Empresa não é família, e isso precisa ser dito

Escrito por
Delania Santos producaodiario@svm.com.br
Legenda: O discurso de família é, muitas vezes, uma ferramenta de gestão.
Foto: Shutterstock.

Existe um discurso que circula em organizações de todos os tamanhos, repetido em reuniões, gravado em paredes, impresso em camisetas de evento corporativo: "Aqui somos uma família." É uma mentira bem-intencionada. Às vezes, nem isso. Vamos discutir?

A decepção de Felícia

Felícia tinha 20 anos de casa. Premiada várias vezes, era o tipo de profissional que chegava antes e saía depois. Não por obrigação. Por pertencimento. Acreditava, genuinamente, que fazia parte de algo maior do que um contrato de trabalho.

Em uma sexta-feira, recebeu uma premiação. Não pelo tempo de casa, mas pelas entregas. Subiu no palco e discursou, agradeceu e demonstrou todo o seu amor pela organização. Saiu da cerimônia com o troféu na mão e a certeza de que estava no lugar certo.

Duas semanas depois, foi chamada para uma reunião com o diretor. Saiu de lá demitida. Foi encaminhada ao RH, voltou à sala para pegar suas coisas e foi embora. Assim. Sem cerimônia, sem uma conversa digna, sem explicação real. A resposta que recebeu foi curta: queremos renovar a área. Agradecemos o tempo que ficou conosco.

Meses depois, Felícia ainda não dormia bem. A ansiedade tinha se instalado e havia algo pior do que o desemprego: ao procurar uma nova oportunidade, não sabia responder por que havia sido demitida. A empresa levou 20 anos de entrega e não deixou nem isso. O problema não foi a demissão, mas o que o discurso de família produziu antes nela.

Produziu uma profissional que entregou além do contrato porque acreditava estar construindo algo junto; que abriu mão de oportunidades porque não abandonava quem havia acreditado nela; que mediu o próprio valor pelo quanto a empresa a valorizava; que confundiu lealdade com identidade. E quando a empresa agiu como empresa, Felícia não ficou apenas desempregada, ficou desorientada e deprimida.

Você conhece alguém como Felícia ou já ocupou essa cadeira?

Por que esse discurso é dúbio?

O discurso de família é, muitas vezes, uma ferramenta de gestão. Extrai comprometimento emocional que vai além do que qualquer contrato poderia exigir, mas funciona até o dia em que a organização precisa tomar decisões que muitas vezes são impopulares.

Há, porém, uma diferença importante que precisa ser feita. Quando esse discurso é usado com intenção real de construir um clima organizacional saudável, ele pode até ser legítimo, mas, para isso, precisa ser claro, concreto e vir acompanhado de direitos e deveres explícitos, de práticas consistentes, de uma cultura onde o cuidado com as pessoas não desaparece quando o resultado pressiona. Família de verdade, mesmo a metafórica, tem reciprocidade. Quando a empresa usa a palavra sem a prática, o discurso vira armadilha.

Isso não significa trabalhar com distância ou indiferença. Significa trabalhar com lucidez. Entregar com qualidade, construir relações genuínas, comprometer-se com o resultado. Mas é importante saber, com clareza, onde termina o vínculo profissional e onde começa a sua vida.

Seu emprego é um contrato. Pode ser transformador, pode ter pessoas que você vai carregar para sempre, pode ser o melhor ciclo da sua vida profissional, e ainda assim se encerra. Quem entende isso trabalha melhor, mantém as expectativas em equilíbrio e, quando chega a hora, sai inteiro.

Para que o profissional construa uma relação saudável com o trabalho, sem ingenuidade, algumas práticas fazem diferença:

1. Separe vínculo de dependência. Você pode se importar com as pessoas com quem trabalha sem confundir esse afeto com segurança profissional. Relações genuínas resistem à demissão. A empresa, não necessariamente.

2. Conheça seus direitos e deveres. O contrato existe para proteger os dois lados. Saber o que você deve entregar e o que a empresa deve garantir é o piso mínimo de qualquer relação profissional saudável.

3. Observe se o discurso tem prática. Empresa que trata pessoas como família precisa agir como tal: feedback honesto, reconhecimento consistente, respeito nos momentos difíceis. Palavras sem prática são marketing interno.

4. Invista na sua carreira, não só no seu cargo. Desenvolva competências, expanda sua rede, mantenha seu currículo vivo. Não como deslealdade, mas como responsabilidade com você mesmo.

E a melhor...

5. Construa identidade fora do trabalho. Quando o que você é se torna indissociável de onde você trabalha, qualquer mudança vira crise. Sua história profissional é parte de quem você é. Não é tudo.

Felícia não errou por se dedicar. Errou por não saber onde a dedicação terminava e sua identidade começava. Essa é a distinção que custa caro quando a empresa decide, e essa decisão o afeta. E a empresa sempre vai decidir. A pergunta é se você vai ser surpreendido por essa decisão ou se vai estar consciente quando ela chegar.

Nesta coluna, trarei reflexões sobre carreira, liderança, coaching e as principais tendências que impactam o mundo do trabalho.
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