Quando a falta de perdão no ambiente profissional trava a carreira
Otto soube por um comentário fora de hora, antes mesmo de qualquer conversa oficial, que sua demissão estava sendo articulada. Não por decisão da empresa em algum processo distante, mas por pedido direto do seu gestor, Fernan.
Em vez de esperar o desfecho em silêncio, Otto fez algo que poucas pessoas têm coragem de fazer sob esse tipo de ameaça: procurou Fernan e explicou, com calma, o mal-entendido que havia motivado aquela decisão.
Funcionou. Fernan ouviu, reconheceu o equívoco e voltou atrás. Otto manteve o emprego. Nos registros formais da empresa, nada disso jamais existiu. Mas na relação entre os dois, aquele momento nunca terminou. Ambos perderam e o ambiente jamais foi o mesmo.
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O lado de Otto
Reverter a decisão devolveu a Otto o emprego, mas não devolveu a ele a sensação de segurança que existia antes. Existe uma diferença entre nunca ter sido ameaçado e ter sido ameaçado e depois absolvido.
A segunda situação deixa uma marca que a primeira nunca teria deixado, porque Otto agora sabe, de forma concreta, que uma decisão sobre o seu futuro profissional já foi tomada sem que ele tivesse chance de se explicar antes.
A reversão só aconteceu porque ele teve a iniciativa de correr atrás. E se não tivesse?
Essa pergunta, ainda que nunca dita em voz alta, passou a morar em todas as interações seguintes com Fernan. Cada orientação, cada feedback, cada decisão sobre distribuição de tarefas, Otto passou a interpretar através da mesma lente: isso é sobre o meu trabalho, ou é sobre o que ele já pensou em fazer comigo uma vez?
Não importa quantas vezes Fernan aja com justiça daqui para frente, a suspeita já está instalada, e suspeita não se dissolve com boas intenções repetidas, se dissolve com tempo e, principalmente, com a decisão consciente de parar de recontar a mesma história toda vez que algo pequeno acontece.
Otto não escolheu deliberadamente guardar rancor. Só nunca decidiu, em nenhum momento, que aquele episódio havia terminado. E é essa ausência de decisão que mantém a ferida aberta indefinidamente.
Tudo é questionável; qualquer postura de Fernan pode ser uma "armação" para que a demissão, finalmente, aconteça.
O lado de Fernan
Fernan reconhece, sem rodeios, que se precipitou. Sabe que decidiu pedir o desligamento de Otto baseado em uma leitura equivocada, e sabe que, se não fosse a iniciativa do próprio Otto em esclarecer a situação, teria cometido um erro que talvez nunca conseguisse reparar.
Esse reconhecimento, porém, não trouxe alívio. Trouxe outro tipo de inquietação.
Toda vez que Fernan precisa avaliar o desempenho de Otto, corrigir uma entrega ou negar um pedido, uma pergunta interna aparece antes de qualquer decisão profissional: estou sendo justo agora, ou estou compensando o que quase fiz? O que Otto pensará a respeito? Essa dúvida, por si só, já compromete a naturalidade que uma liderança precisa ter.
Fernan hoje hesita onde deveria agir com firmeza, suaviza onde deveria ser direto, e evita conversas necessárias por medo de que qualquer atrito seja lido, por Otto ou por ele mesmo, como uma repetição do erro passado.
Não se perdoar, nesse caso, não faz de Fernan um líder mais cuidadoso. Faz dele um líder paralisado diante de uma única pessoa, incapaz de tratar aquela relação com o mesmo critério que aplica a todo o resto do time. A culpa que ele carrega não corrige o erro que cometeu.
Apenas o impede de seguir liderando com a mesma clareza de antes. Fernan nunca se perdoou, e essa culpa não resolvida o consome todos os dias, o que afeta a sua saúde emocional.
O que a equipe sente sem que ninguém precise contar
Nenhum dos dois jamais relatou o episódio abertamente. Não há reunião, e-mail ou conversa formal que documente o que quase aconteceu entre Fernan e Otto.
E, ainda assim, o time percebe. Percebe na forma como Fernan trata Otto com um cuidado ligeiramente diferente do que trata os outros, um cuidado que mais parece cautela do que atenção genuína.
Percebe na forma como Otto responde a Fernan com uma educação um pouco rígida demais e uma comunicação monossilábica, sem a naturalidade que existe nas trocas dele com os demais colegas.
Ninguém no time conhece os detalhes do que houve entre os dois. Mas todo mundo já entendeu que deve evitar certos assuntos perto de Fernan quando Otto está por perto, e suavizar certos comentários quando é o contrário.
Esse tipo de ajuste automático, feito por pessoas que nem sabem exatamente o que estão evitando, é o sintoma mais claro de que algo ali segue sem solução.
Perdoar sem apagar
Muita gente resiste à ideia de perdoar no ambiente de trabalho: perdoar soa como fingir que nada aconteceu, como apagar o fato para poder continuar convivendo.
Não é isso! Otto não precisa esquecer que Fernan pensou em desligá-lo por um mal-entendido, e Fernan não precisa esquecer que se precipitou. O que precisa mudar não é a memória do episódio. É a função que esse episódio passou a ocupar na relação hoje.
Enquanto o momento da quase demissão continuar sendo a lente através da qual Otto interpreta cada decisão de Fernan, e enquanto continuar sendo o espelho no qual Fernan se vê antes de agir com naturalidade, o fato não vai envelhecer, vai se repetir todos os dias, atualizado, como se tivesse acontecido ontem.
Perdoar, nesse sentido, é uma decisão de deixar o episódio no passado ao qual ele pertence, sem exigir dele nenhuma explicação adicional sobre o presente.
Isso não significa ingenuidade. Otto pode, e talvez deva, manter algum nível de atenção saudável em relação a Fernan, sem que essa atenção precise se transformar em desconfiança permanente e hostilidade.
Fernan pode, e deve, aprender com o próprio erro, sem que esse aprendizado exija anos de expiação silenciosa. A diferença entre vigilância razoável e ressentimento cristalizado é justamente essa: uma observa o presente, a outra insiste em julgar o presente pelo que já passou.
Otto e Fernan continuam trabalhando juntos até hoje. Entregam resultado, cumprem prazos, sustentam a operação como qualquer outra dupla de líder e liderado.
Mas a carreira dos dois está parada, e por um motivo que só o CEO, a única pessoa de fora que conhece o que aconteceu, consegue nomear com clareza: na avaliação dele, nenhum dos dois tem maturidade emocional para assumir mais responsabilidade enquanto essa relação continuar assim. Fernan, que poderia promover Otto, não confia na própria segurança para fazer isso.
Otto, que quer ser promovido, não confia nos feedbacks que recebe do próprio gestor. Nenhum dos dois fez algo de errado ao não superar completamente aquele episódio. Simplesmente nenhum dos dois decidiu, de fato, deixar de carregá-lo.
Talvez você também tenha uma relação profissional assim, parada no dia exato em que algo se rompeu, mesmo que, na superfície, tudo pareça ter voltado ao normal. Perdão não liberta o outro; liberta quem carrega. E não custa nada perguntar: o que a sua carreira e a sua saúde mental fariam com o espaço que esse peso ocupa hoje?
Nesta coluna, trarei reflexões sobre carreira, liderança, coaching e as principais tendências que impactam o mundo do trabalho. Sua participação é muito bem-vinda. Comente, envie sua pergunta ou fale comigo pelo Instagram @delaniasantosds. Aproveite também para se inscrever no canal do YouTube @delaniasantosds. Será um prazer ter você comigo nessa jornada. Até a próxima!
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