Força Nacional do SUS terá base no CE ainda neste ano para enfrentar impactos do El Niño

Equipamento será instalado em Fortaleza e dará apoio a possíveis eventos climáticos extremos.

Escrito por Clarice Nascimento clarice.nascimento@svm.com.br
25 de Agosto de 2026 - 14:00
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Legenda: Base nacional do SUS e Centro de Informação serão instalados em Fortaleza.
Foto: Leonidas Santana / Shutterstock.com

Com objetivo de acelerar o atendimento a áreas afetadas por desastres climáticos, o Ceará terá uma base regional da Força Nacional do Sistema Único de Saúde (ForSUS) com equipes preparadas para respostas rápidas, viaturas e equipamentos. A estrutura será instalada em Fortaleza e é uma das medidas do Governo Federal para o enfrentamento do El Niño e seus impactos. 

A informação foi detalhada na reunião online “Diálogos Federativos – Emergências Climáticas 2026/2027”, realizada na última segunda-feira (24) e acompanhada pelo Diário do Nordeste. Liderado pela ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, o evento reuniu membros de diversos ministérios federais e gestores municipais e estaduais do Nordeste. 

A base de Fortaleza será uma das três instaladas no Nordeste. A primeira já foi inaugurada em Salvador, na Bahia, e a outra está sendo planejada em Recife, Pernambuco. As unidades objetivam dar apoio a situações de desastres e são uma forma de "educação permanente e estruturação da capacidade local de pronta resposta". 

A instalação das bases regionais faz parte da expansão e descentralização da ForSUS e busca aproximar profissionais qualificados dos territórios mais vulneráveis, permitindo rápido acesso às áreas afetadas. O equipamento também fortalece a capacidade de resposta do SUS aos eventos climáticos. 

R$45 milhões
é o valor estimado como ‘reforço orçamentário’ para enfrentamento aos impactos do El Niño em todo país.

Além disso, o Ceará ganhou um Centro de Informação em Saúde e Clima (CISC). Operando como um "sistema integrado de inteligência em saúde", o equipamento reúne monitoramento, coleta de dados e análise de impactos epidemiológicos para subsidiar o SUS. 

Ao Diário do Nordeste, a superintendente do Ministério da Saúde no Ceará, Kelly Arruda, informou que o CISC já está em funcionamento desde o início de julho com a equipe participando do treinamento promovido pela Pasta e pela Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA).

Conforme Arruda, o Centro está instalado no Célula de Vigilância Epidemiológica de Fortaleza, vinculada à Coordenadoria de Vigilância em Saúde da Secretaria Municipal da Saúde de Fortaleza (SMS).

Integração e equipe profissional

Os dois equipamentos serão integrados de forma "contigente", sendo ativada quando eventos climáticos extremos excederem a capacidade de resposta local. "O CISC funcionará como fonte de inteligência epidemiológica e climática para subsidiar a mobilização da FNSUS, cabendo ao gestor municipal ou estadual a convocação formal conforme mecanismos da ESPIN", explica Arruda. 

A gestora detalha que a equipe do CISC é multidisciplinar, em composição compatível com o modelo nacional, dividida da seguinte forma:

  • Epidemiologista (1) — para a análise de dados epidemiológicos, padrões de morbimortalidade associados a eventos climáticos, vigilância de doenças sensíveis ao clima;
  • Cientista de dados (1) — elaboração de modelos preditivos, integração de bancos heterogêneos e construção de dashboards;
  • Analistas geoespaciais (2) — mapeamento de vulnerabilidades territoriais, georreferenciamento de casos e eventos climáticos, análise espacial de riscos, integração com o Observatório de Riscos Climáticos de Fortaleza;
  • Meteorologista (1) — interpretação de previsões, monitoramento de variáveis atmosféricas, análise de fenômenos como El Niño, subsídios para modelagem climática aplicada à saúde.

Os CISCs monitoram, por exemplo, ondas de calor, chuvas intensas, inundações, estiagens, secas, incêndios florestais e períodos de baixa umidade do ar.

Assim, no Ceará, os equipamentos podem monitorar dados climáticos relacionados à qualidade do ar, níveis de corpos d'água, elevação do nível do mar, bem como dados de saúde como morbimortalidade por doenças sensíveis ao clima (arboviroses), estresse térmico, internações e óbitos associados a eventos extremos, e cobertura vacinal em áreas de risco. 

Na prática, o CISC pode identificar, com base em previsões meteorológicas, quais os bairros vulneráveis, grupos de risco e serviços potencialmente mais demandados.

Desse modo, podem auxiliar a rede assistencial a reorganizar leitos, reforçar plantões e organizar a triagem nas Unidades de Pronto-Atendimento (UPA) priorizada para sintomas relacionados a eventos climáticos. 

Por que Fortaleza foi escolhida

Fortaleza foi uma das capitais escolhidas por "vulnerabilidade climática, capacidade institucional e relevância estratégica", afirma Kelly Arruda. Próxima ao Equador, a temperatura média da cidade pode ser elevada com o fenômeno do El Niño.

Além disso, há dados históricos relevantes que fortalecem a decisão como o El Niño de 2015-2016, que trouxe secas severas para o Estado; surtos de dengue nos períodos de chuva; e Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em ondas de calor. 

Estrutura permanente, o CISC é componente estrutural do AdaptaSUS e terá operação contínua, adaptando aos focos sazonais conforme o calendário climático.

Impactos no Nordeste

Na reunião, áreas do Governo Federal, como Ministério da Saúde, Defesa Civil e Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, mostraram o que está sendo planejado e executado no Nordeste para lidar com os efeitos do El Niño na região. “A gente torce para que ele não seja tão forte, mas nós nos preparamos para enfrentar seus efeitos”, afirma Miriam Belchior. 

“Nós temos feito reuniões com os estados para alinhar parceria e entender como cada região está enfrentando as situações do clima, além de incentivar os municípios a se preparar daquilo que é de sua responsabilidade”, disse. 

Os pilares estratégicos da atuação Federal incluem a unificação e monitoramento dos dados por meio do Painel El Niño, mapeamento dos riscos, antecipação de ações e proteção de populações vulneráveis. 

Para o Governo Federal, os impactos previstos pelo El Niño no Nordeste envolvem chuvas abaixo da média e temperaturas acima da média. As consequências disso são:

  • Redução do potencial produtivo das lavouras;
  • Eventual aumento da demanda por irrigação na fruticultura e aumento dos custos de produção;
  • Possível redução da disponibilidade de água e de forragem para a pecuária. 

Em relação aos recursos hídricos, Rogério da Veiga, chefe da Secretaria de Articulação e Monitoramento da Casa Civil da Presidência da República, afirmou que a situação regional está adequada e que as obras do Rio São Francisco estão respondendo às necessidades da região. 

“Nesse momento, o rio não está com a capacidade afetada e o bombeamento está acontecendo regularmente”, disse. Para Veiga, o conjunto de obras estruturantes melhoram as condições, mas é preciso garantir que “cada casa tenha um reservatório de água e que tenhamos carro-pipa para garantir abastecimento de água se for necessário”.

Acesso prejudicado à água potável, que pode ser uma das consequências da seca, piora riscos à saúde.
Legenda: Acesso prejudicado à água potável, que pode ser uma das consequências da seca, piora riscos à saúde.
Foto: Alex Pimentel.

Assim, mais de 128 mil cisternas já foram entregues no Nordeste até 31 de julho, sendo 37 mil só no Ceará, e cerca de R$2,1 milhões investidos na Operação Carro Pipa. 

Cerca de R$3,4 bilhões são investidos no Ceará para obras de segurança hídrica, incluindo a duplicação do Eixão das Águas, o Cinturão das Águas e as barragens fronteiriças.
 

Apesar disso, 68 de 354 açudes do Nordeste estão abaixo de 20% do volume e podem demandar atenção local, sendo 43 considerados secos. O atraso de chuvas decorrente do El Niño pode trazer impactos negativos em 2027. 

No Ceará, 34 reservatórios estão com capacidade acima de 90% até esta segunda-feira (24) e outros 33 estão abaixo de 30%. Cinco estão em volume morto (abaixo de 5%) e apenas um está seco. 

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