O mar é a próxima fronteira para o Nordeste
A região nordestina tem a oportunidade de liderar a revolução da energia dos oceanos, desde que faça as escolhas certas
O texto a seguir é de autoria de Julia Paletta, Country Head da Ocean Energy Pathwa (OEP) no Brasil, onde lidera o engajamento estratégico da organização, a gestão de projetos e o relacionamento institucional com o governo. Ele trata de um tema muito atual no Brasil -- a geração de energia eólica offshore, algo que está demorando a acontecer não por culpa dos empreendedores privados, mas pela lentidão do governo.
Pela sua oportunidade e pelo seu conteúdo, esta coluna publica na íntegra, com exclusividade, o texto elaborado com exclusividade para a coluna. Boa leitura!
"Há pouco mais de duas décadas, o Nordeste transformou sua geografia em vantagem competitiva. O vento, antes um recurso natural pouco aproveitado, tornou-se um dos principais motores do desenvolvimento regional. A região liderou a revolução da energia eólica em terra no Brasil, consolidou uma cadeia produtiva, atraiu fabricantes internacionais, formou milhares de profissionais especializados e passou a exportar conhecimento para outros mercados.
"Agora, uma nova oportunidade surge no horizonte. Prestes a ganhar seu marco regulatório definitivo, a energia eólica offshore (dentro do mar) pode representar não apenas uma nova fonte de eletricidade, mas uma nova estratégia de desenvolvimento econômico para o Nordeste.
"Segundo estudos do Banco Mundial, a região concentra aproximadamente 356 GW de potencial técnico para geração eólica no mar, um volume superior a uma vez e meia toda a capacidade instalada atualmente no Sistema Interligado Nacional, segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Trata-se de um dos maiores recursos offshore da América Latina. Os ventos são fortes, constantes e apresentam elevados fatores de capacidade, indicador que mede quanto uma usina efetivamente produz ao longo do ano em relação ao máximo que poderia gerar. Quanto maior esse índice, maior a produtividade e a competitividade do empreendimento.
"Mas o diferencial do Nordeste não está apenas na qualidade dos ventos. Está na combinação entre recursos naturais, experiência industrial, infraestrutura portuária e capacidade de inovação construída ao longo da trajetória da eólica onshore.
"Segundo o mapa atualizado do Ibama, divulgado em fevereiro deste ano, 62 GW dos 134 GW de projetos atualmente em licenciamento no Brasil estão localizados na região Nordeste, distribuídos em 32 empreendimentos. O Ceará lidera esse movimento, com 16 projetos protocolados, seguido pelo Rio Grande do Norte, Maranhão e Piauí.
"Esses números revelam o enorme interesse dos investidores, mas não significam que todos esses projetos serão implantados. Cada empreendimento deverá passar por rigorosos estudos ambientais, análises técnicas e processos de diálogo com comunidades pesqueiras, setores do turismo, navegação e demais usuários do espaço marinho. O sucesso dessa nova indústria dependerá justamente da capacidade de conciliar geração de energia, conservação ambiental e desenvolvimento econômico.
"O Brasil, aliás, já começa a construir esse setor sobre bases sólidas. Entre as diretrizes estabelecidas pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) está a recomendação de uma distância mínima de 12 milhas náuticas da costa para os empreendimentos, buscando reduzir conflitos com atividades costeiras, preservar paisagens sensíveis e proporcionar maior previsibilidade ao planejamento do setor.
"Poucos lugares no mundo reúnem condições tão favoráveis quanto o Nordeste. A região dispõe de uma cadeia produtiva consolidada na energia eólica terrestre, portos estratégicos como Pecém e Suape, universidades e centros de pesquisa reconhecidos, mão de obra qualificada e décadas de experiência na implantação de grandes projetos de infraestrutura energética.
"Um símbolo dessa liderança é a planta-piloto do Senai-RN, em Areia Branca, primeira iniciativa latino-americana licenciada para pesquisa em eólica offshore. Com dois aerogeradores e capacidade instalada de 24,5 MW, o projeto vai muito além da geração de energia. Será um laboratório em escala real para testar tecnologias, formar profissionais, desenvolver fornecedores nacionais e ampliar o conhecimento científico sobre os aspectos ambientais, sociais e operacionais dessa nova indústria antes da implantação dos primeiros parques comerciais.
"Mas o maior potencial da eólica offshore talvez não esteja na energia que ela produzirá, e sim na economia que ela poderá construir.
"Durante décadas, o desenvolvimento do setor elétrico brasileiro foi baseado na expansão das linhas de transmissão. Esse modelo permitiu integrar o país, mas hoje enfrenta limitações crescentes. A expansão das energias renováveis no Nordeste já convive com restrições de escoamento e elevados custos para novas redes elétricas.
"É nesse contexto que ganha força um conceito ainda pouco conhecido no Brasil: o powershoring.
"Em vez de transportar grandes volumes de eletricidade por milhares de quilômetros, a estratégia consiste em atrair indústrias intensivas em energia para próximo dos locais de geração. A energia deixa de ser apenas exportada pela rede elétrica e passa a ser transformada em produtos industriais, empregos e desenvolvimento.
"A eólica offshore amplia significativamente essa oportunidade. Um único parque marítimo pode instalar entre 1 e 2 GW de capacidade, escala muito superior à maioria dos empreendimentos renováveis convencionais. Essa elevada concentração de geração permite produzir grandes volumes de energia com menor pressão sobre o uso da terra, complementando a expansão das renováveis em um contexto de crescente competição por espaço entre agricultura, expansão urbana, infraestrutura e conservação ambiental.
"Mais do que uma nova fonte de energia, a eólica offshore pode tornar-se uma infraestrutura estratégica para uma nova política industrial.
"A combinação entre grandes parques eólicos offshore, os portos de Pecém e Suape e os projetos de hidrogênio de baixo carbono cria uma oportunidade singular. Em vez de ampliar indefinidamente a infraestrutura de transmissão, parte dessa energia poderá ser consumida localmente para produzir hidrogênio, amônia, combustíveis sintéticos e outros produtos industriais destinados ao mercado nacional e internacional. O Nordeste poderá exportar não apenas eletricidade, mas produtos de alto valor agregado.
"Essa estratégia também fortalece a economia regional. A experiência internacional demonstra que os maiores benefícios da eólica offshore não estão apenas na energia produzida, mas na cadeia de valor que ela mobiliza: fabricação de torres, fundações, cabos submarinos, embarcações de apoio, estruturas metálicas, equipamentos elétricos, logística portuária, engenharia, manutenção, monitoramento ambiental e inovação tecnológica. São investimentos de longo prazo capazes de gerar milhares de empregos qualificados, estimular a indústria nacional e ampliar a competitividade da economia nordestina.
"O Brasil não precisa copiar o modelo europeu ou chinês nem adotar uma estratégia única para toda a sua costa. Cada região possui vocações distintas. Enquanto o Sudeste deverá utilizar a eólica offshore para abastecer grandes centros consumidores e apoiar a descarbonização da indústria e das operações de petróleo e gás, e o Sul poderá fortalecer sua base industrial e sua integração com o Mercosul, o Nordeste reúne as melhores condições para se consolidar como o principal hub brasileiro de energia renovável, hidrogênio de baixo carbono e combustíveis verdes.
"O vento continuará sendo um dos maiores ativos da região. Mas a verdadeira oportunidade não está apenas em produzir mais eletricidade. Está em transformar energia abundante em uma nova plataforma de desenvolvimento industrial.
"A experiência da eólica onshore mostrou que políticas públicas consistentes, planejamento e inovação podem transformar um recurso natural em uma cadeia produtiva competitiva. A eólica offshore oferece ao Nordeste a oportunidade de dar um passo além: consolidar-se como um polo global de energia limpa, indústria marítima, hidrogênio de baixo carbono e exportação de produtos de alto valor agregado.
"O Nordeste liderou a revolução da energia eólica em terra. Agora tem a oportunidade de liderar a revolução da energia dos oceanos. Se fizer as escolhas certas, com planejamento, diálogo social, responsabilidade ambiental e visão industrial, a região poderá transformar um recurso natural abundante em uma das mais importantes estratégias de desenvolvimento econômico do Brasil nas próximas décadas. O vento continuará sendo a matéria-prima. Mas será a capacidade de transformar energia em indústria, inovação, empregos e prosperidade que definirá o verdadeiro sucesso dessa nova fronteira."
Veja também