Calçados, pescados e manga do Ceará entraram no tarifaço

As placas de aço produzidas pela ArcelorMittal, que já eram taxadas pelos EUA em 50%, continuarão apenadas, assim como o aço de todo o mundo

Escrito por
Egídio Serpa egidio.serpa@svm.com.br
(Atualizado às 06:13)
Legenda: As placas de aço (foto) da ArcelorMittal continuarão sendo taxadas em 50% pelo governo dos Estados Unidos
Foto: Natinho Rodrigues / SVM
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Noves fora a grande expectativa que criou em torno da questão, o tarifaço de Donald Trump sobre os produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos foi como a história da montanha que pariu um rato. Ontem à tarde, imediatamente após o anúncio da assinatura da Ordem Executiva estabelecendo uma tarifa de 40% sobre a de 10% já existente para todos os produtos brasileiros exportados para o mercado norte-americano, saiu a extensa relação dos 694 itens isentos da taxação, os excepcionalizados.  

Os produtos da indústria cearense do setor de calçados ficaram de fora da lista, ou seja, serão taxados, mas isto não preocupa, como disse à coluna o presidente da Federação das Indústrias (Fiec), Ricardo Cavalcante. Ele explicou que a Grendene, por exemplo, além dos Estados Unidos, exporta para outros 120 países, o que significa que ela não terá dificuldade para repartir entre eles o que vende para os norte-americanos. Isto quer dizer que não haverá desemprego na Grendene, nem nas outras indústrias calçadistas locais, posto que estas, quase todas, têm o mercado interno brasileiro como sua prioridade. 

Na lista de exceções do tarifaço, constam “produtos agrícolas e alimentícios”, e entre estes a “castanha do Brasil em casca, fresca ou seca”. Na Federação da Agricultura e Pecuária (Faec), a informação que esta coluna colheu do seu presidente Amílcar Silveira foi a certeza de que a castanha de caju está isenta do tarifaço, mas um grande exportador da amêndoa disse à presidência da Fiec que está em dúvida. Aliás, a dúvida era o que sobrava ontem à noite no meio empresarial do Ceará e do país como um todo. 

Da longa lista de exceções não constam também as frutas frescas, como melão, uva e manga, muito exportadas pelos cearenses, pernambucanos, baianos e potiguares para os Estados Unidos.  

Também foram taxados os pescados, incluindo a tilápia, a lagosta e os peixes vermelhos, como o pargo, que terão de pagar mais 40% de taxa para continuarem sendo vendidos para os Estados Unidos. É uma notícia ruim para o setor pesqueiro e para a sua indústria de beneficiamento, uma área empregadora intensiva de mão de obra.  

Ontem, no final da tarde, na Fiec e na Faec, havia um esforço na busca por consultoria em mercado exterior para esclarecer dúvidas sobre os itens da extensa lista de exceções.  

Mas Ricardo Cavalcante e Amílcar Silveira trataram de deixar bem claro: o esforço de ambos e o de suas entidades está voltado para o esclarecimento de todas as questões relativas, exclusivamente, aos produtos que a indústria e o agro do Ceará exportam para o mercado norte-americano.  

Ricardo Cavalcante chamou atenção para um detalhe importante da Ordem Executiva de Donald Trump, a qual estabelece o seguinte: o produto colocado dentro do navio ou do avião até o próximo dia 6 de agosto, ou seja, a quaurta-feira da semana que vem, será considerado embarcado, ou seja, protegido pela Ordem Executiva e, por isto mesmo, livre do tarifaço.  A vigência da nova tarifa de 40% (além da já existente, de 10%) começará exatamente a zero hora do dia 6 de agosto. 

Com as placas de aço da ArcelorMittal nada acontecerá: elas já são taxadas em 50%, como o é o aço da China e de qualquer outro país. 

Ricardo Cavalcante e Amílcar Silveira integram o Grupo de Trabalho que, coordenado pelo governador Elmano de Freitas, já está a elaborar sugestões que serão apresentadas ao vice-presidente Geraldo Alckmin, propondo medidas conjuntas dos governos federal e estadual com vistas ao socorro das empresas do Ceará que sofrerão prejuízos graves por causa do tarifaço de Donald Trump. 

Entre as medidas a serem sugeridas, está a liberação de créditos de exportação obtidos por meio da Lei Kandir, por exemplo. Empresas que vinham exportando para os Estados Unidos com total isenção de imposto deixarão de fazê-lo por causa da absurda taxa estabelecida pelo governo norte-americano, e isso terá profunda e negativa repercussão na sua contabilidade, podendo acarretar a demissão de funcionários, algo que torna mais grave a questão.  

No fim da tarde de ontem, a notícia das excepcionalidades do tarifaço de Donald Trump alegrou e mudou o rumo da Bolsa de Valores brasileira, a Bovespa. Ela vinha em queda até o momento em que saiu a Ordem Executiva do presidente dos EUA, e desde então passou a subir, fechando em alta. E o dólar, que vinha em alta, caiu.  

Mas, pelo que se lê e ouve, as emoções continuarão hoje, quinta-feira. Qual será a reação do governo brasileiro? Que tipo de pressão farão os setores da indústria e do agro brasileiros farão para que se amplie o número dos produtos excepcionalizados? Saberemos ao longo deste dia. 

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