“Noivinha do Aristides”: a homofobia como arma política

Protesto contra a homofobia em Brasília
Legenda: Protesto contra a homofobia em Brasília
Foto: Agência Brasil

O presidente Jair Bolsonaro, em visita ao município de Resende, no Rio de Janeiro, se postou, por cerca de uma hora, à beira de uma rodovia, acenando para quem por ali transitava. Foi hostilizado e xingado por vários motoristas e passageiros que o reconheceram, até porque seu aparato de segurança gerou a desaceleração do tráfego e um engarrafamento. No entanto, o presidente parece ter ficado irritado apenas com uma mulher que, ao passar por ele, o chamou de “noivinha do Aristides”, que seria uma das maneiras como era chamado quando frequentou a Academia Militar das Agulhas Negras. A irritação foi tamanha que ele teria ordenado a prisão da senhora, que foi levada até uma delegacia pela Polícia Rodoviária Federal, onde foi indiciada por crime de injúria e desacato. 

O gesto arbitrário e extremo terminou por repercutir intensamente nas redes sociais e mesmo na grande imprensa, fazendo com que o epíteto “noivinha do Aristides” fosse utilizado como arma na luta política, na busca de desgastar a imagem do presidente. Ficou-se então sabendo que Aristides seria seu professor de judô, quando de sua formação como militar. Fotos em que os dois apareciam juntos e montagens feitas a partir de uma foto com dois soldados em atitude de camaradagem passaram a sugerir um conteúdo homoerótico para a relação entre o presidente e seu ex-professor, o que de resto já estava presumida no “xingamento” feito pela transeunte. 

Para apimentar ainda mais o episódio, uma declaração do ex-ministro Jarbas Passarinho, em que ele dizia que Bolsonaro quando visitava os quarteis, em suas campanhas políticas, não dormia na ala dos oficiais, que era o correto para um Capitão, mas preferia pernoitar com os sargentos, foi resgatada e associada ao episódio.

Todo o episódio pressupõe que a homossexualidade, que a relação afetiva e erótica entre dois homens é algo desabonador, é algo vergonhoso, é algo que desqualifica e diminui os seus participantes. Se a senhora escolheu essa alcunha, que já era uma maneira que os colegas de caserna de Bolsonaro encontraram de o envergonhar e o diminuir, é porque ela de fato considerava que um rapaz ser “noivinha” de outro é algo desabonador, a ponto de ser equiparado a um xingamento, como os vários que o presidente estava ouvindo. 

Por outro lado, a reação desproporcional do presidente somente reforçou a mensagem de que recebera uma ofensa grave ao ser associado à homossexualidade, ao ser lembrado de sua possível relação homoafetiva ocorrida em seu passado. Tanto quem lançou a alcunha, quanto quem a recebeu partilham do mesmo preconceito, têm internalizada a homofobia, a rejeição ao ser homossexual e o medo de ser identificado com um deles ou delas. Mas, foi também a homofobia que fez com que pessoas montassem memes alusivos ao episódio e divulgassem através das redes sociais. Quem veiculou a mensagem o fez por supor que associar Bolsonaro a homossexualidade seria uma forma de desgastá-lo publicamente, uma forma de minar a sua popularidade, a sua aceitação pela sociedade. 

O que está implícito nesse gesto é o pressuposto de que a homossexualidade é uma nódoa, é uma mancha, é um traço que deve fazer de alguém uma pessoa rejeitada e impopular, uma pessoa que deveria perder, por isso, o respeito e admiração dos demais.

Se verdadeira, a declaração de Jarbas Passarinho é uma declaração homofóbica, devendo desabonar mais o ex-ministro do que a quem ela foi dirigida, no entanto, todos aqueles e aquelas que veicularam a ironia homofóbica do ministro, se tornaram cúmplices de sua gracinha, e o fizeram por também acharem que o fato de alguém ser homem e dormir com um sargento é algo que deve merecer punição, castigo, nem que seja através do opróbrio público.

O mais chocante nesse episódio é ver muita gente que se diz progressista e de esquerda, que dizem defender o direito dos homossexuais, que se dizem combatentes da homofobia, embarcarem, gostosamente, nessa utilização política da injúria homofóbica. Tendo como desculpa que Bolsonaro é homofóbico, de que o presidente não perde a oportunidade de reproduzir as falas mais preconceituosas e estapafúrdias contra os homossexuais, como a de preferir que o filho morresse a se tornar homossexual, como a de sugerir que a vida dos homossexuais é marcada pela promiscuidade, como a de dizer que são práticas abjetas e associadas ao diabólico, como a de associar homossexualidade e pederastia, os militantes de esquerda se sentiram legitimados e à vontade para usar a homofobia contra o presidente homofóbico. 

Mas, eu pergunto: em que avançamos se para combatermos um presidente que discrimina os homossexuais nos equiparamos a ele, adotamos o seu discurso, apenas mudando de direção o preconceito e a injúria? Como vamos abalar a estrutura homofóbica de nossa sociedade, como vamos nos contrapor à ordem heteronormativa, se reproduzirmos essa estrutura e essa ordem, somente elegendo como alvo alguém que julgamos ser nosso inimigo? 

Mesmo o discurso do humor e do sarcasmo podem terminar por veicular e reproduzir os preconceitos mais arraigados de nossa sociedade, já que eles implicam em se achar que o amor e as práticas homossexuais são motivos de riso, quando não ridículas e fora de lugar. O que pode haver de engraçado e desabonador se efetivamente Bolsonaro tiver tido uma relação homoafetiva com o seu professor? Utilizar a referência à homossexualidade de alguém, supondo que com isso vai combatê-lo politicamente, vai prejudicar a sua imagem, é a reafirmação da mais deslavada homofobia, que se baseia, justamente, no fato de que a homossexualidade é um desvio, uma anomalia, um pecado nefando, é uma forma de amor que deve permanecer na clandestinidade e na obscuridade por ser vergonhosa, por diminuir e vulnerabilizar socialmente quem a sente e pratica.

O que deveríamos ressaltar desse episodio é o quanto a rejeição social ao desejo homossexual, presente em todos nós - como há muito tempo afirma a psicanálise -, é o quanto o dispositivo do armário pode gerar pessoas desequilibradas, com sérias patologias psicológicas e mentais. O que deveria nos preocupar em Bolsonaro não é se ele é ou não homossexual, se ele teve ou tem desejos homoeróticos, mas o que fez com que ele se tornasse esse ser incapaz de empatia pelo dor de outro, esse homem que encarna uma masculinidade frágil, a precisar de demonstração e reafirmação públicas, permanentemente.

Não creio que avançaremos politicamente reforçando preconceitos, repondo imagens e discursos preconceituosos. A estratégia da desqualificação pessoal, do ataque à pessoa e não à persona pública, me parece a mais equivocada para a construção de uma sociedade republicana e marcada pela cidadania. O ataque moralista a pessoas, à vida privada, à fulanização da política é uma tática consagrada da direita, como a atuação de Sérgio Moro e da Lava Jato bem demonstrou.

O papel daqueles que querem transformar a sociedade é promover mudanças culturais, mudanças conceituais, mudanças nas formas de pensar, sentir, nas sensibilidades, e não é reforçando estereotipias e abjeções que se vai fazer essa mudança. O papel do intelectual é elevar o debate, é mudar os termos em que ele se dá e não se pôr nas redes sociais a reproduzir, de maneira açodada, os ataques mais rasteiros possíveis àqueles de quem de discorda e de quem não se gosta. 

Há vitórias que podem se tornar derrotas, a longo prazo, dependendo da forma como elas se constroem. Não superamos dados discursos se situando em seu interior, não combatemos preconceitos os veiculando apenas na direção oposta. A maior derrota que podemos sofrer é a de, para combater o bolsonarismo, assumirmos os termos em que colocam o debate, é terminarmos por ficarmos presos à lógica de seu discurso. O que devemos questionar não é a vida privada do presidente, seus desejos, o que ele faz com seu corpo, a quem ele ama e a quem se entrega sexualmente. 

Devemos questionar o homem público, sua incompetência administrativa, sua inépcia no governo. Se Bolsonaro expõe, muitas vezes, sua vida privada, como a constrangedora referência ao fato de ter feito sexo com a esposa, é justamente para desviar o foco de seu desastre como homem público e é nesse terreno que deve ser combatido. Não precisamos parecer com Bolsonaro para combatê-lo, mas pelo contrário, devemos ir para distante de tudo que ele representa, diz e faz.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.



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