Economia: avião brasileiro faz voo cego rumo à Estação 2027

As despesas seguem aumentando e, enquanto o país precisa de mais trabalho, o Parlamento quer extinguir a jornada 6x1.

Escrito por
Egídio Serpa egidio.serpa@svm.com.br
(Atualizado às 05:56)
Legenda: O setor industrial brasileiro tem crescido quase nada, e isto é culpa dos juros altos que encarem o crédito
Foto: Divulgação
Esta página é patrocinada por:

Mesmo com taxa real de juros perto de 10% ao ano, a economia brasileira cresceu 2,5% no exercício passado de 2025, o que foi possível graças, mais uma vez, à excelente performance do setor agropecuário, locomotiva da produção nacional. O dado veio com a divulgação, sexta-feira, 20, pelo Banco Central, do IBC-BR, que é o índice antecipador do PIB, cujo número oficial será divulgado na terça-feira da próxima semana, 3 de março. Esse número, de acordo com os relatórios dos grandes bancos para os seus clientes, deverá vir em torno de 2,3%. No trimestre outubro-novembro-dezembro do ano passado, a economia desacelerou 0,2%. Desacelerou! 

Ainda de acordo com o IBC-BR, a indústria patinou no último trimestre de 2025, ao mesmo tempo em que o setor de serviço, na boleia dessa desaceleração, também reduziu seu ritmo, mas com índice positivo de 2,1% no trimestre, mandando um sinal para o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, que se reunirá nos próximos dias 17 e 18 de março. Nessa data, de acordo com a ata da última reunião do Copom, a taxa de juros deverá ser reduzida em, pelo menos, 0,25 ponto percentual. É pouco, dizem alguns economistas.  

Desses números acima citados, tira-se a conclusão de que, neste momento de marcha lenta da economia, o Brasil e seu setor produtivo necessitam de melhorar sua produtividade, e um dos fatores indispensáveis para isso é o trabalho. Mas o governo e o Congresso Nacional parecem estar de costas para as necessidades da economia, porque ambos ampliam seus esforços no sentido de aprovar, neste ano eleitoral, o fim da chamada jornada 6 por 1, ou seja, seis dias de trabalho por um de descanso. A proposta que, por iniciativa do Palácio do Planalto, está em exame no Parlamento é a que cria a jornada 5 por 2, isto é, cinco dias de trabalho por dois de descanso. 

A Confederação Nacional do Comércio já apresentou um estudo no qual revela que o fim da jornada 6 por 1 terá como consequência o aumento de custo de 22% no setor de serviço, atingindo salões de beleza, bares, restaurantes, consultórios médicos, transporte, fretes, hotéis, aluguéis e internet, entre outros. O mesmo estudo admite que algumas dessas atividades poderão ser extintas. 

Surge a pergunta: neste ano de eleição para deputado, senador, governador e presidente da República, quem ousaria levantar-se contra uma proposta com tão grande apelo popular como essa do fim da jornada 6 x 1? As federações da indústria, do comércio, da agricultura e dos transportes estão mobilizadas no sentido de barrar no Congresso essa iniciativa, que é baseada em bons e sólidos argumentos. Mas é preciso entender que, neste momento, a economia brasileira não tem, ainda, condições de reduzir a atividade laboral, é o que dizem as lideranças empresariais. 

A vizinha Argentina acabou de aprovar uma Reforma Trabalhista, que não somente mantém a atual jornada de trabalho, como reduz antigos benefícios, facilitando, ao mesmo tempo, a contratação e a admissão empregados. E ainda põe fim à Justiça do Trabalho, cujas tarefas passam a ser executadas pela Justiça Comum, numa redução notável de custos da máquina administrativa. O governo do presidente Javier Milei e o empresariado argentino apostam no aumento do emprego que essa reforma possibilitará.  

Aqui no Brasil, os economistas admitem que a redução da jornada 6 por 1 causará desemprego e inflação, uma receita deletéria e explosiva que, consequentemente, aumentará as já elevadas taxas de juros. O economista Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, já disse que, do jeito que as coisas acontecem na área da política, principalmente nas duas casas do Congresso, o Brasil vai em marcha batida para o caos. 

Ninguém no Governo e no Parlamento mostra preocupação com o cenário das contas públicas, que se agravam à medida em que, atuando em conjunto, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário seguem ampliando seus gastos, com o que fazem subir a dívida e o seu serviço, que são os juros. No ano passado de 2025, é bom lembrar, o Brasil gastou R$ 1,050 trilhão com o pagamento dos juros da dívida, que já bateu a casa dos R$ 10 trilhões. 

Esta coluna tem dito e o repete agora: se reeleito, o presidente Lula e seu governo terão de, antes mesmo do início do novo mandato, dar um cavalo de pau. Terão de reduzir seus gastos, para o que haverá de diminuir o tamanho do estado. Não tem sentido, por exemplo, a existência de 40 ministérios.  

Por enquanto, o debate em torno desse tema parece interditado. Até agora, nenhum dos anunciados pré-candidatos ao Palácio do Planalto, incluindo o próprio presidente Lula, disse o que fará e como fará para enfrentar o grave desafio das contas públicas em 2027. 

Veja também