Água e Data Centers: a eficiência é o caminho
Parte da opinião pública ainda associa data centers a grandes consumidores hídricos. Isto não reflete a realidade dos projetos de nova geração tecnológica.
O texto a a seguir é de Rodrigo Abreu, CEO da Omnia, empresa construtora do gigantesco Data Center que, no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, na geografia de Caucaia, funcionará com energia renovável fornecida pela brasileira Casa dos Ventos e será operada pela chinesa ByteDancem dona do TikTok.
O texto de Abreu é oportuno, atual e esclarecedor, pois põe esclarece o que é verdade e o que é lenda. Elaborado de forma didática para facilitar a leitura e o entendimento em torno da questão, o texto merece ser lido com atenção. Ei-lo, na íntegra:
“A expansão da economia digital é um movimento irreversível. Inteligência artificial, computação de alto desempenho, serviços em nuvem e a crescente digitalização de empresas e governos exigem uma infraestrutura robusta, segura e de baixa latência. Nesse contexto, o Brasil vive um momento decisivo, com projetos de data centers ganhando escala e relevância internacional.
“Esse crescimento, no entanto, traz consigo um debate legítimo sobre o uso de recursos naturais, como as demandas de energia elétrica, mas, em especial, da água necessária para o resfriamento dos Data Centers. Parte da opinião pública ainda associa data centers a grandes consumidores hídricos, capazes de competir com o abastecimento de cidades inteiras. Essa percepção, embora compreensível, não reflete a realidade dos projetos de nova geração.
“A discussão correta não é se Data Centers consomem ou não água, pois praticamente toda atividade humana a consome, em maior ou menor grau. As perguntas centrais são: quais padrões de eficiência estamos adotando ao atrair esse tipo de infraestrutura para o país e se os valores efetivamente consumidos por esses projetos são significativos em relação à disponibilidade de recursos existentes.
“Os Data Centers mais modernos operam com sistemas de resfriamento em ciclo fechado, nos quais a água circula continuamente em ambientes controlados e herméticos, com o resfriamento do líquido circulante realizado por trocadores de calor resfriados a ar. Nesse modelo, não há descarte contínuo de água, apenas reposições pontuais, principalmente por evaporação residual dentro do sistema. Trata-se de uma abordagem que transforma a água em um insumo técnico de alta eficiência, e não em um recurso de uso intensivo.
“Para colocar esse consumo em perspectiva, é fundamental compará-lo com outras atividades amplamente presentes no cotidiano urbano e industrial, muitas delas pouco questionadas em relação ao uso de recursos hídricos. Um hotel de médio porte pode consumir entre 300 e 600 litros de água por hóspede por dia. Restaurantes urbanos, especialmente aqueles com alta rotatividade e processos intensivos de lavagem, utilizam volumes semelhantes ou superiores. Lava-jatos podem consumir centenas de litros de água por veículo atendido. Já setores industriais como o têxtil ou o de papel e celulose operam com ordens de grandeza significativamente maiores, frequentemente na casa de milhares de metros cúbicos diários.
“Em contraste, Data Centers de nova geração utilizam a água de forma altamente controlada, com consumo considerado baixíssimo quando comparado com outras atividades econômicas e mesmo com consumos residenciais.
“No caso do Data Center Omnia do Pecém, no Ceará, projetado para ser o maior Data Center individual da América Latina, com 200 MW de capacidade de TI, o consumo de água diário projetado é de até no máximo 30 metros cúbicos, volume equivalente ao de um pequeno conjunto residencial com cerca de 70 residências. Desse total, apenas cerca de 10% do consumo estão associados diretamente ao resfriamento dos equipamentos; os demais 90% correspondem ao consumo humano e predial dos colaboradores, não sendo relacionados, desse modo, à atividade técnica do data center. Sob qualquer ótica, esse consumo é considerado baixíssimo, e não deveria ser tema de discussão quanto ao uso de recursos naturais.
“Estes dados ajudam a esclarecer um ponto fundamental: o problema não está na existência do Data Center, mas na eficiência do projeto. Quando concebidas com tecnologia adequada, essas infraestruturas demonstram que é possível expandir a capacidade de processamento digital sem pressionar os recursos hídricos das regiões onde se instalam.
“Felizmente, no país, cada vez mais temos visto que os novos projetos de Data Center já consideram esse modelo tecnológico que prescinde do grande consumo de água que no passado havia sido associado às suas operações.
“Eficiência, portanto, não é apenas uma agenda ambiental ou um discurso ESG. É uma decisão estratégica, técnica e econômica. Projetos eficientes são mais resilientes, mais competitivos e mais preparados para operar em um mundo cada vez mais atento às restrições ambientais e à disponibilidade de recursos naturais valiosos.
“O Brasil tem diante de si uma oportunidade única: consolidar-se como um polo relevante da economia digital global, estabelecendo desde já padrões elevados de eficiência hídrica, energética e operacional. O debate sobre água e Data Centers precisa sair do campo do medo e das especulações e avançar para o campo da engenharia, da tecnologia e das escolhas corretas.
“No fim das contas, não se trata de fazer menos. Trata-se de fazer melhor. Em um setor que cresce de forma acelerada, eficiência não é apenas o caminho possível. É o único caminho responsável, viável e sustentável.”
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