Baixa performance normalizada: quando ninguém mais se incomoda

Escrito por
Delania Santos ds@delaniasantos.com
Legenda: Quem tem um objetivo real de carreira não deveria precisar de pressão externa para cumprir o que já combinou consigo mesmo.
Foto: Shutterstock

Existe um tipo de silêncio que diz mais sobre uma cultura organizacional do que qualquer discurso de liderança. Não é o silêncio do medo, é o silêncio da indiferença. E foi exatamente esse silêncio que presenciei, há poucos dias, em uma reunião de resultados. 

A reunião que revelou mais do que os números — baseado em fatos  Os indicadores estavam abaixo do combinado. O gerente geral, visivelmente incomodado, desabafou, pressionou e questionou. Ninguém conseguiu explicar os resultados com convicção.

Olhei ao redor esperando encontrar tensão nos rostos, aquele desconforto natural de quem acabou de ser confrontado com o próprio desempenho. Encontrei o oposto. As pessoas estavam indiferentes, como quem já ouviu aquele discurso tantas vezes que parou de sentir alguma coisa. 

Quando a reunião terminou, não houve nenhum movimento diferente. Nenhuma pressa, nenhum plano de ação improvisado, nenhuma conversa de corredor sobre o que fazer a seguir.

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Pelo contrário, as pessoas saíram leves, conversando sobre o almoço que as esperava. Puxei conversa com um dos presentes, gerente de uma das áreas, há sete anos na empresa e conhecido por ser um dos poucos que ainda cobra prazo da própria equipe.

O que ele me disse resumiu tudo o que os números não conseguiram explicar: já conhecemos esse tom, e infelizmente o que sempre vemos é mais do mesmo. Ninguém é cobrado pelo que é combinado em reunião, e alguns nem se preocupam em cumprir. 

Quando o resultado deixa de causar desconforto 

A meta não batida não é, isoladamente, um problema grave. Toda empresa passa por ciclos de resultado abaixo do esperado. O problema real, e bem mais silencioso, é quando a equipe deixa de se surpreender com isso.

Quando o não cumprimento vira parte da paisagem, tão previsível quanto o cardápio do almoço de sexta-feira. Nesse momento, a cultura organizacional já não está lidando com uma falha pontual, está sustentando um padrão. E padrões sustentados, ainda que indesejados, se tornam a própria identidade do ambiente. 

Não foi coincidência aquela sala. É retrato de um padrão que já foi mapeado fora dela. Breno Rossi, da consultoria Korn Ferry, aponta o mesmo desalinhamento que vi ali: metas pouco claras somadas a lideranças despreparadas para dar feedback minam a credibilidade da própria avaliação.

O gerente descreveu em uma frase, um especialista descreve em um estudo. A conclusão é a mesma. 

O desabafo do gerente geral, naquele dia, não produziu mudança nenhuma porque deixou de ser interpretado como um sinal de gravidade. Todos sabiam como começava, sabiam como terminava e sabiam, sobretudo, que nada de concreto aconteceria depois. 

Quando a cobrança vira teatro 

Existe uma diferença importante entre uma cobrança que carrega risco real e uma cobrança que virou roteiro decorado, aquela cena em que todo mundo na sala já sabe cada fala, cada tom de voz, cada gesto de impaciência do gestor, e sabe também, com a mesma precisão, que nada vai acontecer fora daquela sala. Foi isso que vi na reunião com o gerente.

O desabafo do gerente geral não era falso, a frustração parecia genuína. Mas deixou de funcionar como sinal porque a equipe já tinha memorizado o desfecho.

Uma cobrança que se repete sempre com a mesma intensidade e sempre com o mesmo resultado, nenhum, perde a capacidade de gerar qualquer reação em quem a assiste.

Não é a ausência de cobrança que produz a indiferença que presenciei, é a cobrança performática, repetida como cena obrigatória, sem nenhuma variável nova que sinalize que, dessa vez, algo será diferente. 

Os sinais de que essa cultura já se instalou 

Alguns sinais são fáceis de identificar, quando se sabe onde procurar. Rostos que permanecem neutros diante de um resultado ruim. Reuniões de resultado que terminam sem nenhum encaminhamento registrado.

Frases como “já sabíamos que isso ia acontecer” ditas com naturalidade, quase com alívio, por quem já não se cobra o suficiente para se frustrar. E, talvez o sinal mais definitivo, a ausência de qualquer diferença prática entre quem cumpriu o combinado e quem não cumpriu. 

Quando essas cenas se repetem mês após mês, a empresa deixa de ter um problema de performance e passa a ter um problema de credibilidade interna. A cobrança já não é levada a sério porque, historicamente, nunca precisou ser. 

Quebrar o padrão 

Reverter esse cenário não depende de um tom mais duro na próxima reunião, o desabafo já provou, na prática, que sozinho não muda nada. O que devolve credibilidade à cobrança é romper a previsibilidade da cena.

Isso significa que o que acontece depois da reunião precisa ser diferente do que sempre foi, uma meta revisitada de fato no encontro seguinte, um encaminhamento com nome e prazo, uma diferença perceptível entre quem entregou e quem não entregou.

Sem essa quebra, qualquer discurso mais firme será apenas mais uma repetição do mesmo enredo, e a equipe vai reconhecê-la em segundos. 

E se você tem uma ambição própria? 

Há, ainda, uma reflexão que cabe a cada profissional individualmente, e que talvez seja a mais desconfortável de todas. Se você depende da cobrança do seu líder para produzir, sua régua de desempenho não é sua, é emprestada. E réguas emprestadas somem exatamente nos ambientes onde ninguém mais cobra. 

Quem tem um objetivo real de carreira não deveria precisar de pressão externa para cumprir o que já combinou consigo mesmo. Se a cultura ao seu redor deixou de se incomodar com a baixa performance, isso não é permissão, é apenas ausência de barreira.

E ambiente sem barreira exige mais disciplina pessoal, não menos. Revise seus próprios combinados com a frequência que a empresa não revisa. Trate cada entrega não cumprida como um dado sobre você, não sobre a cultura ao redor.

Sua ambição precisa ser mais exigente do que o ambiente em que ela está inserida, porque nenhum mercado vai cobrar de você aquilo que você mesmo deixou de cobrar. 

A cena daquela reunião ainda me acompanha. Não pelo desabafo do gerente, mas pela leveza de quem saiu dali para almoçar como se nada tivesse acontecido. Na sua empresa, o que acontece depois que a porta da sala de resultados se fecha? 

Faça o teste: o roteiro da sua empresa está decorado? 

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Nesta coluna, trarei reflexões sobre carreira, liderança, coaching e as principais tendências que impactam o mundo do trabalho. Sua participação é muito bem-vinda. Comente, envie sua pergunta ou fale comigo pelo Instagram @delaniasantosds. Aproveite também para se inscrever no canal do YouTube @delaniasantosds. Será um prazer ter você comigo nessa jornada. Até a próxima! 

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