Entenda por que desenvolver pessoas é a nova fronteira da competitividade

Escrito por
Delania Santos ds@delaniasantos.com
Legenda: Não se trata apenas de enviar colaboradores para cursos ou treinamentos pontuais. Falar em desenvolvimento é falar de cultura.
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Nos últimos anos, falar sobre formação de talentos passou a ser parte do discurso corporativo, tornando-se um item obrigatório em relatórios, reuniões e campanhas de employer branding (marca empregadora). Mas quando o discurso é confrontado pela prática, a incoerência salta aos olhos. Por quê?

De acordo com o Guia Salarial 2026 da Michael Page, 60% das empresas afirmam oferecer programas de capacitação e desenvolvimento, mas apenas 28% dos profissionais dizem ter acesso real a esse benefício.

A diferença entre o que se declara e o que se entrega mina a confiança, o engajamento, o propósito e revela um dos maiores paradoxos do mercado de trabalho atual: falta talento, mas o talento que já está dentro das empresas não é, de fato, desenvolvido.

Enquanto 73% das organizações relatam dificuldade para contratar por falta de profissionais qualificados, muitas deixam de investir de forma consistente na qualificação das próprias equipes. A capacitação ainda é tratada como custo, e não como ativo estratégico.

A lógica imediatista que prioriza metas trimestrais e resultados rápidos tem empurrado o aprendizado para segundo plano, justamente em um contexto que exige atualização constante.

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Não se trata apenas de enviar colaboradores para cursos ou treinamentos pontuais. Falar em desenvolvimento é falar de cultura. É sobre líderes que dedicam tempo a ensinar, equipes que aprendem juntas e empresas que compreendem o aprendizado como parte do trabalho, não como uma concessão.

O Guia Salarial mostra que as organizações até reconhecem a importância do tema, mas ainda falham em criar mecanismos que conectem o aprendizado às oportunidades de crescimento e à trajetória profissional dos colaboradores.

Participo com frequência de reuniões com áreas de Recursos Humanos para discutir programas de capacitação e desenvolvimento. E, em muitos casos, percebo um descompasso. De um lado, empresas que ainda lutam para estruturar iniciativas que realmente gerem valor e permitam ao colaborador aplicar, na prática, o que aprendeu.

De outro, profissionais que encaram os eventos de educação como um fardo, sem perceber a conexão direta entre esses momentos e o avanço de suas carreiras.

Em muitas empresas, “capacitação” ainda é vista apenas como enviar colaboradores para treinamentos isolados, sem conexão com um plano de desenvolvimento real e sem alinhamento com o negócio.

Investir em desenvolvimento exige uma reflexão mais profunda, que considere a estratégia da empresa, o perfil e desempenho das equipes e os resultados que se espera alcançar.

Quando participo desses processos, busco sempre tangibilizar os objetivos dos cursos ou programas. Algumas perguntas tornam-se imprescindíveis:

  • Por que capacitar neste momento? O treinamento visa preparar a equipe para o futuro, corrigir algo que está impactando os resultados ou apoiar os colaboradores em seus desafios atuais?
  • Quem será desenvolvido? Todos os colaboradores, equipes específicas ou talentos estratégicos?
  • Quais competências serão abordadas? Como elas contribuem para os objetivos da capacitação?
  • Como o aprendizado será aplicado no dia a dia? Existe um plano de ação? Quem acompanhará? Como os resultados serão apresentados?
  • Como medir o impacto do desenvolvimento? O que é realmente importante mensurar e como será feito?

Em tempos de contenção salarial, o desenvolvimento se tornou o benefício mais poderoso, não apenas porque amplia competências, mas porque simboliza valorização. Investir em pessoas é investir no futuro do negócio.

As empresas que entenderem isso primeiro terão vantagem competitiva, não apenas por atrair talentos, mas por mantê-los engajados, leais e preparados para o que vem a seguir.

Qual o papel dos líderes no desenvolvimento de talentos?

Líderes são os principais agentes do aprendizado dentro das organizações. Não basta apenas disponibilizar cursos ou treinamentos; é preciso que cada líder compreenda que seu papel vai além da gestão de tarefas e resultados. Desenvolver pessoas significa inspirar, orientar, desafiar e acompanhar o crescimento da equipe de forma contínua.

Alguns pontos-chave para líderes atuarem efetivamente nesse cenário:

  • Modelar comportamentos: líderes que aprendem junto com suas equipes mostram que o desenvolvimento é parte do trabalho e não apenas um benefício pontual. Modelam pelo exemplo e, nesse sentido, o líder deve ser o primeiro a aplicar os conhecimentos adquiridos.
     
  • Dedicar tempo ao aprendizado: É fundamental criar momentos para ensinar, dar feedback construtivo e discutir como aplicar novas habilidades no dia a dia. A desculpa mais dita por líderes nos meus processos de mentoria é: “não tenho tempo para desenvolver o time!”. Minha resposta sempre é: “Não dá tempo porque isso não é prioridade na sua agenda. Dois minutos de conversa bem direcionados podem transformar um comportamento!”
     
  • Conectar desenvolvimento a resultados: O aprendizado deve estar alinhado aos objetivos da equipe e da empresa. Cada novo conhecimento precisa gerar impacto real e esse impacto deve ser explicado ao profissional.
     
  • Criar oportunidades de crescimento: Líderes devem identificar talentos estratégicos e mapear caminhos para que competências recém-adquiridas se transformem em novas responsabilidades e desafios. Muitas empresas se veem reféns por falta de sucessores e isso põe em risco a competitividade do negócio.
     
  • Medir, reconhecer e celebrar conquistas: ações simples, mas poderosas, fazem diferença no engajamento das equipes. Medir o que realmente importa, no entanto, continua sendo um dos maiores desafios das organizações. Ter indicadores não basta! É preciso garantir que eles reflitam o que, de fato, impulsiona os resultados estratégicos. O faturamento, por exemplo, pode crescer sem que isso se traduza em melhoria do EBITDA. Por isso, medir com propósito é tão essencial quanto reconhecer e celebrar os avanços alcançados.

Em resumo, desenvolvimento de pessoas é também desenvolvimento de líderes. Aqueles que compreendem essa relação e assumem o protagonismo no crescimento de suas equipes estão, na prática, preparando suas organizações para enfrentar os desafios de um mercado em constante transformação.

Nesta coluna, trarei reflexões sobre carreira, liderança, coaching e tendências que impactam o mundo do trabalho. Sua participação é muito bem-vinda! Comente, envie sua pergunta ou fale comigo pelo Instagram: @delaniasantosds. Aproveite para se inscrever no canal do YouTube: @delaniasantosds. Será um prazer ter você comigo nessa jornada. Até a próxima"

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor. 

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