Cirurgião cearense examina o intestino da crise brasileira

Ele fez uma incisão verbal no organismo público, abriu a ferida das renúncias fiscais e descobriu o “bolsa empresário”

Escrito por
Egídio Serpa egidio.serpa@svm.com.br
(Atualizado às 05:55)
Legenda: Há problemas graves que atacam o organismo do serviço público brasileiro, incluindo renúncias fiscais, que passam dos R$ 600 bilhões
Foto: Shutterstock
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Esta coluna trocou mensagens ontem com um ás cearense da ciência médica, com especialização tanto na cirurgia do abdome quanto, também, na análise dos atos e fatos da política e da economia brasileiras. Sob óbvio anonimato, ele começou discordando da opinião do empresário Cristiano Maia, que ontem, neste espaço, considerou o estado brasileiro grande e caro demais, sugerindo que o próximo governo reduza o número de ministérios, de cargos comissionados e funções gratificadas. 

“O Reino Unido, com população menor do que a do Brasil, tem, proporcionalmente, número maior de servidores públicos”, disse o cirurgião, sob o contra-argumento de que os ingleses são um país rico, cujo governo devolve à população, em serviços de qualidade, o imposto que recolhe do contribuinte, o que não acontece aqui. 

“Eu cresci ouvindo os candidatos a presidente discursarem com a promessa de que reduziriam o número de ministérios. Qual o impacto financeiro disso? Zero!” – ele afirmou, recebendo a resposta de que o impacto consequente é de ordem moral, um sinal de austeridade e da presença da autoridade, e o povo gosta disto (o povo não gosta é do autoritarismo). 

Acostumado, diariamente, a abrir e fechar o abdome de homens e mulheres de todas as idades, protegidos por planos de saúde, ele criticou o que chamou de “bolsa empresário”. E justificou: 

“O empresário brasileiro, da indústria e do agro, acostumou-se às benesses do governo, e neste momento, por exemplo, está pedindo outra bolsa para rolar suas dívidas com os bancos privados e públicos”, disse o médico, ouvindo em contrapartida que na Europa, nos Estados Unidos e na China, é o governo que subsidia fortemente as atividades econômicas por meio de estímulos financeiros, como os oferecidos aos agricultores e pecuaristas da França, que até hoje não aprenderam a produzir mais com menos, como os brasileiros.  

O cirurgião, sempre citando as opiniões de Cristiano Maia, avançou em sua crítica e reabriu a ferida das isenções e dos incentivos fiscais com os quais o governo da União privilegia a indústria nacional em todas as regiões do país, incluindo o Norte e o Nordeste.  

“Entre janeiro de 2024 e abril de 2025, empresas brasileiras deixaram de pagar R$ 414 bilhões em impostos federais por conta de isenções e incentivos fiscais”, disse ele, com toda razão.  

Na verdade, as renúncias fiscais, incluídos os incentivos concedidos à indústria do Nordeste e do Norte e ao setor automobilístico (as chinesas no meio) tudo somado, chegam hoje aos R$ 600 bilhões anuais, o que levanta uma dúvida e provoca uma pergunta: será que a Zona Franca de Manaus, depois de 50 anos incentivada com dinheiro público, ainda não aprendeu a produzir sem ajuda estatal?  

Se o próximo governo, seja qual for, reduzir à metade a exagerada renúncia fiscal, terá dado um passo gigantesco, importante e simbólico no sentido de reduzir a dívida pública e seu serviço. 

O Brasil gastou no ano passado, só com os juros da dívida, R$ 1,050 trilhão, algo que será maior neste 2026 por conta da explosão do gasto do governo. O Orçamento da União jamais alcançará superávit primário dessa grandeza, razão pela qual o grande desafio do futuro governo será reduzir suas despesas, estancar e diminuir a dívida, com o que contribuirá para abaixar a inflação e, consequentemente, levar o Banco Central, por meio do seu Copom, a reduzir os juros. 

Como se estivesse com o bisturi na mão, o cirurgião fez uma profunda incisão verbal na antiga e já rejeitada ideia de privatização do SUS, o Sistema Único de Saúde, que é o melhor do mundo, sofrendo, porém, de um grave problema de gestão.  

A coluna concordou com ele: passar para a iniciativa privada o SUS, um serviço público que universaliza o atendimento na área da saúde, foi e segue sendo uma ideia de jerico e, por isto mesmo, sepultada há bom tempo.  

Repita-se: o SUS é uma concepção genial, carente, todavia, de gestão profissional séria e competente. Em vez de indicados por políticos, os gestores do SUS e, também, da Previdência Social deveriam ser profissionais recrutados no mercado, com liberdade para tomar todas as decisões. Dinheiro para o SUS não tem faltado; o que falta e, pelo visto, continuará faltando, é uma correta e eficiente gestão. 

Como se observa, o problema fiscal e monetário do país é tema das preocupações de quem produz e trabalha em todas as áreas. Se nada for feito, o que hoje é só um problema virará uma crise que poderá levar ao caos, e ninguém deseja esse final. 

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