Terra Jovem: saiba porque cientistas rejeitam a ideia

Esse pensamento é tão obsoleto quanto a ideia da Terra plana, e ambas estão no mesmo patamar de desinformação

Escrito por
Ednardo Rodrigues ceara@svm.com.br
Foto: Agência Espacial Europeia (ESA)

Em 1965, Clair Patterson descobriu a idade da Terra, utilizando datação por decaimento de urânio-chumbo na sala mais limpa do mundo, como sendo cerca de 4,5 bilhões de anos. Nos últimos três anos, e também na última semana, uma ideia antiga voltou a ser discutida na internet, chamada de Terra Jovem. Segundo esta concepção, a Terra teria apenas alguns milhares de anos. Esse pensamento é tão obsoleto quanto a ideia da Terra plana, e ambas estão no mesmo patamar de desinformação. 

Dentre os primeiros famosos a estimarem uma data para Terra, podemos destacar o arcebispo irlandês James Ussher, do século XVII. Utilizando a genealogia da descendência de Adão e outros eventos bíblicos, ele calculou a data da criação do mundo como tendo ocorrido no dia 23 de outubro de 4004 a.C. na Mesopotâmia. Como estamos em 2025, a Terra teria 4004 + 2025= 6029 anos

Contudo, essa não é a idade da Terra, é a idade da história. Aprendemos na escola que a história nasceu com a invenção da escrita cuneiforme em tabletes de argila, na Mesopotâmia, há cerca de 6000 anos. Mas antes da história, o que temos? Isso mesmo, a pré-história. Aquela na qual os dinossauros foram extintos, há 66 milhões de anos.

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Apesar disso, Ussher até fez boas estimativas para eventos bíblicos. Por exemplo, ele estimou uma data para queda da muralha de Jericó (Josué 6) na Palestina, como tendo ocorrido no ano de 1451 a.C. Um estudo comparando cerâmicas de jarros e outros objetos aponta que o evento ocorreu por volta 1550. Uma divergência de 99 anos até que não é tão ruim.

Contudo, a genealogia bíblica está limitada à ascensão dos povos mesopotâmicos de onde veio Abraão (Gn 15,7), por isso a coincidência com a invenção da escrita há 6000 mil anos. Mas existem muitas, mas muitas evidências de eventos anteriores a este tempo. As ruínas da Torre de Jericó, por exemplo, datam de 10.000 anos atrás e estão entre as mais antigas construções humanas, superando até as pirâmides do Egito.

Mesmo assim, a proposta de Ussher para idade da Terra só começou a ser questionada no século XVIII, com avanços na geologia e paleontologia. Um dos primeiros métodos dessas áreas foi a datação de fósseis por estratigrafia (Século XIX). Esse conceito analisa as camadas de rocha sedimentar sobrepostas ao longo das eras. Quanto mais profunda estiver uma camada, mais antigo é um fóssil encontrado nela.

Só no século XX surgiu a datação por decaimento radioativo, conhecida também como datação radiométrica. No curso de Física, aprendemos sobre esse método. Essa técnica já foi comparada com outros métodos de datação como estratigrafia, dendrocrologia (número de anéis em troncos de árvores). É muito interessante, cada anel corresponde a um ano. Esse método tem uma limitação de 10 mil anos.

Mais recentemente, surgiu a termoluminescência limitada a 1 milhão de anos. Já algumas datações por decaimento radioativo superam bilhões de anos dependendo do tipo. Esses métodos concordam entre si dentro de suas limitações de tempo. 

Dentre os métodos capazes de estimar a idade da Terra, Clair Patterson, citado no início do texto, aplicou o decaimento de urânio em chumbo. Neste caso, o urânio presente na atmosfera se adere a camada e depois decai em chumbo. Após a camada ser coberta por outra, a quantidade de urânio começa a diminuir. Quanto mais o tempo passa, menor a quantidade de urânio e maior a quantidade de chumbo. Medindo-se essa quantidades sabe-se quanto tempo passou.

Ainda assim, o crítico pode insistir em contestar o método dizendo que a quantidade de urânio produzida em determinada época pode ter mudado e por isso a estimativa da idade não seria válida. 

É por isso que se verifica a datação por decaimento de outros elementos, como potássio-argônio e rubídio-estrôncio. O resultado converge para o mesmo valor de aproximadamente 4,5 bilhões de anos.

Essa convergência numérica por três tipos de decaimento diferentes não pode ser coincidência, só pode ser uma representação da verdadeira idade da Terra. E significa também que as produções desses elementos na superfície praticamente não foram alteradas, por isso os métodos são confiáveis quando executados com rigor científico.

Não só isso, análises de meteoritos lunares, marcianos e asteroides, todos indicam idades muito próximas às da Terra. Se estes métodos não fossem confiáveis, eles não indicariam idades próximas para outros objetos do sistema solar usando elementos diferentes que são produzidos em quantidades diferentes pela natureza. E é por isso que a comunidade científica está convencida e eu também de que a Terra tem bilhões de anos e não apenas milhares.

Tecidos moles

Os defensores da Terra Jovem também citam como um mantra um artigo de 2005 publicado pela paleontóloga Dra. Mary H. Schweitzer sobre um fóssil de T-Rex que apresentava tecidos moles. Não há mistério, isso não mostra que a Terra é jovem, mostra apenas que os tecidos foram parcialmente conservados por milhões de anos. Inclusive, as amostras do T-Rex foram encontradas em uma camada “enterrada” correspondente ao período cretáceo (144 a 66 milhões de anos atrás). 

A conservação do tecido depende das condições ambientes. Quem não conhece os mamutes congelados, nos quais encontramos tecido mole e até pêlos? Encontrar esse tipo de matéria em sítios paleontológicos é possível, mas raríssimo. Foram descobertos milhões de fósseis sem tecidos moles. Só nos Estados Unidos, o Smithsonian Institution abriga mais de 40 milhões de fósseis. E sabe qual é a quantidade mundial de achados com tecidos moles? Não muito mais do que 17.

Isso só mostra que fósseis com tecido mole são raros, pois passaram-se milhões de anos, mas não são impossíveis de resistir ao tempo por alguma ocasião de conservação. Não tem nada a ver com a idade da Terra de milhares de anos.

Se a Terra fosse jovem,  conseguiríamos encontrar DNA em fósseis com muita facilidade. Assim como encontramos nas múmias do Egito. Por exemplo, a múmia natural de Ginger, a mais antiga do mundo, tem cerca de 5.500 anos e teve seu DNA encontrado e decifrado indicando que se tratava de um homem entre 18 e 24 anos com traços muito mais próximos dos povos do mediterrâneo e do oriente médio do que com os egípcios.

Conseguimos encontrar DNA em fósseis de ancestrais humanos mais antigos com 400.000 ou 800.000 anos. Quanto mais antigo o fóssil, mais improvável é encontrar DNA. Não é impossível, pois pode haver um meio de preservação rara de, por exemplo, dinossauros que ainda não descobrimos. Mas quando encontrarmos DNA de dinossauros, extintos há 66 milhões de anos, vamos abrir o Jurassic Park.

Concluindo, os achados paleontológicos de tecidos moles indicam casos raros de conservação de matéria orgânica e não implicam em uma revisão da idade do planeta.  A datação por três tipos diferentes de decaimento aplicados a rochas, meteoritos marcianos, lunares e de asteroides indicam que a Terra e o sistema solar possuem bilhões e não, milhares de anos. Assim, a Terra Jovem é uma ideia velha e obsoleta. É por isso que a comunidade científica a rejeita. E por está errada não pode ser de Deus, logo os teólogos deveriam recusá-la também. 

Existem outros argumentos e quem quiser discutir ou saber mais sobre o tema pode me mandar um e-mail: ednardo@astrocorp.com.br.

Abaixo eu também deixo algumas fontes que usei. A primeira é em português e a demais em inglês.

  • A.C Tort & F. Nogarol. Revendo o debate sobre a idade da Terra.  Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 35, 2013. 
  • Kathleen M. Kenyon. Excavations at Jericho. London: British School of Archaeology in Jerusalem, 1960.
  • Geyh MA, Schleicher H. Absolute Age Determination: Physical and Chemical Dating Methods and Their Application. Springer-Verlag. 1990.
  • Mary H. Schweitzer et al. Soft-Tissue Vessels and Cellular Preservation in Tyrannosaurus rex. Science. 2005  

*Este texto reflete exclusivamente a opinião do autor.