Como não tornar os filhos consumistas

Em tempos de descontos e apelos de consumo, o desafio é ensinar às crianças que o valor das coisas vai muito além do preço.

Escrito por
Eliziane Correia producaodiario@svm.com.br
(Atualizado às 12:38, em 12 de Novembro de 2025)
Legenda: A educação financeira deve começar em casa.
Foto: shisu_ka/Shutterstock.

Vivemos cercados de vitrines físicas e digitais, que prometem felicidade em forma de produto. É a temporada da Black Friday, quando o mundo parece entrar em modo “oferta imperdível”. E, nesse cenário, fica quase impossível escapar do estímulo ao consumo.

Criamos nossos filhos para o mundo, mas o mundo tem suas próprias regras, uma delas é o consumismo. Essa ideia de que precisamos ter tudo reflete o imediatismo acelerado que o capitalismo produz nas pessoas. E as crianças, por mais inocentes que pareçam, são alvo preferencial dessa lógica: comerciais coloridos, influenciadores mirins, produtos “indispensáveis” e recompensas instantâneas.

O valor das coisas começa em casa

É justamente na infância que se desenvolvem habilidades essenciais para lidar com o dinheiro e com o próprio desejo. Tudo começa com os presentes, passa pela mesada e chega às primeiras escolhas de consumo - momentos que podem se tornar oportunidades de aprendizado, se conduzidos com presença e diálogo.

Eu sei que não é fácil. Ver aqueles olhinhos brilhando diante de um novo brinquedo desperta em nós a vontade de atender a cada pedido. Mas é preciso cuidado. Sempre que a Beatrice me pede algo novo, tento explicar o motivo caso não seja possível. Tento ser realista com uma dose de sensibilidade, para que ela se sinta acolhida e perceba que seu desejo foi levado a sério, mesmo que a resposta seja “não”. 

Educação financeira é educação emocional

A forma como mostramos o valor do dinheiro hoje, molda o modo como nossos filhos lidarão com o consumo amanhã. Não quero que a Beatrice associe felicidade à compra, mas que entenda que o dinheiro é ferramenta, não objetivo. A psicopedagoga Cleilza Vasconcelos reforça a importância de ensinar limites desde cedo:

“Quando a gente dá limites, desenvolvemos o controle inibitório, uma ferramenta poderosa que se aprende até brincando. Não é só controlar financeiramente a criança, mas ajudá-la a tomar decisões corretas que vão além do dinheiro". 

O economista Thiago Holanda, conselheiro do Conselho Regional de Economia do Ceará, concorda:

“O acesso frequente a redes sociais expõe as crianças a muita propaganda, o que incentiva o consumo precoce. A palavra-chave para ensinar educação financeira desde cedo, é “limite". Ensinar que os recursos não são ilimitados ajuda a criança a entender que nem tudo que deseja ela terá". 

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Transformar o cotidiano em aprendizado

Mais do que controlar gastos, é sobre formar consciência: ensinar que conquistar algo exige esforço, planejamento e paciência. É possível transformar o cotidiano em aprendizado - montar um cofrinho, listar objetivos, combinar pequenas responsabilidades. Cada gesto conta na construção do senso de valor. Cleilza Vasconcelos orienta:

“Os pais podem trazer a educação financeira de forma lúdica, usando tabuleiros, quebra-cabeças ou situações do dia a dia. O jogo põe a família para brincar, desenvolve compreensão, cuida da cidadania financeira e promove engajamento". 

Em tempos de tantas ofertas e desejos imediatos, cabe aos pais o papel de desacelerar. Mostrar que nem tudo precisa ser comprado, que o prazer também nasce da conquista, da espera e da partilha.

“A partir dos cinco anos, sistemas de mérito e pontuação já funcionam, pois a criança entende regras e consequências. Estabelecer metas, mesmo simples, treina o emocional e o controle da ansiedade. Deixar a criança usar brinquedos danificados ensina que as coisas têm valor e podem ter novo uso. Incentivar doações desenvolve generosidade e consciência sobre recursos limitados.” - Thiago Holanda, economista

Ensinar sobre dinheiro é, acima de tudo, ensinar sobre valores. Porque o que realmente sustenta uma vida equilibrada não é o saldo da conta, mas a consciência do que realmente importa.