Por que setembro é tão quente no Ceará
O tempo muda repentinamente em Fortaleza, e a Força Nacional do SUS chega por causa do El Niño.
O tempo andou instável nesta semana, em Fortaleza. Terça e quarta-feira (1 e 2) começaram com o céu encoberto e terminaram com sol forte e calor de tarde cheia, tudo dentro de poucas horas. Essa troca rápida costuma causar confusão, porque muita nuvem sobre a cidade costuma ser lida como sinal de temporal a caminho. Os números da Funceme mostram outra coisa.
Segundo o sistema de monitoramento da Fundação, a estação de Fortaleza, no bairro Itaperi, registrou 0,2 mm nas últimas 24 horas. Em São Gonçalo do Amarante, cidade vizinha na Região Metropolitana, o pluviômetro marcou 1,0 mm, o maior valor do Ceará inteiro no período.
Convertendo em litros por metro quadrado, como fiz na coluna sobre a chuva de julho, os dois números juntos não molham um vaso de planta.
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Os pluviômetros espalhados em todo o estado não saíram do zero. O dia geralmente começa bem nublado chove um pouquinho e depois o restante do dia é seco e quente.
A explicação para a virada rápida está no tipo de sistema que passa pelo litoral nesta época do ano. Setembro é o mês mais seco do calendário em Fortaleza, com normal climatológica do Inmet, calculada entre 1991 e 2020, de apenas 13,6 mm no mês inteiro, contra mais de 300 mm em fevereiro ou março, no auge da quadra chuvosa.
A cidade está na pós-estação, período de junho a novembro, em que a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) já deixou o Nordeste e a brisa marítima, e os Distúrbios Ondulatórios de Leste (DOLs) seguem em campo sozinhos.
São sistemas rasos, sem volume de umidade para sustentar chuva por muito tempo. A nuvem se forma cedo, encobre o céu por algumas horas, solta pouco ou nada, e se desfaz.
Sem cobertura para segurar o calor, a tarde esquenta ainda mais rápido do que esquentaria num dia de céu limpo desde cedo.
Esse vaivém de manhã fechada e tarde quente é o retrato comum de setembro em Fortaleza, repetido praticamente todos os anos. Neste ano, porém, esse padrão de sempre vem com um agravante a mais.
O El Niño, o aquecimento anormal das águas do Pacífico equatorial que já expliquei aqui em julho, deve reduzir ainda mais o volume de chuva e elevar as temperaturas no Nordeste ao longo do segundo semestre.
A resposta que já está a caminho
Foi por causa desse agravante que o Governo Federal confirmou, na segunda-feira, dia 24 de agosto, que Fortaleza vai receber uma base regional da Força Nacional do SUS.
O anúncio saiu durante a reunião "Diálogos Federativos – Emergências Climáticas 2026/2027", conduzida pela Casa Civil com gestores estaduais e municipais do Nordeste. A base cearense integra um grupo de três na região, ao lado de Salvador, já inaugurada, e Recife, ainda em fase de planejamento.
A estrutura segue o modelo nacional anunciado pelo Ministério da Saúde em 30 de junho, quando o ministro Alexandre Padilha detalhou a expansão da Força para oito novas bases regionais pelo país, parte do plano do Governo Federal para os efeitos do El Niño e de outros eventos climáticos extremos.
Cada base contará com Equipes de Resposta Rápida, acionadas para emergências como ondas de calor, secas prolongadas, enchentes e incêndios florestais, capazes de chegar ao local em até 12 horas e manter atuação contínua nas primeiras 72 horas, período considerado crítico para estabilizar a resposta local.
O equipamento inclui viaturas, rádios, comunicação via satélite, drones e instrumentos de reconhecimento, pensados também para áreas de difícil acesso.
Nesta quarta-feira (2), em coletiva com a imprensa, o Governo Federal detalhou a estratégia por região do país. Para o Nordeste, o cenário apresentado inclui chuva abaixo da média e temperaturas acima do normal. A base chega para dar resposta rápida a um período de estiagem que a própria União já projeta para os próximos meses.
Particularmente, acho essas medidas na área da saúde ainda pequenas diante do tamanho do problema. O pacote de segurança hídrica para o Nordeste, anunciado na reunião de 24 de agosto, soma R$ 10,2 bilhões via PAC, e a coletiva desta quarta-feira detalhou outros R$ 4,8 bilhões em água e alimentos para cerca de 12 milhões de pessoas na região.
Do lado da saúde, os valores divulgados até agora são bem mais modestos. O CISC de Salvador, primeiro a ser inaugurado, recebeu R$ 9 milhões, sendo R$ 2,5 milhões em equipamentos e R$ 6,5 milhões para custear a equipe por 24 meses.
E o plano nacional que sustenta as oito novas bases da Força Nacional do SUS, o AdaptaSUS, prevê R$ 9,8 bilhões distribuídos entre 93 ações até 2035, para o Brasil inteiro, não só para o Nordeste.
Diante de um El Niño que a NOAA, a agência de meteorologia dos Estados Unidos, já classificou como potencialmente histórico, a diferença entre o que se investe em obras hídricas e o que se investe em saúde parece grande demais.
Fica aqui, mais uma vez um alerta. O Ceará já viveu cenário parecido entre 2012 e 2017, quando o Estado enfrentou seis anos seguidos de seca.
Eu me lembro bem do auge daquele período, em 2014, quando faltou água até para escovar os dentes em muitas casas do interior. Segundo o próprio Governo do Estado, a Região Metropolitana de Fortaleza opera até hoje com 20% menos água por habitante do que usava antes daquela crise, ajuste que virou permanente depois do racionamento da época.
A iniciativa federal anunciada agora acerta ao tentar agir antes que esse cenário se repita, mas ainda precisa avançar, com prazos definidos, orçamento claro para a saúde e integração real entre União, Estado e municípios, para combater os efeitos do El Niño.
Fortaleza integra ainda a rede de Centros de Informação em Saúde e Clima, o CISC, iniciativa que cruza dados meteorológicos e de saúde para antecipar riscos à população.
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.