Sem nível médio, metas do agro cearense podem atrasar
Missão do Ceará na Holanda visitou importante centro de formação de profissionais que, sem serem doutores, são 100% formados para a área dos horifrutis
Naalddwijk (Holanda) – Nesta cidade holandesa que fica ao Sul de Haia e a curta distância de Delft e Roterdã, a Missão Técnica da Abid/Faec – que está aqui conhecendo desde segunda-feira, 6, novas tecnologias para a gestão da água, da agricultura irrigada, do cultivo protegido e da logística do agro – recolheu a certeza de que o Ceará tem todas as condições para se tornar o maior polo brasileiro de cultivo protegido. É esta tecnologia que, produzindo sob estufas em condições muito mais favoráveis do que as da Holanda, cuja ciência a inventou, tornará o estado um produtor e exportador de hortifrutis, incluindo os berrys (mirtilo, morango e amora, por exemplo), produtos de alto valor agregado.
Quem transmitiu esta certeza à missão cearense foi Peter de Munke, o “boss” do World Horti Center, um importante centro de formação teórica e prática de técnicos profissionais de nível médio (e não mestres ou doutores) 100% voltados para a atuação na área dos hortifrutis. Seu corpo discente tem alunos de quase todo o mundo, incluindo o Brasil. Munke apontou vantagens naturais a favor do Ceará, incluindo a presença do sol o ano inteiro.
Mas esse horizonte cearense não é totalmente azul. Para o mestre em engenharia agrícola Erildo Pontes, coordenador de Recursos Hídricos da Secretaria do Desenvolvimento Econômico (SDE) do governo estadual, “temos todas as condições que a natureza nos deu para nos tornarmos esse polo relevante, mas há um grave percalço: alijamos o ensino médio das nossas prioridades e passamos a apostar todas as fichas no ensino superior”. Ele acrescenta:
“Deveríamos copiar o exemplo holandês, mas não o fazemos. Transformamos escolas de nível médio em faculdades que ocuparam as melhores esquinas das nossas grandes e medias cidades. E mais: tudo aconteceu numa velocidade que hoje castiga quem produz no campo porque falta o material humano capaz de responder à crescente demanda, agora acrescida pela vontade estatal de acelerar o crescimento da agropecuária. Sem gente qualificada, não conseguiremos alcançar a meta de tornar o Ceará, em curto prazo, o polo a que referiu o diretor do World Horti Center”.
Erildo Pontes respira profundamente e retoma a palavra:
“Nós estamos vendo aqui nesta parte europeia de agro tecnologicamente desenvolvido um modelo de cultivo protegido baseado em estufas, parte das quais instaladas há 50 anos e em plena operação, com altíssima produtividade, mas a um custo elevado, que varia de 1 milhão a 3 milhões de euros por hectare, a depender da tecnologia utilizada. No caso do tomate, por exemplo, nesse mesmo ambiente protegido, a produtividade na Holanda pode chegar a 700 toneladas por hectare/ano.”
O Ceará já tem, na Ibiapaba, mais de 600 hectares de cultivo protegido. No caso do tomate, qual é a produtividade ibiapabana?, indaga a coluna. Erildo responde de bate-pronto:
“Em torno de 100 toneladas por hectare/ano em estufas teladas, cuja qualidade restringe o uso da tecnologia holandesa, que se espalha por vários países do mundo, inclusive Israel. Na estufa holandesa, controlam-se todas as necessidades da planta, inclusive a temperatura e a umidade, para que se alcance o seu máximo potencial produtivo. Nas estufas teladas na Ibiapaba, o produtor evita a queda da chuva diretamente na planta e os insetos de tamanho maior do que os orifícios do telado, sem controlar, porém, fungos, bactérias e micro insetos, como os tripes e ácaros, que são as aranhas minúsculas”.
Então você é pessimista em relação ao avanço do projeto do cultivo protegido no Ceará?
“Claro que não. Sou 100% a favor, tanto que, em 1982, quando estudante de agronomia da UFC, estagiei na Ematerce de Guaraciaba do Norte, na Ibiapaba, e lá deixei registrado em meu relatório a grande oportunidade de se ter naquela região uma produção constante, mesmo na estação das chuvas, de tomate de qualidade em cultivo protegido, cujo preço praticado na época variava 10 vezes entre o estio e a temporada chuvosa.”
E qual é sua sugestão?
“A necessidade urgente de implantação de um Centro Tecnológico de Desenvolvimento do Cultivo Protegido no Ceará. Ponto final.”
AGRO: SECRETÁRIO FÁBIO FEIJÓ MANTÉM O OTIMISMO
Na opinião do secretário do Desenvolvimento Econômico (SDE) do governo do Ceará, Fábio Feijó, a visita de ontem ao World Horty Center mostrou, na prática, porque o cultivo protegido (greenhouses) tornou o país uma referência mundial na produção de hortifruti.
“Tivemos a oportunidade de conhecer de perto as tecnologias e o modelo de produção que garantem alta produtividade, qualidade e regularidade ao longo de todo o ano”, disse ele, acrescentando:
“Uma greenhouse competitiva vai muito além da estufa. Ela combina energia com custo competitivo, controle climático, automação, sensores, irrigação de precisão, substratos de alta performance e, principalmente, uma logística eficiente para atender os mercados consumidores.”
O secretário prosseguiu:
“Durante as conversas, percebemos que a expansão desse modelo na própria Holanda enfrenta limitações como disponibilidade de áreas, custo da energia e mão de obra, enquanto a demanda internacional por alimentos de alta qualidade continua crescendo. Isso abre espaço para que empresas avaliem novos polos de produção em outros países.”
Contente com as perspectivas que se abrem para o Ceará por causa desta Missão Técnica da Abid/Faec na Holanda, o secretário da SDE disse:
“É nesse contexto que o Ceará passa a chamar atenção. Temos localização estratégica entre a Europa e as Américas, boa infraestrutura logística, oferta crescente de energia renovável competitiva e uma relação muito próxima com a Holanda, fortalecida pela parceria com o Porto de Roterdã no Complexo do Pecém e pelas perspectivas criadas pelo acordo entre Mercosul e União Europeia. Nos próximos dias, aprofundaremos esse diálogo com investidores holandeses e europeus. Nossa intenção é avaliar oportunidades tanto para ampliar a produção de insumos destinados às greenhouses já existentes, quanto para atrair novos projetos de cultivo protegido para o Ceará, agregando valor à nossa agricultura, ampliando as exportações e gerando mais emprego e renda para os cearenses.”
Por sua vez o secretário Executivo do Agronegócio da SDE, Sílvio Carlos Ribeiro, explicou que o World Horti Center “é um centro de tecnologia e de demonstração para o setor da horticultura; lá são apresentadas todas as tecnologias envolvidas no processo de produção de vegetais em estufa”.
Sílvio detalhou: “Ele é dividido em três setores: 1) ensino, que visa treinar profissionais na área da horticultura; 2) setor de pesquisa; e 3) setor de empreendedorismo.”
O secretário lembrou que o World Horti Center é financiado por um grupo de empresas que fazem demonstração, validação e parceiras, além de produtores locais, justamente “para aumentar a eficiência na produção, desenvolver novos produtos e processos para o cultivo protegido e desenvolver parcerias com instituições de pesquisa”.
“Nós visitamos e conhecemos um pouco do que há de mais moderno em uma estufa, como o vidro, o aço, os sensores, a iluminação artificial a Led, os testes de variedades e os biológicos. O World Center tem mais de 9 mil hectares de estufa na Holanda”, concluiu Sílvio Carlos Ribeiro.
INDÚSTRIA DO CEARÁ PERFORMA MELHOR DO QUE A DO PAÍS
Dados divulgados ontem pelo Observatório da Indústria, plataforma digital da Fiec com quase 8 trilhões de informações estratégicas sobre a economia do Ceará, do Brasil e do mundo que orientam investimentos empresariais, revelaram que a indústria cearense se manteve, no último mês de maio, com números melhores do que o setor brasileiro como um todo.
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