Trump põe o mundo de cabeça para baixo. No Brasil, é o STF
O presidente dos EUA não sabe como sair da guerra contra o Irã. Aqui, a impunidade e o interesse pessoal e corporativo são o problema.
Está o mundo de cabeça para baixo, e o Brasil, também. E tudo é por culpa de decisões políticas equivocadas e fora de hora, no Oriente Médio, ou por medidas jurídicas adotadas sob o interesse pessoal e corporativo, no caso brasileiro. Vamos por partes, com sugerem os estripadores.
O governo dos Estados Unidos, incentivado pelo seu tradicional aliado Israel, decidiu bombardear o Irã, cujo governo é odiado por boa parte da população do país, a mesma que, agora, se uniu contra a dupla agressão israelense e norte-americana. Os iranianos podem ser, e o são em sua maioria, contra o seu governo teocrático, mas sempre se juntou quando o seu território, como hoje, é invadido e torna-se alvo de bombas dos tradicionais inimigos, os judeus.
(Judeus e muçulmanos brigam há milhares de anos, desde quando nasceram – e se separaram – os filhos de Abraão: Ismael, saído do ventre da escrava Agar, e Isaac, gerado pela sua esposa Sara, que concebeu e pariu na velhice. Abraão é, para judeus, muçulmanos e cristãos, o seu patriarca.)
O Irã – que já perdeu sua força aérea e naval, grande parte de sua infraestrutura de energia e quase todos os seus líderes políticos, ainda tem força e estoque bélico para atacar, como tem atacado, as bases militares norte-americanas e as refinarias dos países do Golfo Pérsico. Os Emirados Árabes, com Dubai e Abu Dabi em destaque, eram paraísos de paz e prosperidade; já não o são, e os milionários do mundo que tinham lá sua segunda residência fugiram e seguem fugindo para outros jardins do Éden.
Trump, que iniciou essa guerra sem qualquer planejamento, não sabe agora como sair dela. Os iranianos estão não só a rejeitar os apelos de paz dos EUA, como a sustentar o bombardeio com drones e mísseis contra posições norte-americanas e israelenses. Resultado: o preço do petróleo mantém-se nas aturas, desestabilizando a economia no Ocidente, no Oriente e na Oceania.
Corte para o Brasil. Este país, longe da guerra, vê-se diante do jamais imaginado: a corrupção, que sempre esteve ligada à sua história, mas limitado aos poderes Executivo e Legislativo, avançou ousadamente e alcançou o espaço sacrossanto do Poder Judiciário. Quando coisas assim acontecem, e aconteceram, os agentes da atividade econômica abandonam o risco do investimento local e optam por lugares alternativos mais seguros para abrir novos negócios. Parte deles já migrou para o vizinho Paraguai, liderado por um governo de direita.
Prestem atenção: uma operação da Polícia Federal, denominada Compliance Zero, descobriu, em novembro de 2025, o maior escândalo financeiro da história deste país, o do Banco Master, uma arapuca que ludibriou 1,6 milhões de pessoas físicas e jurídicas por meio da venda de Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) falsos.
Tendo periciado apenas um dos vários telefones celulares de Daniel Vorcaro, o dono do Master preso durante a operação, a PF descobriu o inimaginável: a estreita relação de ministros do STF com Vorcaro. A população brasileira, assustada diante do escândalo, imaginou que tudo seria apurado e que todos os responsáveis seriam identificados, como já o foram, e punidos na forma da Lei.
Lego engano. A Lei não é para todos. Como há três ministros do STF direta ou indiretamente citados nesse escândalo, foi decidido, por um deles, que é crime o vazamento de dados fiscais e bancários de ministros da Suprema Corte e seus familiares. E mais: foi imposto ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) restrições ao compartilhamento de relatórios de inteligência, com o objetivo de proteger o sigilo.
Resumindo: o final desse escândalo, assim como o foi o da Lava Jato, encaminha-se para uma grande pizza. Pior: toda a investigação da PF, que prossegue, poderá ser – como o foi a da Lava Jato – anulada pelo STF porque vazaram alguns trechos de conversas íntimas de Vorcaro e sua noiva.
Por isto, e só por isto, o escândalo do Banco Master e todas as suas implicações com altas autoridades dos três poderes – como o sabe a torcida do Flamengo – serão jogados no lixo da impunidade. Graças às investigações da PF, sabemos todos o que aconteceu e como aconteceu, quem são os culpados e onde eles se encontram. Será fácil prendê-los e julgá-los.
O mesmo acontece com o escândalo do INSS, de onde foram roubados R$ 6,5 bilhões das contas dos velhinhos e velhinhas aposentados e pensionistas do INSS, no qual estão envolvidos, também, o Banco Master, o seu dono e hierarcas ligados ao Poder Executivo.
Tudo é fácil de entender, e está entendido. Todavia, os altos interesses econômicos e geopolíticos, no Oriente Médio, e pessoais e corporativos, no Brasil, onde reina a impunidade, tornam difícil de colocar não chão os pés do mundo e do Brasil.
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