Incerteza do arcabouço fiscal e política derrubam B3 e sobe o dólar
O mercado quer saber como o governo fará para aumentar suas receitas. E o presidente do Banco Central voltou a falar sobre a resiliência da inflação
Ontem, foi um dia horrível para a Bolsa de Valores B3, que desabou, fechando o dia com queda de 2,12%, aos 103.912 pontos. O dólar, por sua vez, subiu, com alta de 2,23%, cotado acima de R$ 5, mais precisamente a R$ 5,087.
Pesaram sobre o pregão de ontem da Bolsa os comentários sobre a proposta do novo arcabouço fiscal, que, como já foi dito aqui, está baseada no aumento da arrecadação tributária e na contenção dos gastos do governo, que serão limitados a 70% da receita.
Com isto, e se tudo der certo, o governo estima uma receita de R$ 150 bilhões, que será obtida, conforme as reiteradas promessas do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, pela redução das isenções e dos incentivos fiscais de que gozam hoje muitos setores da atividade econômica no Brasil.
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Os acadêmicos e economistas especializados em finanças públicas estão conseguindo ler as letras miúdas do texto do novo arcabouço fiscal, nas quais aparece claramente a indicação de que o governo será isento de culpa se descumprir as metas fiscais, ou seja, se gastar mais do que o permitido.
Isto quer dizer que, se cometer as chamadas pedaladas fiscais, o presidente da República não será alvo de processo de impeachment como aconteceu com a ex-presidente Dilma Rousseff.
O foco das discussões tanto entre os operadores do mercado quanto entre os economistas é em torno, exatamente, da questão central da nova matriz fiscal: como o governo fará para alcançar a meta de fechar 2023 com um déficit de 0,5% do PIB e de zerar esse déficit em 2024 para, em 2025, alcançar um superávit de 0,5% do PIB e, em 2026, chegar a um superávit primário de 1%.
Para que isso seja possível neste exercício de 2023, a Receita Federal terá de arrecadar R$ 150 bilhões, o que só será possível ou por aumento de imposto, o que já está descartado, ou pela redução das isenções e incentivos fiscais, o que já está provocando a mobilização dos lobbies de interesse na Câmara dos Deputados e no Senado Federal.
Mas os olhos e as atenções desses mesmos lobbies e, também, dos empresários estão voltados, igualmente, para as duas propostas de Reforma Tributária em tramitação no Congresso Nacional, pois elas propõem a criação de um Imposto de Valor Agregado, o IVA, cobrado sobre o consumo, com uma alíquota única de 25%.
Os setores do comércio, dos serviços, da saúde e da agropecuária já se manifestaram frontalmente contra.
O que também ajudou na queda da Bolsa ontem foram novas declarações do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que, falando em um evento em Londres, disse que os núcleos da inflação brasileira seguem resilientes, o que o mercado entendeu como um sinal de que, na próxima reunião do Comitê de Política Monetária, o Copom, a taxa básica de juros Selic deverá ser mantida em 13,75%, algo que certamente causará mais ruídos na relação do governo com a autoridade monetária.
Campos Neto disse que o arcabouço fiscal é bem-vindo e está na direção certa, mas voltou a advertir que a política fiscal do governo e a política monetária do Banco Central não estão afinadas na questão dos juros.
O presidente do Banco Central disse que a inflação deverá mostrar sinais de queda até junho, depois voltará a subir, devendo fechar o ano em torno de 6%.
Campos Neto também disse que as projeções de inflação para o próximo exercício de 2024 estão melhores do que as deste ano de 2023, mas salientou que elas ainda estão longe das metas. Em português de arquibancada isto significa a manutenção da taxa de juros no patamar em que se encontra.
No pregão de ontem da Bolsa de Valores, as ações da Vale caíram 2,92% Também caíram as ações da Petrobras, as do grupo cearense Hapvida, as do Carrefour, que desabaram 8,37%; as do Magazine Luiza, que caíram 8,19%; e as do Bradesco.
Na contramão, subiram, mas subiram pouco os papeis da Embraer, com alta de 0,83%.
O mercado também acompanha os desdobramentos políticos em Brasília, onde poderá ser instalada uma CPI mista, ou seja, de deputados e senadores, para investigar o que realmente aconteceu no dia 8 de janeiro na capital federal, quando o Palácio do Planalto e a sede do Supremo Tribunal Federal foram invadidos e vandalizados.
Todos sabemos como começa uma CPI, mas ninguém sabe prever como ela terminará.
Nesta quinta-feira, o preço do petróleo na Bolsa de Londres segue em queda. Hoje, esse preço cai mais 1,16%, sendo cotado agora a US$ 81,79.
O jornal "El País", o mais importante da Espanha e um dos mais respeitados da Europa, está informando hoje que a primavera e o verão deste ano serão os mais quentes dos últimos anos, que já foram demasiadamente quentes.
Haverá poucas chuvas, o que poderá esvaziar represas e provocar incêndios florestais.
É a natureza revoltando-se contra os crimes humanos