O mercado não ignorou você. Ele não o encontrou

Escrito por
Delania Santos producaodiario@svm.com.br
(Atualizado às 07:23)
Legenda: O silêncio do mercado quase sempre tem uma explicação, e ela raramente está onde o profissional procura.
Foto: CrizzyStudio/Shutterstock

Há um tipo de profissional que faz tudo certo e, mesmo assim, não é chamado para as entrevistas de emprego. Atualiza o currículo, organiza o LinkedIn, participa de eventos, circula, mas o silêncio persiste. A explicação mais imediata, e a mais cruel consigo mesmo, é a de que falta qualificação. Mas essa raramente é a causa real.

O caso de Ricardo

Ricardo tem mais de 15 anos de experiência em gestão de TI. Foi demitido recentemente e, até hoje, não entende exatamente o porquê. No relato que me trouxe, ele se descreve como peça que sempre gerou resultados consistentes, um profissional competente que cumpriu sua parte. Fez tudo que manuais de recolocação recomendam: atualizou currículo, revisou o LinkedIn, participou de eventos do setor, ativou a rede de contatos. Nenhum convite para entrevista chegou.

Quando perguntei a Ricardo o que ele achava que havia dado errado, a resposta veio rápido: deve ser o mercado ou talvez a minha idade. É a primeira conclusão a que a maioria dos profissionais chega quando o silêncio se prolonga, e quase sempre é a conclusão errada. O problema raramente está no que falta, e sim no que ficou desatualizado sem que ninguém avisasse.

Currículo atualizado e LinkedIn organizado são condições básicas, não diferenciais. O que move uma candidatura é clareza: saber o que você entrega de valor real, como isso é percebido por quem contrata e onde esse valor é mais necessário agora. Essa clareza não vem de dentro, e sim de perguntas que poucos profissionais têm coragem de fazer, especialmente quando estão fora do mercado e a pressão cresce. Por que saí? O que ficou por dizer na minha última avaliação? O que eu faria diferente? O que o mercado está pedindo que eu ainda não tenho?

Ficar em silêncio diante dessas perguntas é o que mantém o profissional no silêncio do mercado.

O que está por trás do silêncio

O silêncio do mercado quase sempre tem uma explicação, e ela raramente está onde o profissional procura. Abaixo, estão os cenários que aparecem com mais frequência e que, juntos, respondem à pergunta que ninguém consegue formular sem ajuda.

Cenário 1: A experiência que virou certeza

Há profissionais que acumularam tanto que pararam de questionar. Atendi um gestor que, em praticamente todas as nossas conversas, recorria aos mesmos elogios recebidos ao longo da carreira, como se fossem comprovações de que nada precisava ser revisto. Toda vez que eu tentava levá-lo a uma reflexão mais profunda sobre o que poderia estar desatualizado, ele respondia citando algum colega que conseguiu se recolocar, mas que, segundo ele, tinha menos capacidade técnica.

A conclusão vinha pronta: se esse colega conseguiu, o mercado está aceitando qualquer coisa. Nunca: o que eu ainda não atualizei?

O mercado não avalia o que você já fez, mas o que é capaz de fazer agora. Certificações que eram diferenciais há cinco anos viraram requisito básico. Ferramentas que não existiam quando você foi contratado são hoje esperadas no primeiro dia. Quem transforma elogios antigos em escudo contra a autocrítica chega ao mercado com um currículo honesto e uma proposta desatualizada, sem perceber a diferença entre as duas coisas.

Cenário 2: O corredor que virou prisão

Existe um movimento quase automático em quem busca recolocação: procurar exatamente o que já fez, no mesmo setor, no mesmo nível, na mesma trilha. Atendi um gestor que recusava convites por considerá-los abaixo do seu nível, medindo cada oportunidade pelo salário que já alcançou e pelo cargo que já ocupou.

O que ele não via é que sua área estava em transformação, exigindo cada vez mais um perfil generalista, e que as oportunidades alinhadas a esse novo momento exigiam abrir mão de rótulos antigos, não de competência.

O mercado se moveu. Algumas funções encolheram, outras surgiram em áreas adjacentes que esse profissional nunca considerou porque nunca precisou. Quem só enxerga o próximo passo lógico da própria carreira ou recusa qualquer passo que pareça lateral, não vê as oportunidades que estão ao lado, e disputa um espaço cada vez mais estreito com cada vez mais concorrentes.

Por onde começar?

O diagnóstico sem movimento não resolve. Depois de identificar em qual cenário você se encontra, o próximo passo deve ser concreto.

1. Questione a imagem que você tem de si mesmo.

Pergunte a alguém de confiança, um ex-gestor, um colega próximo, como ele descreveria suas entregas e suas limitações. Não para buscar elogio, mas para confrontar a imagem interna com a percepção externa. O que você acredita entregar e o que de fato é percebido podem ser coisas diferentes. Essa diferença é o primeiro ponto cego a eliminar.

2. Mapeie o mercado antes de disputá-lo.

Quais competências estão sendo mais exigidas na sua área agora? Quais certificações aparecem com frequência nas vagas que você deseja? Onde há demanda que você ainda não considerou? Antes de atualizar o currículo, atualize o mapa, porque currículo sem direção é um documento sem destino.

3. Amplie o corredor.

Liste três funções ou setores adjacentes à sua trilha onde suas competências se aplicam. Não precisa ser uma mudança radical, precisa ser um movimento consciente para fora do espaço dentro do qual todo mundo que faz o que você faz está disputando as mesmas vagas. O mercado tem mais espaço do que o corredor que você conhece.

Ricardo ainda está em processo, mas pela primeira vez está fazendo as perguntas certas. O silêncio pesa e a insegurança é real. Nenhum dos dois define o que vem a seguir, você sim.

Nesta coluna, trarei reflexões sobre carreira, liderança, coaching e as principais tendências que impactam o mundo do trabalho. Sua participação é muito bem-vinda. Comente, envie sua pergunta ou fale comigo pelo Instagram @delaniasantosds. Aproveite também para se inscrever no canal do YouTube @delaniasantosds. Será um prazer ter você comigo nessa jornada. Até a próxima!