O 'bom dia' que ninguém é obrigado a dar
Setembro é o mês dedicado à saúde mental, um tema vastamente discutido pelas organizações. O que aprendi ao parar em um posto de gasolina para abastecer expandiu a minha visão sobre quem é responsável por garantir que as pessoas não adoeçam em seus ambientes de trabalho. Tudo começa por cada um de nós.
Íamos de João Pessoa para Recife de carro quando paramos em um posto para abastecer. Enquanto o motorista abastecia, fui à loja de conveniência comprar algo para comer.
Ao entrar, encontrei um senhor no balcão. Dei bom dia, sorri e me direcionei ao freezer de sorvete. Escolhi o sorvete e, ao chegar ao caixa, pedi licença. Pensando em voz alta, falei: "vou ligar para quem está me acompanhando, para saber se ele deseja algo." Isso foi o suficiente.
O senhor perguntou: "posso dizer uma coisa para a senhora?" Eu acenei que sim. Ele continuou: "a senhora é muito elegante, é educada, gentil e se preocupa com as pessoas, e isso é o que uma pessoa precisa ser. Minha esposa é igual."
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E seguiu falando de sua esposa. Ao longo da conversa, mencionou que diariamente uma pessoa entrava em sua loja às 8h, não falava com ele, sentava a uma mesa, usava a internet até as 11h e saía sem dizer uma única palavra.
Voltava às 15h e saía às 18h sem pronunciar uma simples saudação. Sempre sem consumir absolutamente nada. Ele falava com indignação.
Aquele senhor tão gentil, ao longo da história, foi se transformando em alguém revoltado e alterado. Em um determinado dia, contou, desligou a internet e, quando a pessoa não conseguiu acessar, perguntou o que estava acontecendo.
Foi aí que ele decidiu expor o seu descontentamento. Falou que, durante meses, aquela pessoa não tinha se dignado a dar um mísero bom dia ou consumir um chiclete, mesmo utilizando um ambiente confortável e internet gratuita.
A pessoa ficou desconcertada e pediu desculpas. Sabe o que aconteceu depois? Não voltou ao local.
Como isso se relaciona com a saúde mental e o setembro amarelo?
Cuidar da saúde mental requer ações simples, primárias, que podem ser colocadas em prática no nosso dia a dia.
Um bom dia no elevador, um sorriso ao cumprimentar alguém, oferecer ajuda para carregar uma sacola, ceder um lugar, dizer que ama a quem se ama, pedir desculpas sinceramente, tudo isso promove a gentileza, e gentileza gera bem-estar, leveza e harmonia nos relacionamentos.
Antes de qualquer política de bem-estar, qualquer treinamento obrigatório ou qualquer indicador de clima organizacional, existe um gesto que não depende de aprovação de nenhum departamento: olhar para quem está a sua frente.
Um bom dia dito com atenção, um obrigado que não é automático, um "como você está" que espera resposta de verdade, nada disso está em nenhuma norma, e é justamente por isso que costuma ser o primeiro a desaparecer quando a rotina aperta.
O senhor do posto não precisava de um programa de saúde mental para reconhecer o que sentiu quando foi ignorado, todos os dias, durante meses. E a pessoa que o ignorava também não precisava de treinamento para saber que um cumprimento não custa nada.
O problema nunca foi falta de informação. Foi falta de prática. A NR-1 chegou e todo o foco foi para as ações que as empresas devem implementar para não serem multadas. Isso é legítimo, e reconheço que fortalece a importância do tema dentro das organizações.
Mas norma nenhuma obriga alguém a notar o colega no elevador, a perguntar como foi o fim de semana de quem está sentado ao lado, ou a agradecer de verdade quando alguém ajuda.
Empresa pode criar comitê, contratar psicólogo, medir clima, treinar liderança. Tudo isso importa e não deve ser descartado.
Mas se cada pessoa dentro dessa estrutura continuar tratando o outro como parte do cenário, a política vira papel e o ambiente continua sendo hostil nos detalhes que nenhum indicador enxerga.
A responsabilidade de cuidar do ambiente não é só de quem lidera ou de quem assina a política de RH. É de quem cumprimenta, ou não, a pessoa no corredor. O ambiente de trabalho não é feito primeiro de política, é feito primeiro de gente. E gente se trata bem ou mal em gestos que cabem em segundos: um cumprimento, um olhar, um agradecimento dito de verdade.
Nenhuma NR chega antes disso. Nenhum indicador de clima organizacional mede a diferença entre alguém que se sente visto e alguém que se sente móvel de loja.
O senhor do posto não pediu uma política de bem-estar. Pediu um bom dia. E foi a ausência desse gesto, repetida por meses, que transformou um homem gentil em alguém revoltado, capaz de desligar a internet só para ser notado uma vez.
Setembro amarelo lembra a todos nós da importância de cuidar da saúde mental. Mas cuidado não começa em campanha, começa em prática diária, e essa prática não depende de autorização da empresa.
Foi essa a pergunta que ficou comigo depois daquela parada: o que está acontecendo com a nossa capacidade de enxergar o outro?
Entre os haters da internet, os que acham que sempre têm razão e os que são tomados pela vaidade, é fácil perder de vista que nenhuma política corrige o que só a sensibilidade individual resolve.
Precisamos parar de cobrar de todos e olhar primeiro para o que podemos fazer com pequenos gestos. Nos seus próximos trinta segundos de interação hoje, que ambiente você está construindo?
Nesta coluna, trarei reflexões sobre carreira, liderança, coaching e as principais tendências que impactam o mundo do trabalho. Sua participação é muito bem-vinda. Comente, envie sua pergunta ou fale comigo pelo Instagram @delaniasantosds. Aproveite também para se inscrever no canal do YouTube @delaniasantosds. Será um prazer ter você comigo nessa jornada. Até a próxima!
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.