A colisão do foguete da SpaceX com a Lua interfere nas marés?

O estágio do Falcon 9 abriu uma cratera na Lua, mas o efeito sobre os oceanos da Terra é outra história.

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Redação producaodiario@svm.com.br
(Atualizado às 14:28)
Legenda: O choque ocorreu no lado visível da Lua, que estava iluminado no momento.
Foto: Anastasia Lebedeva/Pexels.

O estágio superior de um foguete Falcon 9, da SpaceX, atingiu a Lua na madrugada de quarta-feira (5), às 6h35 no horário universal (UTC), ou 3h35 no horário de Brasília, perto da cratera Einstein. Assim que a notícia circulou, ficou no ar uma dúvida comum a muita gente: um impacto desses pode empurrar a Lua e mexer com as marés aqui na Terra?

Para responder, é preciso olhar primeiro para o que a Lua já enfrentou. Como não tem atmosfera, ela não é atingida por meteoros, nome que damos ao rastro luminoso deixado por um corpo ao queimar no ar. O que cai lá são asteroides, quando maiores do que um metro, e meteoroides, quando menores.

A Lua recebe esses impactos há bilhões de anos, muitos deles causados por objetos bem maiores, mais pesados e mais rápidos do que o estágio do foguete, sem que as marés na Terra sentissem qualquer efeito.

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Para situar o tamanho do que caiu agora: o estágio superior do Falcon 9 tem cerca de quatro toneladas (4 mil quilos), aproximadamente 3,7 metros de diâmetro e perto de 12 metros de comprimento, e atingiu a Lua a mais ou menos 8.700 km/h.

Como se formam as marés?

As marés nascem da diferença de atração da Lua sobre os dois lados da Terra. O lado voltado para ela é puxado com mais força do que o oposto, e essa diferença estica os oceanos em duas elevações.

Como a Terra gira sob elas, temos duas marés altas e duas baixas por dia. Tudo depende de dois fatores: a massa da Lua e a distância dela até nós. A Lua tem massa cerca de 18 quintilhões de vezes maior do que a do foguete, e a energia liberada no impacto equivale à de umas três toneladas de explosivo, insignificante diante do movimento do nosso satélite em órbita.

Por isso, a colisão não altera de forma perceptível nem a massa nem a distância da Lua. A trajetória do nosso satélite continua a mesma, e as marés, também. A resposta à pergunta do título é não.

O que de fato altera as marés age devagar e vem da própria Lua: a cada ano, ela se afasta da Terra cerca de 3,8 centímetros e, ao longo de milhões de anos, isso mexe com a força das marés e até com a duração dos nossos dias. Diante desse processo, lento e contínuo, um estágio de foguete de quatro toneladas não faz diferença alguma.

Por que quase ninguém viu?

Resolvida a preocupação, fica a curiosidade: por que quase ninguém viu o impacto? Parte da resposta está no tamanho do estrago e no poder de resolução dos telescópios, ou seja, a capacidade de um instrumento distinguir dois pontos muito próximos.

Esse limite melhora com o diâmetro da lente ou do espelho: quanto maior o telescópio, mais fino o detalhe. A atmosfera da Terra, ao embaralhar a luz, ainda piora esse limite para quem observa do solo.

A cratera aberta pelo impacto tem poucas dezenas de metros, entre 17 e 30. A Lua está a cerca de 384 mil quilômetros. A essa distância, o Hubble, com espelho de 2,4 metros, distingue detalhes de aproximadamente 100 metros na superfície lunar.

Um bom telescópio amador, de 20 centímetros de abertura, não enxerga nada menor do que cerca de um quilômetro. A nova cratera é bem menor do que o menor detalhe visível pelos nossos melhores instrumentos.

De todo modo, ninguém esperava ver a cratera. O alvo dos astrônomos era o clarão do impacto e a nuvem de poeira lançada logo depois.

E aqui entra a segunda dificuldade: o choque ocorreu no lado visível da Lua, que estava iluminado no momento. Clarões de impacto costumam ser registrados em áreas escuras, onde se destacam do fundo. Sob a luz do Sol, o brilho breve, de menos de um segundo, se perde no reflexo.

Ainda assim, houve registros confiáveis, de natureza científica. O Very Large Telescope (VLT), do Observatório Europeu do Sul, no deserto do Atacama, no Chile, detectou logo após o impacto as assinaturas químicas de sódio e de lítio na nuvem de detritos, um sinal com duração de cinco a dez minutos.

Vista aérea de um complexo astronômico no topo de uma montanha árida durante o pôr do sol. Destacam-se quatro grandes estruturas telescópicas modernas alinhadas em uma plataforma, cercadas por domos menores e um mar de nuvens ao fundo sob luz alaranjada.
Legenda: Very Large Telescope (VLT), do Observatório Europeu do Sul, no deserto do Atacama, no Chile.
Foto: ESO/G. Hüdepohl.

O sódio veio provavelmente do solo lunar. Já o lítio pode ter vindo do próprio foguete. Em órbita da Lua, a sonda sul-coreana Danuri fotografou a região antes e depois do impacto, e a Nasa coordenou telescópios em solo e instrumentos no espaço.

Convém, por isso, desconfiar de qualquer "vídeo da explosão na Lua" em circulação nas redes. Nem os maiores telescópios do mundo flagraram um clarão chamativo, apenas a assinatura química da nuvem e imagens feitas de órbita.

Um vídeo caseiro cheio de efeito tem grande chance de ser montagem, ou o registro antigo do impacto de um asteroide, bem maior, mais pesado e mais veloz do que o pedaço de foguete.

O que a colisão pode ensinar?

Por que tanto esforço para acompanhar um estágio de foguete descartado? Porque está entre os pouquíssimos impactos em que sabemos exatamente o que abriu uma cratera na Lua: o objeto, a massa, a velocidade, o ângulo, a hora e o lugar.

Com esses dados, os cientistas calibram modelos de impacto úteis para o futuro próximo, quando bases e astronautas voltarem a uma superfície exposta a choques, sem a proteção de uma atmosfera.

O evento ainda serviu para testar formas de detectar impactos pela luz, pela poeira levantada e por sinais sísmicos, e a composição química da nuvem ajuda a entender o solo lunar e o comportamento do lixo que deixamos por lá.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor. 

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