A dor e a delícia de ser mulher aos 40

Envelhecer e a urgência de devolver às mulheres o prazer de imaginar o futuro.

Escrito por
Eliziane Correia producaodiario@svm.com.br
Legenda: Atriz celebrou 47 anos e incentivou outras mulheres a envelhecerem com consciência.
Foto: Reprodução/Instagram.

Uma fala recente da atriz Taís Araújo me fez pensar no envelhecimento de um jeito diferente. Ela dizia que sua meta não era parecer ter 25 anos, mas fazer com que as mulheres mais jovens se sentissem animadas para chegar aos 40. 

Existe algo muito bonito em uma mulher que não deseja voltar no tempo. Uma mulher que olha para a própria idade e não enxerga apenas o que perdeu, mas tudo aquilo que ganhou pelo caminho. Experiência. Consciência. Liberdade. Conhecimento sobre si mesma.

A fala da Taís me tocou porque estamos acostumadas a ouvir exatamente o contrário.

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A mulher é incentivada a esconder as marcas do tempo, disfarçar os cabelos brancos, parecer mais jovem, manter o corpo de quando tinha 20. Como se envelhecer fosse uma espécie de fracasso que precisasse ser corrigido. E talvez o mais cruel seja perceber que essa cobrança começa cedo.

Somos ensinadas a ser bonitas, mas não bonitas demais. Magras, mas sem deixar de ser saudáveis. Jovens, mas maduras. Bem-sucedidas, mas sem parecermos ambiciosas demais. Boas profissionais. Boas mães. Boas companheiras. Boas filhas. Precisamos dar conta de tudo.

E, quando somos mães, existe uma cobrança ainda maior: a de continuar sendo a mesma mulher de antes. Como se cuidar de um filho não consumisse tempo, energia, planos e tantas versões de nós mesmas.

Como se a maternidade não exigisse uma reorganização profunda da vida. A economia do cuidado quase nunca aparece na conta. Mas nós sabemos o preço.

Quantas mulheres adiaram sonhos porque precisavam cuidar? Quantas deixaram projetos para depois? Quantas se afastaram do trabalho, dos amigos, do próprio corpo, dos próprios desejos? E quantas chegaram aos 40 acreditando que o seu melhor momento já havia passado?

Quem foi que nos convenceu disso?

Amadurecer também é aprender a não esperar que o mundo nos autorize a viver. Porque reconhecimento nem sempre vem. O incentivo nem sempre aparece. E, algumas vezes, a crítica vem justamente de onde menos esperamos: de outras mulheres.

Sem perceber, reproduzimos a mesma régua que um dia também nos machucou. Por isso, é importante rever o que temos dito umas às outras. E também o que temos dito para nós mesmas.

Quando olhamos no espelho, estamos enxergando apenas aquilo que mudou? Ou conseguimos reconhecer a mulher que existe ali? Eu não quero chegar aos 40 tentando convencer alguém de que ainda tenho 25.

Quero chegar aos 40 sabendo quem sou. Quero ter liberdade para mudar de ideia, começar de novo, experimentar coisas novas, cuidar do meu corpo sem transformá-lo em inimigo e fazer planos que não dependam da aprovação de ninguém. Quero que minhas marcas contem histórias.

Há tanta vida depois dos 30.
Tanta descoberta depois dos 40.
Tanto recomeço depois dos 50.

O tempo não precisa ser aquilo que nos tira. Ele também pode ser aquilo que nos revela. Não tenha medo de continuar florescendo.

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.

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