A fábrica que não contrata, e o povo que cria
Pecém mais formação e acesso podem fazer de Fortaleza o que Dublin se tornou.
Quem escreveu o texto abaixo foi o empresário Tiago Guimarães, ex-presidente da AJE e um intelectual estudioso e preocupado com o que se passa no Ceará. Ele trata da nova indústria, que é intensiva em capital, energia e automação (Data Centers incluídos).
Pela atualidade do tema, pela oportunidade de sua discussão e pelo conteúdo do texto, esta coluna o publica, com exclusividade. Leiam-no:
“O Brasil ainda discute desenvolvimento com a lógica dos anos 1970: atrair indústria para gerar emprego em massa. Esse mundo acabou. A indústria moderna é intensiva em capital, energia e automação. Um datacenter de 100 megawatts, a planta mais representativa da nossa era, mantém entre 50 e 100 pessoas fixas.
“Parece má notícia. É a maior oportunidade do país em décadas. Se a fábrica do século 21 não compra trabalho barato, ela compra energia limpa, estável e contratável por décadas. E o Brasil tem exatamente isso.
“O jogo já começou. A regulamentação do marco legal do hidrogênio de baixa emissão saiu em agosto de 2026, destravando incentivos que mais de R$ 64 bilhões em projetos esperavam. O Redata e a Política Nacional de Datacenters condicionam benefício fiscal a P&D, energia limpa e eficiência hídrica: incentivo por desempenho, não cheque em branco. O Pecém já aprovou doze projetos somando R$ 585 bilhões, com cinco datacenters.
“O gargalo não é custo de mão de obra. É transmissão e energia firme. Quem empacotar energia limpa contratável por quinze ou vinte anos, vence.
“Se a planta não emprega, o emprego vem do entorno: serviços de software e IA, saúde, bioeconomia e, de forma subestimada, a economia criativa. Games, animação, audiovisual, música, design. Setores que exportam sem chaminé e empregam multidões.
“A conexão que ninguém desenha é esta: a infraestrutura verde é o que barateia e viabiliza a economia criativa. Nuvem local derruba custo, latência e compliance para quem cria no Brasil. E Dublin não virou hub porque o datacenter emprega; virou porque o talento formado ao redor fundou startups, empresas, estúdios e produtoras.
“A segunda perna é o fundo soberano do conhecimento. A Noruega transformou renda petrolífera em 1,8 trilhão de euros que financiam educação. O Brasil pode fazer o mesmo com royalties da energia verde, com regras sagradas: gasta-se o rendimento, nunca o principal; gestão independente; blindagem contra saques de governo.
“Esse rendimento tem dois destinos. Bolsas de padrão internacional, e não só para engenheiros: designers, cineastas, desenvolvedores de games, cientistas de dados, com cláusula de retorno.
“E acesso. A Suécia subsidiou computadores domésticos nos anos 1990 e, uma geração depois, produziu Spotify, Skype, Klarna, Minecraft e King. Dez milhões de habitantes viraram potência em produtos digitais porque democratizaram o acesso antes de todo mundo. O equivalente brasileiro é claro: computadores, conexão e ferramentas de criação e IA na mão da população, pagos pelo rendimento do fundo. Talento é distribuído por toda parte; oportunidade, não.
“Energia limpa atrai as plantas. As plantas geram divisas e royalties. Os royalties alimentam o fundo. O fundo forma e equipa gente. Essa gente cria a economia que de fato emprega, que exporta e que forma o ecossistema técnico atraindo as próximas plantas.
“No Ceará isso é concreto: porto, vento, sol, a rota mais curta para a Europa e tradição em audiovisual com o forró e design. Pecém mais formação e acesso podem fazer de Fortaleza o que Dublin se tornou.
“A fábrica do século 21 não contrata operários. Ela compra energia. Gente qualificada e criativa captura o resto do valor.
“Não é sobre dar emprego ao povo na planta. É sobre fazer o povo ser dono da planta, e criador do que vem depois dela.”
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