Guerra no Oriente Médio: EUA enfraquecidos; o Irã mais forte

Donald Trump imaginou que Teerã era Caracas. Enganou-se, ficou num beco sem saída e aceitou a proposta de cessar-fogo

Escrito por
Egídio Serpa egidio.serpa@svm.com.br
(Atualizado às 06:06)
Legenda: Ao declarar guerra contra o Irã, apoiado por Israel, o presidente Donald Trump cometeu um erro de avaliação. Deu-se mal.
Foto: HANDOUT ISRAELI ARMY AFP
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Aconteceu o que se previa: depois de dizer, pela manhã, que exterminaria a civilização iraniana, ameaça que cumpriria na noite de ontem, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de cuja sanidade mental os psiquiatras do mundo já desconfiam, aceitou a proposta de suspensão, por duas semanas, da guerra que, com o apoio de Israel, sustentava contra o Irã.  

A proposta, apresentada pelo governo do Paquistão, foi aceita também pelo governo de Teerã, que se proclamou vitorioso, da mesma maneira que o norte-americano. Ela prevê a reabertura imediata do Estreito de Ormuz, mas sob o controle o Irã, que muito provavelmente passará a cobrar um pedágio dos navios que trafegarem pela área, por onde passam 20% do petróleo do mundo. 

Trump disse no comunicado que leu para a imprensa que os objetivos militares dos Estados Unidos foram alcançados, razão pela qual concordava com o cessar fogo de 15 dias. A verdade, porém, é que ele se encontrou num beco sem saída, e procurou, quase em desespero, uma solução negociada para o conflito cujos resultados foram catastróficos para a economia mundial e para todo o Golfo Pérsico.  

O preço do petróleo disparou desde o início das hostilidades, uma vez que sua oferta se reduziu enormemente, principalmente para os países da Europa e da Ásia, que se abastecem do petróleo produzido naquela região, que é transportado de navio pelo Estreito de Ormuz. 

Donald Trump imaginou que uma guerra contra o Irã, apoiada por Israel, terminaria em poucos dias. Mas o Irã não é a Venezuela. Os iranianos, apesar de todos os bombardeios impostos pelas forças norte-americanas e israelenses, resistiram, e mais do que isto, impuseram grandes perdas a Israel e aos países do Golfo Pérsico, entre os quais a Arábia Saudita e o Qatar, onde os Estados Unidos têm bases militares, que também foram atacadas e tiveram graves prejuízos. 

O Irã sai fortalecido dessa guerra, porque, agora, juntamente com o governo de Oman, que fica do outro lado do Estreito de Ormuz, passará a ter uma forte e extra receita por meio da cobrança de uma taxa de cada navio que entrar ou sair da área.

A resistência iraniana também fortalece o governo teocrático de Teerã, cuja oposição deverá desaparecer, ou seja, aquelas gigantescas manifestações contra o governo dos Aiatolás não mais acontecerão, e a culpa é, de novo, das erráticas decisões de Donald Trump.  

Os Emirados Árabes Unidos, por causa da guerra, deixaram de ser, como Dubai e Abu Dabi, recanto de paz e de descanso para os milionários do mundo, os quais fugiram para locais mais seguros. Toda a região, que se imaginava protegida pela maior potência bélica do planeta, os EUA, agora se sente desprotegidas e por isto mesmo o governo da China, liderado pelo presidente Xi Jinping, já mantém conversas com os emires de lá. 

Donald Trump está, agora, recebendo críticas de toda a mídia mundial e, também, de governos europeus, seus tradicionais aliados, cuja economia enfrenta, há 45 dias, as consequências de uma guerra que o mercurial presidente dos EUA declarou, sem consultar o Parlamento do seu país, contra o Irã. O resultado está aí: o mundo e sua economia viraram de cabeça para baixo.  

Mas não há surpresa. O que esperar hoje do Exército norte-americano, que tem a comandá-lo o ministro da Guerra, um apresentador de televisão, que, há uma semana, demitiu o comandante desse mesmo Exército, que ousou discordar das ordens do seu chefe supremo em relação à guerra?

Resumo: Donald Trump e suas tresloucadas decisões produziram um forte choque negativo na imagem dos EUA, cujo papel na geopolítica mundial foi duramente atingido e enfraquecido. Isto terá consequência na eleição de meio mandato, que acontecerá em novembro: o Partido Democrata deverá conquistar a maioria da Câmara dos Deputados e obter, também, a maioria das cadeiras do Senado, um terço do qual será renovado. Também elegerá mais governadores do que os republicanos.  

Aquele movimento chamado Make America Great Again, o Maga, já se dividiu, pois uma parte dele está criticando as decisões de Donald Trump, não apenas em relação à guerra contra o Irã, mas também em relação à administração interna, com foco na economia. Na agricultura, por exemplo, os EUA estão perdendo a corrida para o Brasil, que hoje já produz e exporta mais soja e carne do que os norte-americanos.  

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