A proximidade como moeda de poder nas organizações

Escrito por
Delania Santos ds@delaniasantos.com
Legenda: Toda confiança pode virar moeda. A pergunta é o que você faz com a que está na sua mão: protege ou usa para controlar?
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Existe um tipo de confiança que a gente só entrega uma vez na vida a cada pessoa. Não é sobre entregas, prazos ou resultados. É sobre quem você é quando ninguém está cobrando nada de você.

Quando essa confiança é usada contra quem a deu, o problema não é o que foi dito. É o que foi feito com aquilo depois.

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A decepção de Renata – um caso real

Renata trabalha há quatro anos na mesma empresa e sempre entregou mais do que o cargo pedia. Há cerca de dois anos, atravessou um período difícil na vida pessoal e, num momento de fragilidade, abriu-se com o seu gestor, Otávio.

Ele ouviu, acolheu e, por semanas, pareceu ser exatamente o tipo de líder que ela precisava ter por perto.

O tempo passou, Renata se reorganizou e, neste ano, reuniu argumentos sólidos para pedir um aumento que já era esperado havia meses. A resposta não veio como um “não” direto.

Otávio disse compreender o pedido, mas ponderou que talvez não fosse o melhor momento, "considerando tudo que ela vinha enfrentando" e que preferia protegê-la de uma responsabilidade maior enquanto ela ainda estivesse "se reconstruindo".

O que decidiu o valor do trabalho de Renata naquela sala não foi o seu trabalho, mas uma vulnerabilidade que ela havia confiado a ele dois anos antes, agora devolvida como argumento contra o próprio crescimento dela.

Duas proximidades diferentes e uma traição disfarçada

Nem toda proximidade perigosa no trabalho é imposta. Há a que é empurrada sobre você sem consentimento, o toque não pedido, a pergunta pessoal demais. Essa é grave, e é visível: dá para apontar o momento exato da invasão.

Mas existe uma segunda proximidade, mais silenciosa: a que você deu por vontade própria. Ninguém invadiu nada de Renata. Ela escolheu confiar, num momento em que precisava de acolhimento, numa pessoa que ocupava uma posição de cuidado legítimo naquele instante.

O problema não nasce na proximidade, nasce depois, quando ela é convertida em posição de vantagem por quem a recebeu. É o que separa um gestor humano de um gestor que sabe onde guardar o que ouviu para usar quando for conveniente.

Essa traição dói mais do que a invasão, e é mais difícil de nomear, porque não existe um momento óbvio de violação a que se possa apontar.

O efeito mais perverso não aparece na hora, aparece na cultura ao redor. Quem testemunha aprende, sem que ninguém precise dizer em voz alta, que abrir-se com a liderança tem custo. É assim que a confiança vai murchando dentro de um time.

Se essa quebra fosse dita abertamente, seria fácil de combater. O problema é que ela quase nunca aparece assim. Ninguém diz "estou usando o que você me contou para negar seu aumento".

A frase que aparece tem verniz de cuidado: "considerando tudo que você vem passando", "prefiro te proteger dessa pressão agora".

A recusa nunca é apresentada como recusa ao trabalho entregue. É apresentada como zelo pela pessoa, e é exatamente essa inversão que torna a manobra quase impossível de formalizar como queixa. No papel, a frase de Otávio parece gentileza.

Na prática, rebaixou o mérito de Renata a uma condição pessoal que ela jamais autorizou colocar em pauta numa negociação salarial. Pior: quem tenta reagir corre o risco de parecer ingrato.

O peso da prova fica do lado de quem foi prejudicado, nunca de quem prejudicou, e é esse duplo mecanismo que faz da intimidade usada como moeda de poder uma das formas mais eficientes de controle dentro de uma organização.

Por que isso é abuso de poder

Imagine a mesma cena entre colegas de mesmo nível hierárquico. Seria falta de tato, uma quebra de confiança que abala a relação. Uma conduta errada, mas sem poder de determinar o salário, a promoção ou o futuro de ninguém.

A diferença entre Renata e Otávio é a única variável que transforma deslize em controle: ele decide. Quando quem decide detém informação vulnerável sobre quem está sob sua decisão, a confidência deixa de ser conhecimento pessoal e passa a ser instrumento disponível, mesmo que nunca seja usado conscientemente como tal.

Por isso a responsabilidade de proteger o que foi confiado pesa mais sobre quem lidera: não por superioridade moral, mas porque é o único, naquela relação, que tem algo concreto a ganhar ao usar o que sabe.

Se você já confiou algo assim a um líder

Preste atenção aos sinais que aparecem depois. Se o que você compartilhou volta como justificativa em decisões que deveriam ser puramente técnicas, nomeie isso para si mesmo.

Você não precisa aceitar em silêncio uma recusa disfarçada de zelo: pergunte diretamente o que, na sua entrega, sustenta a decisão, e peça que a resposta fique restrita a critérios profissionais. Isso não é hostilidade, é o direito de ser avaliado pelo que você faz, não pelo que você viveu.

E se a resposta continuar vaga, documentada apenas em bondade e nunca em fato, procure uma segunda opinião dentro da estrutura, RH, outro gestor, alguém que possa avaliar a situação sem o filtro daquela intimidade específica.

Se você lidera e detém esse tipo de informação

O que alguém confiou a você não é propriedade sua para usar quando for conveniente. Pergunte-se: eu chegaria à mesma conclusão se não soubesse o que sei sobre a vida pessoal dessa pessoa? Se a resposta for não, o critério está errado, não a pessoa.

Separe o papel de quem cuida do papel de quem decide. Confundir os dois, mesmo com boa intenção, transforma cuidado em controle. Renata talvez nunca saiba se Otávio agiu por cálculo ou por um cuidado mal colocado. Talvez nem ele saiba responder a isso com honestidade.

O que fica é que ela perdeu, naquela sala, o direito de ser avaliada só pelo que entrega.

Toda confiança pode virar moeda. A pergunta é o que você faz com a que está na sua mão: protege ou usa para controlar?

Nesta coluna, trarei reflexões sobre carreira, liderança, coaching e as principais tendências que impactam o mundo do trabalho. Sua participação é muito bem-vinda. Comente, envie sua pergunta ou fale comigo pelo Instagram @delaniasantosds. Aproveite também para se inscrever no canal do YouTube @delaniasantosds. Será um prazer ter você comigo nessa jornada. Até a próxima!

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

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