Ceará

Saúde pública enfrenta desafio de adaptação aos impactos do clima e de ‘super’ El Niño

Alexia Vieira alexia.vieira@svm.com.br
23/07/2026 - 14:00

A relação entre as mudanças climáticas e a saúde dos seres humanos está cada vez mais clara. Pesquisadores evidenciam os impactos dos extremos climáticos em problemas cardiovasculares, respiratórios e até mesmo no padrão de doenças infecciosas. 

Adaptar a saúde pública para lidar com as consequências de um clima desregulado consiste em se preparar para um melhor atendimento dos cidadãos — principalmente daqueles mais vulneráveis socialmente — mas também para produção de dados, formação de profissionais e organização logística

Para o pesquisador Diego Xavier, membro da coordenação do Observatório de Clima e Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o primeiro passo é reconhecer que o clima precisa fazer parte do planejamento do Sistema Único de Saúde (SUS). 

“Isso significa usar melhor as informações climáticas, fortalecer a vigilância, identificar quem está mais exposto aos riscos e organizar os serviços para responder de forma mais rápida e eficiente”, afirma.

Apesar das mudanças climáticas serem algo de conhecimento geral há muito tempo, as políticas públicas de preparação ainda são incipientes. Somente em 2025 o Ministério da Saúde (MS) publicou o Plano Setorial de Adaptação às Mudanças Climáticas específico para a área. 

A política, chamada de AdaptaSUS, tem como objetivo central estabelecer estratégias de adaptação na esfera federal de gestão do SUS para reduzir os impactos da mudança do clima na saúde das pessoas e nos serviços de saúde. O plano tem 27 metas e 93 ações definidas.

Além disso, a iniciativa deve definir diretrizes que guiem a atuação das esferas estadual e municipal no enfrentamento da crise climática. Procurada pelo Diário do Nordeste, a Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (Sesa) afirmou, por meio de nota, que está envolvida na iniciativa, atuando na construção do plano estadual de adaptação.

“A Sesa exerce a função de ponto focal do AdaptaSUS, coordenando a articulação entre as áreas técnicas da Secretaria e apoiando os municípios prioritários na elaboração de seus planos locais de adaptação, em conformidade com as diretrizes nacionais”, disse o texto.

Em Fortaleza, a reportagem procurou a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) para saber como a Capital está inserida nas políticas de adaptação climática no âmbito da saúde e se há diretrizes específicas para lidar com ondas de calor, poluição do ar e doenças relacionadas a emergências climáticas.

Em nota, a SMS não detalhou políticas já existentes, mas informou que Fortaleza foi contemplada pelo MS com a implantação de um Centro de Informação em Saúde e Clima (CISC). 

A cidade é uma das oito do país que receberá uma unidade do CISC e integrará uma rede de monitoramento de riscos relacionados a eventos climáticos. 

Em julho, Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, inaugurou o primeiro Centro, que deve monitorar eventos como ondas de calor, chuvas intensas, inundações, estiagens, secas, incêndios florestais e períodos de baixa umidade do ar. Na capital cearense, a iniciativa está em fase de desenvolvimento. 

Depois de dez anos do último “Super El Niño”, o Diário do Nordeste lembra uma das piores secas já registradas no Ceará, as ações emergenciais de convivência com a seca, as soluções de longo prazo adotadas pelo Estado e as políticas públicas para lidar com eventos climáticos extremos na área da saúde.

Super El Niño

Como o ‘super’ El Niño impacta a saúde?

O El Niño é um fenômeno de variabilidade climática natural. O aquecimento e resfriamento (La Niña) das águas superficiais do oceano Pacífico Equatorial acontecem de forma recorrente. No entanto, a intensidade pode variar e, num mundo cada vez mais quente, especialistas se preocupam com os efeitos desses fenômenos em eventos críticos

O AdaptaSUS elenca seis riscos prioritários à saúde relacionados às ameaças climáticas, que podem ser agravados por um El Niño muito forte, como o que está previsto para acontecer em 2026: 

  • Mudança do perfil das doenças vetoriais e zoonóticas; 
  • Insegurança alimentar e nutricional; 
  • Acesso inadequado à água, saneamento e higiene;
  • Riscos à saúde associados a extremos de temperatura – calor e frio;
  • Riscos à saúde associados a extremos de precipitação – inundações e alagamentos e seca e estiagem;
  • Riscos à saúde associados à poluição atmosférica.

Acesso prejudicado à água potável, que pode ser uma das consequências da seca, piora riscos à saúde.
Legenda: Acesso prejudicado à água potável, que pode ser uma das consequências da seca, piora riscos à saúde.
Foto: Alex Pimentel.

Rafaella Moreira, coordenadora do programa de pós-graduação em Enfermagem da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) e pesquisadora dos efeitos das mudanças climáticas na saúde, explica que estudos nacionais e internacionais evidenciam os impactos desses eventos climáticos na saúde. 

Os extremos de temperatura, tanto as mais altas quanto as mais baixas, e o aumento de poluentes atmosféricos estão relacionados a problemas respiratórios, cardiovasculares e cerebrovasculares. 

“Eles levam a um processo inflamatório no organismo que favorece a formação de placas ateroscleróticas e isso aumenta o risco do desenvolvimento de picos hipertensivos e, consequentemente, de doenças cardiovasculares, AVC, infarto”, explica Rafaella. 

A seca, que leva a um acesso inadequado à água, pode afetar diversas comunidades no Ceará, apesar dos esforços já empreendidos na melhoria da segurança hídrica da população rural — como a construção de cisternas e perfuração de poços.

Em um estudo do qual faz parte da coordenação, Rafaella monitora comunidades de Quixadá e Quixeramobim, no Sertão Central, que não têm acesso à água potável em abundância. Em períodos de estiagem, os riscos à saúde aumentam. 

“Com o El Niño que está posto, a gente fica muito preocupado com as condições de saúde dessas pessoas. Aumenta muito o risco de Doenças de Veiculação Hídrica, doenças cardiovasculares, respiratórias. E isso leva as pessoas a buscarem unidades de saúde para tratamentos e até internações. Isso gera uma sobrecarga para o serviço de saúde e um impacto econômico também”, relata. 

Doenças sensíveis ao clima

Vetoriais

  • Dengue
  • Zika
  • Chikungunya
  • Malária
  • Febre amarela
  • Febre do Oropouche
  • Leishmaniose
  • Doença de Chagas
  • Filariose linfática
  • Esquistossomose
  • Febre maculosa

Respiratórias

  • Asma
  • Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC)
  • Pneumonia
  • Infecções respiratórias agudas
  • Influenza (gripe)

Cardiovasculares

  • Infarto agudo do miocárdio
  • Acidente Vascular Cerebral (AVC)
  • Insuficiência cardíaca

Relacionadas ao calor

  • Insolação
  • Exaustão pelo calor
  • Desidratação
  • Estresse térmico

Super El Niño

Vulnerabilidade social é fator de risco para impactos do clima na saúde

Crianças, idosos e comunidades sem acesso a serviços básicos são mais vulneráveis.
Legenda: Crianças, idosos e comunidades sem acesso a serviços básicos são mais vulneráveis.
Foto: Fabiane de Paula.

As consequências das mudanças climáticas não são iguais para todos. Os impactos maiores recaem justamente em comunidades mais vulneráveis, em municípios com precariedade habitacional e desigualdade no acesso a serviços básicos. 

Segmentos historicamente explorados da classe trabalhadora, que são mais expostos às condições extremas de trabalho ao ar livre, também estão na linha de frente das emergências em saúde pública. O plano de adaptação do Ministério da Saúde cita pescadores artesanais, bombeiros, brigadistas, ambulantes e comerciantes de rua, populações acampadas e pessoas em risco de escravização contemporânea. 

Esses riscos à saúde nem sempre são diretos. Rafaella dá um exemplo que ajuda a entender como os eventos climáticos extremos podem, indiretamente, influenciar na saúde da população mais vulnerável também:

“Idosos são pessoas que não conseguem ter uma mobilidade boa, muitas vezes. Como eles vão sair de casa correndo em uma emergência? No Rio Grande do Sul, vimos vários precisando ser resgatados [das enchentes]. Eles também são pessoas que têm mais doenças crônicas e tomam medicamentos. Se ele não consegue sair rápido, como vai lembrar de levar os medicamentos?”

Em uma situação como essa, em que o idoso do exemplo seja levado para um abrigo, o tempo até ele conseguir ser atendido por um profissional de saúde, volte a ter acesso aos medicamentos e consiga retomar o tratamento de uma doença crônica pode ser fatal.

“No interior do Ceará, na seca severa, muitos que vivem da agricultura e que perdem tudo, se não tiverem outro tipo de auxílio, ficam muito vulneráveis. Como vão se deslocar? A gente espera que consigam ter acesso aos medicamentos pelos agentes comunitários de saúde. Mas a gente sabe que, por mais que o SUS seja muito atuante, nem sempre consegue chegar em todo mundo”, diz. 

Super El Niño

Protocolos e proximidade com previsões climáticas

Para Diego Xavier, a saúde precisa se aproximar das previsões climáticas e incorporá-las no planejamento. Apesar de não ser possível saber exatamente o que vai acontecer, os modelos de previsão ajudam a indicar cenários de maior risco. Com isso, Diego explica que é possível organizar melhor os serviços, direcionar ações preventivas e reduzir parte dos impactos. 

O pesquisador acredita que o Ceará tem potencial para realizar essa integração devido à tradição do estado na produção de informações climáticas. A Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) é destaque nacional nessa área. 

Protocolos de saúde que incluam os efeitos do clima no corpo também devem ser adotados, segundo Rafaella. Ela explica que ainda há um receio entre profissionais de fazer a relação entre as doenças e o clima. 

“Se uma pessoa chegar na atenção primária para um atendimento com pico de pressão, as primeiras perguntas dos profissionais de saúde são se teve estresse, se tem sobrepeso, como é o estilo de vida, a alimentação, se está tomando remédio. Mas não há nos protocolos perguntas sobre a casa da pessoa, se é muito quente, se nos últimos dias ela esteve exposta a poluentes atmosféricos”, pondera.

Rafaella também defende que o cuidado seja intersetorial. “Eu posso indicar que a pessoa não faça atividade física ao meio-dia [durante o calor extremo]. Mas em casos de pessoas que moram em casas muito quentes, como um profissional de saúde vai resolver sozinho? Isso envolve várias áreas.” 

Créditos

Alexia Vieira, Repórter | Dahiana Araújo e Nícolas Paulino, Editores de DN Ceará | Louise Dutra, Arte/Animação | Karine Zaranza, Coordenadora de Jornalismo | G. André Melo, Gerente Audiovisual | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo

Este conteúdo é útil para você?