Crise nos Correios é consequência do uso político das estatais

Como está, a deficitária empresa não tem como competir com a Amazon e o Mercado Livre, que têm lucros bilionários, resultado da eficiência

Escrito por
Egídio Serpa egidio.serpa@svm.com.br
(Atualizado às 08:45)
Legenda: Dirigida por pessoas sem expertise, indicadas por partidos políticos, o Correios não tem como competir com as grandes do setor
Foto: Jorédson Alves / Agência Brasil
Esta página é patrocinada por:

Quando uma empresa estatal é usada com claro interesse político -- e do que a política e os políticos têm de pior – acontece o que aconteceu em 2014 com a Petrobras, no famoso caso do “petrolão”, e agora acontece com o Correios, que, como consequência da má gestão, se defronta com um rombo que, só no primeiro semestre deste ano, passou dos R$ 4 bilhões. A empresa tenta, como medida extrema, organizar um pool de bancos para obter um empréstimo de R$ 20 bilhões capaz de reorganizar suas contas e enfrentar a concorrência de empresas privadas como Amazon e Mercado Livre, por exemplo, cujos lucros são bilionários, resultado da eficiência.  

Numa democracia, todo partido político tem como primeiro objetivo chegar ao poder por meio do processo eleitoral. Alcançado esse objetivo, imediatamente surge outro: perpetuar-se no poder, também por meio de eleição. Foi assim nos idos tempos da UDN, PSD, PSP e PTB, mas naquela saudosa época movia os líderes desses partidos um certo pudor, uma espécie de liturgia que respeitava a ética -- e as raras exceções apenas confirmavam a regra. 

 Nos tempos atuais, esse pudor inexiste, basta acompanhar a crônica do dia a dia do Congresso Nacional, onde a maioria dos deputados e senadores endereça para suas bases municipais as verbas das emendas parlamentares, as quais – conforme já apurou a Polícia Federal -- são desviadas no meio do caminho por meio de suspeitas licitações, com o que só uma ínfima parcela da verba chega ao seu destino – a obra pública. 

Mas não é só o Poder Legislativo que dá mau exemplo. O Judiciário, nas esferas federal e estaduais, decepciona e frustra o contribuinte, autoconcedendo-se pornográficas gratificações e vantagens. Ontem, o jornal O Estado de São Paulo abriu manchete para revelar o inacreditável: no Superior Tribunal de Justiça (STJ), operava um esquema de venda de sentenças, reconhecido pela própria corte. E no Tribunal de Justiça de Mato Grosso, investigações da Polícia Federal apuraram que cinco desembargadores também vendiam sentenças. 

Surge a pergunta inevitável: será que a corrupção é agora o normal na atividade política, administrativa e jurídica deste país de enormes riquezas naturais e de lamentável pobreza moral?  A resposta é não, porque ainda há juízes em Brasília e nos 27 estados da Federação. É necessário, todavia, que a população se mobilize a favor de uma radical mudança dos padrões da política. 

Nos anos 60 do século passado, um cronista carioca escreveu a seguinte e irônica frase: “Ou nos locupletamos todos, ou restaure-se a moralidade”. No Brasil, é possível construir patrimônio pela via do trabalho honesto; é possível, também, criar uma elite política bem melhor do que a atual. De que maneira? Resposta: por meio do voto. 

No próximo ano de 2026, haverá eleição para deputado federal, senador, governador e presidente da República; eis aí a chance que o regime democrático oferecerá, mais uma vez, ao eleitor brasileiro para mudar o que deve ser mudado. E há um extenso cardápio de coisas que estão a exigir mudanças urgentes. Por exemplo: algumas funções do serviço público federal e estadual pagam “gratificação pelo exercício” da função ou do cargo. Um absurdo protegido por irracional legislação e com pagamento garantido pelo Tesouro Nacional, isto é, pelo dinheiro do contribuinte que somos todos nós. 

Retomemos a crise dos Correios! Economistas começam a sugerir que o governo do presidente Lula deve aproveitá-la para consertar as contas da empresa e, imediatamente depois, iniciar o processo para a sua privatização.  

O mundo de hoje é digital. A comunicação entre as pessoas se dá pelo WhattsAp, gratuitamente. O Correios serve agora para distribuir não cartas, mas encomendas do e-commerce, e para isto o mercado exige eficiência, presteza, mobilidade e logística perfeita, algo que a estatal brasileira não tem.  

Nesse mercado, o Correios, servindo à política e aos políticos, está e estará fadado ao fracasso, pois lhe faltam profissionais com expertise e sobram apadrinhados incompetentes indicados por maus políticos. Lamentavelmente. 

Veja também