O preço de não ter onde se esconder
Neymar chorou duas vezes nesta Copa. A primeira, sozinho, no vestiário, depois da vitória sobre a Escócia. A segunda, em campo, aos olhos de todo mundo, no fim da eliminação para a Noruega.
Entre uma cena e outra, ele foi chamado de fraco, de dramático, de "chora quando convém". Ninguém perguntou o óbvio: o que custa manter a compostura quando o mundo inteiro tem opinião sobre cada gesto seu?
Essa é a pergunta que interessa, e ela vai muito além do futebol. Quem chega ao topo perde o direito de ser visto sem estar em atuação. Todo gesto vira símbolo, todo silêncio vira notícia, toda lágrima vira prova de alguma coisa, fraqueza para uns, humanidade para outros.
Não existe versão neutra de estar exposto. Existe apenas a versão que cada torcedor, cada comentarista, cada seguidor decide enxergar.
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Isso não é exclusividade de quem joga uma Copa do Mundo. É a rotina de qualquer pessoa que ocupa uma posição de liderança. O "romantismo" de uma posição de destaque pesa muito e pode custar a saúde mental, o legado construído e o sentimento de pertencimento.
A exemplo do futebol, somos todos brasileiros, entretanto somos muito mais benevolentes com o que não é nosso. Por que isso acontece?
Executivos, herdeiros de empresas familiares, líderes de equipe, todos vivem essa mesma equação. Quanto mais alto o cargo, menos espaço sobra para vacilar em público. Um desabafo na reunião errada vira "instabilidade emocional".
Um dia ruim vira "sinal de que não aguenta o cargo". O líder premiado de hoje pode ser o líder questionado de amanhã. E o histórico? Conta? Não! É essa régua alta que afeta todos os profissionais de alta performance, sem paredes ou esconderijos.
Quanto maior o sucesso, menos direitos, menos erros possíveis e mais perfeição. O resultado de ontem tem prazo de validade. O problema não é a cobrança em si. Performance se avalia, resultado se discute, isso faz parte de qualquer posição de responsabilidade. O problema é quando a crítica técnica vira desculpa para o ataque pessoal.
Existe uma diferença enorme entre dizer "o desempenho não correspondeu ao esperado" e ridicularizar alguém por ter demonstrado emoção, ignorando, por vezes, tudo o que a pessoa já fez e construiu como legado. A primeira frase constrói, já a segunda só humilha, e humilhação nunca fez ninguém performar melhor.
Neymar chorou sozinho da primeira vez. Isso diz muito. Mesmo treinado a vida inteira para manter a imagem de camisa 10, a emoção vazou onde ele achou que estava protegido. É a prova de que ninguém sustenta a "máscara" o tempo todo, por mais experiente, mais preparado, mais blindado que pareça ser.
Todo líder tem o seu vestiário. O carro depois da reunião difícil, o banheiro no intervalo da negociação que não foi bem ou o momento sozinho antes de voltar a sorrir para a equipe. A diferença é que a maioria de nós tem a sorte de que esse momento não vire manchete com uma onda de mensagens de ódio, algo que não é possível para Neymar ou qualquer outro atleta que tenha, sobre os ombros, a expectativa pública.
Se existe alguma lição nisso tudo, não é sobre chorar ou não chorar. É sobre reconhecer que exposição total tem um preço, e que cobrar excelência de alguém não dá a ninguém o direito de negar a essa pessoa o direito de ser humano.
E se você é líder e sente que está pagando um preço alto pela posição que ocupa, quero lhe dizer que isso faz parte do jogo e que, se você aceitou jogar, não dá para criticar as regras. O ideal é repensar o que pode ser feito para que esse "peso" não prejudique todas as outras áreas da sua vida ou para que o nível de autocobrança não neutralize tudo o que ainda pode ser "jogado". Jogar a toalha antes do "fim" é o pior cenário possível.
Para jogar em potência máxima até o fim do jogo, é importante:
1. Assumir o peso e as regras da posição. Ninguém é convocado para o topo e recebe o manual de como vai doer. Aceitar o cargo, a faixa de capitão ou a cadeira de CEO é aceitar o pacote inteiro, o aplauso e a cobrança. Reclamar da régua alta depois de escolher subir nela é a única jogada que não existe.
2. Acreditar no processo. Nenhuma interferência pode determinar o nosso tamanho. Comentarista de rede social não decide escalação. Fofoca de corredor não decide sucessão. Quem entende o jogo por dentro sabe que opinião não determina o resultado. O tamanho de quem lidera se mede pelo trabalho, não pelos "gritos" de quem assiste de camarote.
3. Entender que vulnerabilidade não é fraqueza, é fortaleza. Chorar sozinho no vestiário não apaga os anos de camisa 10. Mostrar que dói é o que separa gente de personagem. Líder que nunca vacila em público não é mais forte, só é mais bem treinado para esconder, entretanto, esse movimento tem prazo de validade.
4. Aceitar que agradar a todos é uma missão impossível, pois cada cabeça é um universo. Para cada torcedor que chamou o choro de fraqueza, teve outro que chamou de coragem. Vai ser sempre assim. Gastar energia tentando controlar a opinião alheia é o jogo mais perdido que existe, e a energia de um líder é recurso escasso. O lugar certo para investir é na entrega, não na aprovação geral.
5. Ter convicção do processo que ninguém conhece, só você. Ninguém vê o treino, só vê o jogo. Ninguém sabe quantas vezes você recomeçou por dentro antes de aparecer inteiro por fora. Essa convicção é o que sustenta a decisão de continuar quando o placar do momento diz para parar.
6. Revalidar a própria história. Antes de acreditar no julgamento de quem só viu um lance, releia sua própria trajetória. Ela é mais longa e mais forte do que qualquer manchete de um dia só. Neymar vai continuar sendo craque e um empresário bem-sucedido. Há quem concorde e torça a favor, e sempre haverá quem discorde e apedreje. E se você lidera alguma coisa, uma empresa, uma equipe, um legado de família, a régua que o espera não é diferente.
O aplauso vem fácil quando o resultado aparece, mas o teste de verdade é o que você faz no vestiário, quando ninguém está vendo, e o único juiz é você mesmo.
Admiro o "menino Ney" pelo que já fez em campo e pelo que faz fora dele. Lamentei ver o seu choro, porque, além de ver, pude sentir toda a frustração que ele carregava.
Certamente não era um lamento vinculado só ao título que não veio, mas a tudo o que aconteceu no bastidor que só ele conhece e viveu. No mais, desejo sucesso a Neymar nesse novo capítulo de sua vida e concluo sendo grata pelos vários momentos de alegria que ele proporcionou a cada gol marcado em sua galeria de feitos.
Nesta coluna, trarei reflexões sobre carreira, liderança, coaching e as principais tendências que impactam o mundo do trabalho. Sua participação é muito bem-vinda. Comente, envie sua pergunta ou fale comigo pelo Instagram @delaniasantosds. Aproveite também para se inscrever no canal do YouTube @delaniasantosds. Será um prazer ter você comigo nessa jornada. Até a próxima!
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