Taxar blusinhas da China é proteger empregos no Brasil
Para a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecções (Abit) é preciso que haja concorrência igual para todos
Na evolução do comércio ‘cross border’ (transfronteiriço), desde a pandemia, as importações de pequeno valor via plataformas estrangeiras desfrutaram de tratamento tributário privilegiado até agosto de 2024, quando passaram a recolher Imposto de Importação de 20%. Mesmo considerando essa alíquota, a taxação total que recai sobre esses sites estrangeiros de e-commerce ainda é bastante inferior à imposta a quem gera trabalho, investe e produz no Brasil. Quem o diz é Fernando Valente Pimentel, diretor-superintendente e presidente emérito da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecções (Abit).
Na sua opinião, a tributação vigente não busca criar protecionismo, mas assegurar algo tão básico quanto justo: concorrência com regras iguais para todos. “Sugerir que prejudica os consumidores de menor renda é uma falácia. O que realmente os lesa é a desindustrialização, a quebra de negócios locais e a eliminação de postos de trabalho”, acrescenta ele.
A indústria têxtil e de confecção brasileira segue gerando empregos formais, contrariando uma retórica que tenta negar o impacto positivo da igualdade tributária. São mais de 1,3 milhão de trabalhadores diretos, com forte presença em cidades onde a manufatura é o motor do desenvolvimento e da mobilidade social. Em 2025, de janeiro a setembro, o setor criou 29,6 mil postos formais de trabalho. Nos 12 meses anteriores, foram 6,1 mil. Isso só é possível, afirma Pimentel, porque essa atividade, mais do que centenária, sempre esteve e continua alinhada às necessidades do consumidor e da sociedade, oferecendo produtos em todas as faixas de preço, estilos e perfis socioeconômicos. Ele é contundente:
“Há outro dado relevante sobre a consciência da indústria têxtil e de confecção quanto à sua responsabilidade como provedora de um produto de primeira necessidade, que é a roupa: desde o início do Plano Real, em julho de 1994, até setembro de 2025, o grupo “Vestuário” foi o que apresentou a menor inflação acumulada (483%) entre os nove que compõem o IPCA, cujo índice geral avançou 803% no período.”
Resumindo: o setor é o que mais contribuiu para a estabilidade dos preços no Brasil ao longo de mais de 30 anos. Prova atual disso encontra-se em dois produtos presentes no guarda-roupa de todos os brasileiros: nas faixas populares de consumo, encontram-se facilmente, em qualquer pesquisa no mercado varejista nacional, calças jeans entre 50 e 120 reais (9,3 e 22,4 dólares) e camisetas de algodão de 20 a 50 reais (3,7 a 9,3 dólares - câmbio de 3 de novembro). Aprofundando a pesquisa, encontram-se preços ainda menores. “São valores muito competitivos em relação a qualquer comércio eletrônico internacional”, sentencia Pimentel.
O líder da Abit lembra que uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e da Nexus, intitulada “Retratos do Brasil” (outubro/2025), aponta que a principal causa para os consumidores desistirem das compras nas plataformas internacionais é o custo do frete (45% dos compradores) e não a tributação. Foram ouvidas 2.008 pessoas, a partir de 16 anos, nas 27 unidades da federação.
“Para que se tenha uma ideia mais clara dos impactos de um eventual e impensável fim da taxação das encomendas de pequeno valor, só na linha feminina 77% do que é vendido estão abaixo de 50 dólares; na íntima e meias, 90% e, no total, incluindo todos os segmentos de roupas, 80% estão aquém desse valor. Isso representa um mercado de 294,85 bilhões de reais por ano, o equivalente à atividade de 141,94 mil empresas da indústria e varejo e 1,27 milhão de empregos, conforme dados do IEMI. Ou seja, subsidiar o produto importado com renúncia fiscal significa importar desemprego”, acentua Fernando Pimentel, que finaliza:
“A ‘taxa das blusinhas’ não é contra o consumidor. É a favor do emprego, da renda, da legalidade, da justiça tributária e do desenvolvimento nacional. Liberdade de compra não pode significar concorrência desleal. Desenvolvimento e bem-estar social não se importam, mas se constroem aqui, com o trabalho de milhões de brasileiras e brasileiros. Quando escolhe o que é feito no Brasil, o consumidor veste orgulho, gera empregos e ajuda a costurar o futuro do País.”
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