O que Ceará e Fortaleza tem a ver com a tal Superliga Europeia?

Vítimas históricas do chamado Clube dos 13, Ceará e Fortaleza precisam ficar atentos a movimentos que colocam a meritocracia em xeque

Faixa da torcida do Liverpool protesta contra Superliga
Legenda: Faixa da torcida do Liverpool protesta contra Superliga
Foto: AFP

Subleva-se em toda a Europa um movimento de 12 grandes potências históricas futebolísticas para criação de uma competição independente da Fifa e da Uefa.

Ontem foi anunciada a criação da Superliga Europeia (European Super League), um torneio que pretende rivalizar com a Champions League para socorrer grandes times (Real Madrid, Barcelona, Juventus, Manchester United, Liverpool, entre outros)

Ficaram de fora apenas os grandes clubes franceses e alemães. Um dos pontos mais chocantes da nova competição é o fato dela ter sempre os mesmos participantes (15 dos 20 da liga), ou seja, não teria entrada de equipes emergentes por mérito conquistado. Apenas por convite, sob critérios duvidosos. Um movimento em tom excludente e interesseiro.

Legenda: Ceará e Fortaleza em campo nos anos 90. Fora do Clube dos 13, clubes sustentavam rivalidade local, mas viviam dificuldades
Foto: Levi Fonseca / SVM

Que mensagem esse movimento traz?

Temos em todo este movimento um golpe contra a meritocracia no futebol europeu. Equipes históricas que não tiveram uma boa gestão financeira e futebolística, que abriram espaço para investidores aventureiros, agora estão buscando um plano B para não perderem força.

E isso é preocupante, principalmente tendo em vista que o futebol brasileiro passa por uma transformação e ajuste meritocrático inédito. Por décadas, o futebol cearense, por exemplo, foi vítima do chamado Clube dos 13, entidade criada no fim dos anos 80 que concentrou quase a totalidade dos investimentos do futebol em torno de "privilegiados", os quais Ceará e Fortaleza nunca fizeram parte.

E essa escalada anti-meritocrática já foi tentada outras vezes no futebol brasileiro. Todos os anos, as camisas históricas pesadas, que por anos foram sustentadas por uma lógica injusta de distribuição de verbas, independente do resultado obtido dentro e fora de campo, estão sucumbindo a uma nova fórmula que amplia as capacidades de equipes organizadas, embora historicamente desfavorecidas, como Ceará e Fortaleza.

É necessário que os clubes locais, que estão conquistando o seu espaço degrau a degrau, fiquem atentos para não serem surpreendidos com novas fórmulas mágicas de tentadoras competições, que visam resgatar velhas camisas do seu merecido castigo.