Quando amar o que faz vira uma armadilha? Veja como identificar os sinais e impor limites
Voltando de uma viagem de trabalho, um comentário ainda me acompanhava. Antes da reunião do conselho, um executivo me olhou e disse: "você trabalha demais, nossa, e como trabalha!".
A frase veio com admiração e, ao mesmo tempo, com preocupação. Não soube qual das duas versões levar a sério, então perguntei: "isso é bom?". Ele respondeu na hora: "eu não conseguiria. Ficaria exausto". Fiquei pensativa. O que aquilo significava, de fato, sobre a forma como eu trabalho?
A programação daqueles dias era intensa. No primeiro, conduzi o segundo módulo de comunicação executiva para os membros do conselho da empresa. No seguinte, participei das reuniões do conselho consultivo e da assembleia de sócios.
Durante o módulo, foram cinco horas em pé, provocando, discutindo e mediando percepções. Manter-me atenta a todos os movimentos, expressões e falas, mudar a rota quando necessário e, o mais importante, costurar as contribuições e devolvê-las ao grupo em provocações relevantes para o negócio não é tarefa simples.
Exige escuta refinada e um olhar empático para o que não é dito, mas se sente no clima, nos silêncios e nos entreolhares.
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O executivo não estava apenas elogiando
É tentador ouvir aquela frase como um elogio e seguir em frente. Mas seria desonesto ignorar o que havia de alerta nela. Quando alguém diz "eu ficaria exausto", está apontando para algo real. O excesso existe. A exaustão existe.
E muita gente competente se perde exatamente nesse ponto, confundindo intensidade com valor, presença constante com comprometimento, cansaço permanente com dedicação.
Antes de defender a forma como trabalho, precisei encarar a pergunta que o comentário plantou: até onde essa intensidade me serve e a partir de onde ela começa a cobrar um preço que eu talvez nem esteja percebendo?
A quantidade de esforço, isoladamente, não diz nada. Existe quem trabalhe muito e volte para casa inteiro, e existe quem trabalhe menos e chegue corroído. O que separa uma coisa da outra não é o volume, é o vínculo.
Esforço intenso sem âncora vira desgaste. Esforço intenso conectado a um sentido claro, a uma escolha consciente e a limites que se respeitam, vira construção.
O problema nunca foi trabalhar muito. É trabalhar muito desligado daquilo que dá propósito ao esforço e sem nenhuma fronteira que proteja o resto da vida.
O que sustenta o esforço intenso
A primeira âncora é o sentido. Entregar um resultado efetivo e memorável dá trabalho, exige disciplina, treino e dedicação, mas não precisa custar a própria felicidade. Isso só é possível quando a doação está atrelada ao que você ama fazer e ao que traz significado para a sua vida.
O mesmo cansaço muda de natureza dependendo do porquê. Cinco horas em pé por obrigação esvaziam. As mesmas cinco horas a serviço de algo em que você acredita restauram, ainda que o corpo peça descanso.
A segunda âncora são os limites, e eles não são o que sobra depois do trabalho. São parte do sistema que sustenta o trabalho. Em nenhum momento a entrega precisa exigir que você abra mão da família, do lazer, do autocuidado.
Quando aquele voo pousar, vou almoçar com meu marido e, à noite, sair com a família. São momentos pequenos, mas é neles que o equilíbrio se refaz. Não são recompensas pelo esforço. São o que torna o esforço sustentável no dia seguinte, e no mês seguinte, e no ano seguinte.
O cansaço que restaura e o cansaço que corrói
Na teoria, a diferença entre os dois parece óbvia. No dia a dia, ela se confunde, porque ambos se apresentam da mesma forma: o corpo pesado, a mente lenta, a vontade de chegar a casa.
A distinção não está no cansaço em si, mas no que acontece antes e depois dele. E há dois sinais simples que ajudam a identificar em qual terreno você está pisando.
O primeiro é o descanso. Preste atenção no que acontece quando você para. O cansaço que restaura passa com o descanso, você desliga, dorme, encontra as pessoas que ama e volta inteiro.
O cansaço que corrói é diferente: o descanso não descansa. Você para o corpo, mas a cabeça continua na reunião, no e-mail que faltou responder, no problema que ficou aberto.
Se o tempo livre virou apenas um intervalo ansioso entre uma jornada e outra, o descanso já não está restaurando nada. O segundo sinal é o motivo. Faça a si mesmo uma pergunta desconfortável: por que estou fazendo isto?
Quando a âncora está no lugar, a resposta vem com clareza e tem a ver com sentido, com escolha, com algo em que você acredita.
Quando a âncora se solta, a resposta costuma ser outra: "porque sempre foi assim", "porque não posso parar", "porque não confio que alguém faça no meu lugar".
Repare que nenhuma dessas respostas fala de propósito. Todas falam de medo. E esforço movido a medo pode até sustentar o resultado por um tempo, mas cobra em silêncio, até o dia em que a conta chega inteira.
Quando "amo o que faço" vira armadilha
Aqui preciso ser honesta, inclusive comigo mesma. "Fazer o que se ama" é uma âncora legítima, mas também é a desculpa mais elegante de quem está se esgotando.
A paixão pelo trabalho pode ser exatamente o disfarce que impede a pessoa de enxergar que ultrapassou o limite. Por isso, alguns sinais merecem atenção.
Quando o corpo começa a cobrar e a resposta é ignorá-lo, é sinal. Quando os limites que você mesmo definiu viram exceção permanente, e o almoço em família ou o descanso são sempre a primeira coisa a ser sacrificada, é sinal.
Quando você precisa se convencer de que está bem, a paixão talvez já tenha virado fuga. Doação com sentido não precisa de tanta justificativa. Ela se sustenta sozinha, porque vem acompanhada de escolha e não de negação.
Termino este texto dentro do avião, cansada e, ao mesmo tempo, realizada. Reconheço o que essa cena tem de charme e o que ela tem de alerta, e é justamente essa dupla leitura que quero deixar com você.
A pergunta que fica não é quanto você trabalha. É se aquilo que você chama de paixão pelo trabalho é uma âncora que dá sentido ao seu esforço ou uma fuga que o impede de ver o preço que ele cobra.
Só você pode responder, e vale a pena responder com honestidade antes que o corpo, ou a vida, responda por você.
Nesta coluna, trarei reflexões sobre carreira, liderança, coaching e as principais tendências que impactam o mundo do trabalho. Sua participação é muito bem-vinda. Comente, envie sua pergunta ou fale comigo pelo Instagram @delaniasantosds. Aproveite também para se inscrever no canal do YouTube @delaniasantosds. Será um prazer ter você comigo nessa jornada. Até a próxima!
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.