Celular de Vorcaro é arsenal atômico que assusta a República
No Palácio do Planalto, no Congresso Nacional e no Supremo Tribunal Federal há um temor em torno do contém o smartphone do dono do Banco Master
Você compraria um carro usado de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025? E do senador David Alcolumbre, presidente do Senado, você compraria? Um fusca do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), você estaria disposto a comprar? E um Corolla do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Mota? Se fossem viver da revenda de automóveis usados, esses quatro e vários outros ministros de tribunais superiores e dezenas de senadores e deputados morreriam de fome. Por uma simples razão: são poucos os que, hoje, confiam neles.
Eis, resumidamente, o ponto a que chegaram o Poder Judiciário, a política e os políticos brasileiros. Até há muito pouco tempo, casos de corrupção estavam restritos à raia miúda, ou seja, aos de sempre: vereadores, prefeitos, deputados estaduais e federais. Posteriormente, o sarrafo que mede essa ilícita atividade foi subindo. Desde meados do ano passado de 2025, a bactéria da corrupção invadiu a corrente sanguínea da elite do Senado Federal e, acreditem, a do STF, também.
O Brasil e sua capital, Brasília, a caríssima terra da fantasia, e os brasileiros de todos os estados e do Distrito Estadual de Fernando de Noronha (PE) estão, neste momento, chocados, decepcionados, desapontados, desiludidos, desenganados e frustrados com o que a Polícia Federal trouxe à luz no início da noite de terça-feira, 11: o direto e claro envolvimento do ministro Dias Toffoli no escândalo do Banco Master. Antes dele, revelou-se que o ministro Alexandre de Moraes também está envolvido, porque sua mulher e filhos têm escritório de advocacia presta serviço ao Banco Master por meio de um contrato de R$ 129 milhões. O caso passa a ser assim, também, um escândalo do STF.
A Polícia Federal (PF), um dos dois principais centros de excelência do sofrível serviço público brasileiro (o outro é a Receita Federal), alcançou o impossível: periciou o telefone celular do dono do Banco Master, e, entre tudo o que encontrou nele, estão conversas de Dias Toffoli com Daniel Vorcaro, tratamento de pagamentos. Se Toffoli, relator do escândalo do Master, precisava de provas para acusar Vorcaro, a PF as colheu e as entregou diretamente ao presidente do STF, ministro Edson Fachim, que continua lutando, até agora sem êxito, para impor aos seus colegas da Suprema Corte um Código de Conduta. Surpresa: essas provas incriminam Toffoli, também.
O que a PF permitiu vazar para a imprensa na terça-feira foram só poucos detalhes do gigantesco e destruidor arsenal atômico arquivado no smartphone de Vorcaro. No Palácio do Planalto, nas duas casas do Congresso Nacional, na luxuosa sede do STF e no Superior Tribunal de Justiça (STJ), é enorme o medo do que esse arquivo poderá revelar. Afinal, a teia de relacionamento de Vorcaro com a elite da política e da magistratura do país é de quem, digamos assim, pode derrubar a República. E se ele decidir fazer uma delação premiada, talvez não sobre pedra sobre pedra.
O celular de Vorcaro, em poder da PF, tem poder de fogo semelhante ao dos arquivos de Jeffrey Epstein, o financista, pedófilo e criminoso sexual, cujos arquivos foram liberados pelo Departamento de Justiça dos EUA, revelando suas relações íntimas com príncipes, princesas, empresários, artistas e até autoridades e ex-autoridades do governo norte-americano e do Reino Unido. Lá, as coisas estão acontecendo – já houve renúncias e declarações de arrependimento. Aqui, as coisas começam a acontecer.
Diante de tudo o que já foi exposto, diante do esforço que a grande mídia vem fazendo para manter intensa a divulgação dos fatos, diante das investigações que os agentes da PF vêm desenvolvendo na velocidade do frevo, mas com a cautela exigida dos bons investigadores, torna-se cada vez mais difícil o sucesso de uma “operação abafa” com o objetivo de – como aconteceu com a Lava Jato – anular, por filigranas jurídicas, o acervo de provas já levantado e que aponta na direção do STF.
O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central pelo conjunto da obra: uma série de operações fraudulentas que prejudicaram 1,6 milhão de pessoas físicas e jurídicas em todo o país. O Fundo Garantidor de Crédito (FGC) está gastando R$ 50 bilhões para o ressarcimento dos lesados, que, porém, estão recebendo só o teto do que é permitido: R$ 250 mil – o que passar disso deve ser considerado perdido para sempre.
A pergunta agora é esta: o que fará o STF para limar sua imagem, tisnada pelo comportamento de ministros dos quais se espera, no mínimo, padrão moral e ético de comportamento em todas as suas variantes. Um ministro do STF deve estar acima de qualquer suspeita. Era o que os brasileiros pensávamos até a PF desvendar o que estava por trás do Banco Master, uma arapuca que hoje ameaça a democracia brasileira.
Ontem à noite, os ministros do STF reuniram-se e decidiram afastar o o seu colega Dias Toffoli da relatoria do caso do Banco Master. Por sorteio, o ministro André Mendonça, nomeado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, foi escolhido o novo relator.
Ontem à noite, os ministros do STF reuniram-se e decidiram aceitar o pedido do seu colega Dias Toffoli de afastar-se da relatoria do caso do Banco Master. Por sorteio, o ministro André Mendonça, nomeado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, foi escolhido novo relator. Deve ser lembrado que o ministro Mendonça é o relator, também, do escândalo do INSS, que envolve figuras importantes ligadas ao Palácio do Planalto e ao Congresso Nacional.
No meio da noite de ontem, os 10 ministros do STF distribuíram uma nota, na qual elogiam a atuação do ministro Toffoli e “reconhecem a plena validade dos atos praticados” pelo ministro Dias Toffoli, que “atendeu a todos os pedidos formulados pela Polícia Federa e pela Procuradoria Geral da República”.
Ora, isto não é verdade. O ministro Dias Toffoli proibiu a Polícia Federal de periciar todo o material apreendido na operação da PF que prendeu Daniel Vorcaro e na que prendeu o seu cunhado, Fabiano Campos Zettel, quando este se preparava para fugir do país com destino a Dubai. Essa decisão de Toffoli surpreendeu o mundo jurídico, porque foi uma atitude inédita, provocando reação forte da opinião pública e da mídia, diante da qual voltou atrás.
O que se teme, agora, é a chamada operação abafa. O Procurador Geral da República, Paulo Gonet, está desafiado a entrar no STF com um pedido de suspeição do ministro Dias Toffoli, pois o relatório da Polícia Federal indica que ele cometeu crime ao receber dinheiro de fundos do Banco Master. O que acontecerá com o ministro Alexandre de Moraes não se sabe, ainda.
Desconfia-se que essa possível operação abafa, que já estaria em curso, tem o objetivo de culpar o Banco Central pela liquidação do Banco Master. A narrativa que circula em Brasília é de o setor de fiscalização do Banco Central teria demorado demais a agir para liquidar o Banco Master, e por esta razão o escândalo aconteceu.
Durma-se com um barulho desse.
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