Por uma forma arretada de pensar II: rompendo com o regionalismo

Lampião e Maria Bonita
Legenda: "Um pensamento que questione, justamente, dado sentido de ser arretado no Nordeste, ou seja, que questione a mitificação do macho, do cabra da peste, de todo aquele que se coloca como superior, melhor, mais apto, mais decente, mais verdadeiro, mais forte, mais corajoso"
Foto: Domínio público

No Nordeste, o verbo arretar deu origem ao adjetivo "arretado", que possui pelo menos três sentidos bastante distintos: num primeiro sentido, o adjetivo arretado é utilizado para qualificar positivamente qualquer coisa ou pessoa. Chamar alguém de arretado pode significar que ele é bacana, é legal, é boa gente. Dizer que algo é arretado pode significar que é bonito, é excelente, que é algo maneiro, espetacular, estimulante. 

Mas, quando alguém diz que está arretado, aí o sentido se altera. Estar arretado é estar irritado, agitado, inquieto, com raiva, nervoso, zangado, chateado, fulo da vida. Mas também se pode dizer, exclamando, em forma de interjeição: "eita, cabra arretado!". Nesse tipo de enunciado, a palavra arretado já adquire outra conotação, é o mesmo que se dizer: "eita, cabra macho!", "Eita, cabra valente", destemido, resolvido, decidido, cabra da peste! Cabra que está tinindo, que está com tesão, que está estimulado, que está excitado sexualmente, que está nos trinques.

Mas o verbo arretar, que vem do galego, língua aparentada ao português, tem sentidos bastante diversos desses que adquiriu, nesse espaço do país. Por ser a área onde se deu o início do processo de colonização, partes do que hoje se chama de Nordeste guardam palavras e expressões que vêm do português arcaico, da língua portuguesa dos séculos XVI e XVII e, muitas vezes, essas palavras se abrasileiraram ao perderem o sentido original, ao terem seu sentido primitivo esquecido e substituído, tornando-se parte do que seria um linguajar regional. 

O sentido mais antigo da palavra arretar remete a realização de uma transação comercial, era uma palavra associada a uma das atividades em que portugueses e galegos foram pioneiros, na chamada baixa Idade Média, momento que vê o surgimento paulatino da sociedade burguesa, momento em que surgiu a língua portuguesa (entre os séculos IX e XII). Arretar era vender algo com a condição de poder ser comprado de volta. Arretar tem, nesse sentido, um claro parentesco com a palavra arrendar, que pode ser uma derivação e uma transformação desta, embora no arrendamento não haja a realização da venda. Tanto que, mais tarde, ela passa a ter o sentido de obrigar algo ou alguém a voltar atrás, a retornar ao início, ao começo, fazer o regresso ao ponto inicial.

Por esse primeiro momento de nossa viagem no tempo, em busca dos sentidos do verbo arretar e do adjetivo arretado, já dá para perceber o quão rico pode ser a volta ao ponto inicial, esse retorno em busca do início. Creio que a primeira característica que deve ter um pensamento arretado, tal como estou propondo, é não se esquecer da busca pelos começos, que é bastante distinto da busca pela origem. 

Quando se busca origens, se busca uma única coisa, algo ou alguém que serviu de ponto de partida, de fonte primeira, de causa inicial de alguma formulação no campo do pensamento. Isso é muito distinto de se buscar os começos, pois eles são caracterizados pela dispersão e pela diversidade de elementos, de processos, de agentes, de acontecimentos. 

Um pensamento arretado volta atrás em busca de entender o que se pensa e o que se diz agora, ou seja, ele tem uma aguçada percepção histórica dos fenômenos no campo do pensamento, ele sabe que as ideias se transformam, mudam com o tempo, perdem e adquirem novos sentidos, como aconteceu com a palavra arretado, que já possuiu, e ainda possui, inclusive, outra grafia, já foi escrita e pode ser escrita “arreitado”. 

Pensar de modo arretado é, portanto, promover o encontro dialético entre formas de pensar de outrora, com as formas de pensar do agora, tal como propunha o filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940), é medir a distância entre o que se pensou acerca de algo, no passado, e o que se pensa agora, diagnosticando as continuidades e descontinuidades em nossa forma de pensar.

Quando regresso ao ponto inicial da trajetória da palavra arretado, eu questiono, imediatamente, o sentido regional e regionalista que essa palavra, que esse conceito – pois se trata de um conceito já que atribui qualidades e indicia ações - adquiriu no Brasil e no Nordeste. Com isso quero deixar claro que propor um pensamento arretado não é propor uma versão regionalista, uma versão bairrista e provinciana do pensar. Ao contrário, trata-se de fazer o pensamento sair desses aprisionamentos identitários, dessas reduções calcadas em recortes geopolíticos. 

O pensar deve ser livre de fronteiras, de limites, de barreiras de qualquer tipo. Nordestinizar o pensamento, tal como propus na coluna da semana passada, não significa sujeitar o pensamento aos limites da pretensa cultura regional nordestina. O nordestinizar tinha ali o sentido de trazer para o pensamento brasileiro aquilo que é visto e dito como subalterno, como periférico, como atrasado, como fora do tempo e do lugar, tal como os estereótipos que povoam o imaginário nacional definem o que é ser nordestino. 

Da mesma forma que empretecer o pensamento é trazer para primeiro plano os modos de pensar, os conceitos e categorias presentes nas manifestações culturais e intelectuais de matriz africana, é dar dignidade filosófica aos pensares dos pretos, nordestinizar o pensamento é dar dignidade às formas ditas subordinadas e menores do pensar. É fazer dos saberes e sabedorias nascidos nos andaimes e nas cozinhas parte do pensamento, da filosofia que cultivamos.

Um pensar arretado deve ser um pensar maneiro, bacana, um pensamento atento para o que há de beleza, para o que há de bom no mundo e nas diversas formas de ser humanos.

Mas também um pensamento capaz de indignação, de revolta, de rebelião diante das injustiças sociais, das desigualdades territoriais, das hierarquias raciais, de gênero, de classe, etárias, entre as distintas orientações sexuais. Um pensar valente, resoluto e destemido diante das desigualdades entre regiões, países, culturas, povos. Mas, por outro lado, um pensamento que questione, justamente, dado sentido de ser arretado no Nordeste, ou seja, que questione a mitificação do macho, do cabra da peste, de todo aquele que se coloca como superior, melhor, mais apto, mais decente, mais verdadeiro, mais forte, mais corajoso. Um pensamento que questione toda aquela forma de pensar que se quer hegemônica, única, universal, verdadeira, definitiva, dogmática, transcendente, imutável.

Arretar também pode significar cessar a caminhada de alguém, retirar a marcha de algo, ou seja, rever o sentido do percurso, deter-se para rever a trajetória que se está fazendo. Um pensamento arretado é aquele que não teme retornar sobre seus próprios passos, rever o seu percurso, deter a sua marcha, não considerando-a inexorável e necessária. Um pensamento arretado é aquele que abre espaço para o titubeio, para a dúvida, para o parar e rever o caminho, aquele que acolhe as vacilações, as ambiguidades, as contradições das pessoas e das coisas do mundo. 

Um pensamento crítico, que questiona dada trajetória do pensar, que detém a marcha para rever seus pressupostos, que se coloca no caminho de alguém obrigando-o a rever sua marcha, a repensar a estrada em que vinha seguindo. Assim como se pode arretar um comboio, impedir a sua marcha, fazê-lo parar, podemos modificar o caminho que estamos trilhando no pensamento ocidental, um caminho marcado pelo racismo, pela colonialidade, pelo epistemício, pelo etnocídio, ou seja, pela destruição e pelo desprezo racista e colonial a outras formas de pensar, a outros universos culturais e mentais, a outras filosofias, a outras formas de produzir conhecimento e outras modalidades de saber, a outras sabedorias. 

As culturas indígenas e suas formas de pensar, menosprezadas, perseguidas, destruídas, justamente com suas línguas, suas culturas e suas próprias vidas. As formas de pensar o mundo e de conceituá-lo trazidos pelos vários povos africanos, que aqui chegaram escravizados, mas que não deixaram escravizar seu pensamento, quase sempre vistas com preconceito, com desprezo, com ódio. Os modos de pensar de todos aqueles considerados pobres, periféricos, vistos, quase sempre, como ignorantes e incapazes para o pensar.

Arretar ainda possui dois outros sentidos, que se perderam ao longo do tempo: tapar bem um buraco ou apertar bem uma corda, tensionar. Creio que para a construção de um pensamento arretado esses dois sentidos não estão perdidos. Precisamos de formas de pensar que tensionem, que estiquem a corda, que proponham novas formas de amarração conceitual do mundo. 

Se acreditarmos, como o antropólogo inglês Tim Ingold (1948), que a vida social é feita de linhas e nós, que todas as coisas são bolhas e fios, creio que um pensamento arretado seria aquele capaz de puxar novos fios, de tecer novas tramas, de fazer novas amarrações, no campo do pensamento. Aquele que não fique preocupado em tapar bem todos os buracos, produzindo um pensamento pleno, liso, sem rugosidades e falhas. 

Um pensamento arretado é aquele que sabe que as lacunas, as brechas, as rasuras, os silêncios, os não ditos, os esquecimentos, as fraturas compõem e fazem parte de toda forma de pensar. Ser arretado é se colocar como um ser aberto às descontinuidades e as porosidades do saber, do pensar e do viver humano. 

Um cara arretado é aquele que utiliza o pensamento para produzir tensão e tesão, para levar ao questionamento e ao prazer, para cutucar a onça com a vara curta e, ao mesmo tempo, dar passagem ao fantasma e às fantasias, aos desejos e aos sonhos. 

Pensar arretado é fazer o outro ficar arretado com você por não repetir os lugares comuns, os preconceitos, o já dito e o já visto, é deixar o outro arretado por abalar suas certezas, suas verdades, seus dogmas, é dar uma volta no pensamento, é dar nó em pingo d’água, é trazer de volta, simplesmente, a possibilidade de se pensar e de se tornar diferentes.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.



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