas pedir intervenção militar, vi nos stories dele que a democracia é a ditadura da maioria. Não que ele fosse contra a democracia, mas ele realçava que tinha defeitos, o que é razoável. Quando li isso, nesse momento específico da história brasileira, não soube dizer se o ingênuo era eu ou ele. Inteligentíssimo que é, se diz liberal e conservador, e propagandeia que não está com Bolsonaro por este ser “populista” e “estatista”.  

De toda sorte, sendo sua intenção ou não, seu discurso sempre coincidente com a alt right norte-americana e algumas vezes com as conspirações olavistas, é mais útil ao bolsonarismo do que apoio expresso, máxime porque não se harmoniza com nenhum quadro político alternativo ao atual presidente. Todo dia que Deus dá, em seu perfil de política, de belo e trabalhoso layout, ele posta coisas interessantes e outras como falar mal de Frida Kahlo, Paulo Freire e do movimento Black Lives Matter. É um excelente profissional e pessoa do bem. 

Meu amigo espírita. Devo a ele, para sempre, luz e apoio em difícil momento de minha vida. É homem das artes, experimentador das dificuldades da categoria. Na idade que tem, sabe que o Brasil do PT não estava nem perto de ser comunista e, consoante formação jurídica que ostenta, sabe que não há justificativa para intervenção militar pelo próprio presidente. Venceu uma doença violenta recentemente, que especificamente demonstrou em sua vida a importância do conhecimento médico e sanitário.  

Porém, apesar de nunca ter falado mal da vacina, reproduz todo dia, no seu perfil verificado, a ideia de que lockdown é errado porque mata as pessoas de fome. Mais útil ao 17, impossível. 

Meu amigo coach. Uma das figuras mais perspicazes que vi na vida, teve a sensibilidade de ver em mim, em certa situação profissional, um rentável talento, quando ninguém e nem mesmo eu via. Conhece muito o desejo das pessoas em se divertir e prosperar. Tem convicções bonitas e fala tudo de maneira empolgante. Hoje diz não apoiar Bolsonaro, mas ressalva que esse STF, totalmente partidário, precisa de freio.  

Talvez não tenha notado algum defeito no Supremo em mandatos anteriores. “Supremo é o Povo” - é o adesivo do seu carro e do carro dos seus amigos. Ignora que, para eu entrar no Mestrado em 2008, eu tive que ler e reler um tijolo chamado “O Supremo Tribunal Federal Na Crise Institucional Brasileira”, do professor cearense Gerson Marques de Lima, que já acusava centenas de erros daquele sodalício, mas não advogava fechar o tribunal com um cabo e um soldado.  

Talvez não saiba que apenas o Poder Judiciário pode impedir um golpe e que essa retórica de extinção do Supremo só aproveita ao golpismo. E talvez não lembra que Toffoli blindou Flavio Bolsonaro, que a família Bolsonaro barrou a lava toga, que Gilmar engaveta procedimentos do Ministério Público, que... deixa pra lá, é muita coisa. 

Meu parente. Simplesmente é quem quero ser quando chegar na terceira idade. Trabalhador, amoroso, justo, incansável, o melhor avô do mundo. Não tem tempo de se informar, a não ser pelo whatsapp que recentemente instalou no celular, ou nas conversas com gente igualmente fantástica e sem tempo como ele. Mas vota de novo no 17, porque tem certeza que Bolsonaro não rouba. 

Outra parente. A esposa do avô de cima é a melhor mulher que conheço em sua idade e também se dedica, à exclusividade, a trabalhar por sua família, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Me ensina a rezar e amar. Mas me ensina também que a leitura em política é mesmo um luxo que não vai às igrejas, calçadas e aplicativos de celular. Vai ao YouTube, mas perde espaço quando essa plataforma reproduz automaticamente coisas que você já acredita previamente.  

Recentemente me disse que o Carnaval desse ano não se realizou porque Jesus apanhou de Satanás na Sapucaí. Não tive coragem de dizer pra ela, na hora, que aquela foto recebida no zap era apenas de uma encenação ficcional de uma comissão de frente carnavalesca, mas que Jesus vencia a luta no final. Você já sabe, precisa nem dizer: ela é Bolsonaro e não tem que tire. 

Caro historiador do futuro, a dificuldade que você tem de entender é menor que a minha dificuldade de tocar essas pessoas. Falta-me talento, coragem, inteligência. 

Boa sorte para nós. 

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.



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