Conheça três lições que a Geração Z está dando aos líderes
Em uma mentoria recente, um líder me disse, com um misto de cansaço e frustração: "Não aguento mais essa geração. Não tem comprometimento, não aceita feedback, larga tudo na primeira dificuldade." Ouvi com atenção e, no final, fiz apenas uma pergunta: e se o problema não for a geração?
Antes de continuar, preciso deixar claro: este texto não é uma defesa incondicional da Geração Z. Não é sobre romantizar quem chegou ao mercado de trabalho com um celular na mão e a impaciência nas veias. É sobre algo mais difícil e mais necessário: rever o olhar de quem lidera.
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A Geração Z cresceu em um mundo instável. Crises econômicas, pandemia, colapso de instituições, acesso irrestrito à informação e, com ela, a consciência de que muito do que foi prometido às gerações anteriores simplesmente não se cumpriu.
Eles viram pais e mães se dedicarem a empresas que os demitiram por e-mail. Aprenderam cedo que lealdade cega não é virtude, é ingenuidade.
Por isso, quando um jovem profissional pergunta qual é o propósito daquela tarefa, ele não está sendo arrogante. Está sendo coerente com a forma como aprendeu a se relacionar com o trabalho.
Quando ele recusa horas extras sem justificativa clara, não está sendo preguiçoso. Está estabelecendo um limite que muitos líderes nunca tiveram coragem de estabelecer para si mesmos.
Isso incomoda. E incomoda justamente porque expõe algo que o ambiente corporativo ainda resiste em nomear: por décadas, naturalizar o excesso foi chamado de dedicação. E quem não seguia esse padrão era visto como fraco ou descomprometido.
Os dados confirmam essa leitura. Uma pesquisa da Deloitte (2025) revelou que cerca de 90% da Geração Z acredita que trabalhar para uma empresa que compartilha seus valores é crucial para a satisfação e o bem-estar no trabalho.
Não é capricho. É coerência com uma geração que aprendeu, desde cedo, a desconfiar de quem diz uma coisa e faz outra.
Esse peso tem tamanho: segundo o Glassdoor (2024), a Geração Z já ultrapassou os Baby Boomers em número de trabalhadores em tempo integral no mercado global. Ignorar o que essa geração pensa e sente deixou de ser uma opção.
Há comportamentos da Geração Z que desafiam líderes despreparados, sim. A dificuldade com críticas, a impaciência com processos lentos, a necessidade constante de feedbacks, a tendência a questionar hierarquias sem a habilidade política de fazê-lo bem.
Esses são pontos reais de desenvolvimento. Mas confundir imaturidade com má índole é um erro que custa caro.
O que os líderes precisam aprender com essa geração?
A primeira lição é sobre clareza. A Geração Z não funciona bem com ordens sem contexto. Eles precisam entender o porquê. E aqui está o paradoxo: todo profissional funciona melhor quando entende o propósito do que faz.
A diferença é que essa geração cobra isso abertamente, enquanto outras gerações apenas sofriam em silêncio. A segunda lição é sobre coerência. Eles têm uma tolerância muito baixa para o gap entre discurso e prática.
Se a empresa fala em saúde mental, mas cobra produtividade às 22h, eles percebem. Se o líder fala em cultura de feedback, mas fica na defensiva quando recebe um, eles percebem. E vão embora antes de reclamar.
A terceira lição é sobre limite como parte da performance. Durante anos, o mercado confundiu disponibilidade total com comprometimento. A Geração Z está mostrando que é possível entregar bem dentro de um espaço definido. Isso não é menos. Em muitos casos, é mais sustentável.
Como engajar a Geração Z na prática
1. Mude sua mentalidade. Cada geração tem o seu valor. Os Baby Boomers, geração nascida entre 1946 e 1964, são conhecidos por valorizar estabilidade, hierarquia, lealdade à empresa, ética do trabalho como sacrifício e reconhecimento pela senioridade e tempo de casa. Dependendo da organização, são requisitos muito valiosos para algumas posições.
A Geração Z não é diferente. Ela tem o seu valor, e é importante olharmos com empatia para essas características. Quando o líder, prematuramente, rotula esses profissionais, fecha completamente a possibilidade de adaptação e de evolução do relacionamento. Liderar bem sempre exigiu a capacidade de enxergar o que cada pessoa tem de melhor, antes de cobrar o que ainda falta.
2. Explique o contexto antes de dar a tarefa. Não basta delegar. Antes de atribuir uma responsabilidade, conte o que está em jogo, por que aquilo importa e como aquela entrega se conecta ao resultado maior. Esse gesto simples, que muitos líderes ignoram por achar desnecessário, é o que determina se esse profissional vai se comprometer ou apenas cumprir.
3. Substitua a cobrança por conversas de desenvolvimento. A Geração Z responde mal à pressão sem direção. Quando algo não vai bem, antes de cobrar, pergunte: o que está travando? O que você precisa para avançar? Essa mudança de postura não é condescendência, é inteligência de gestão. Profissionais que se sentem vistos entregam mais e ficam mais tempo.
4. Revise o que você chama de comprometimento. Se o único modelo de dedicação que você reconhece é o do profissional sempre disponível, que responde mensagens fora do horário e nunca diz não, vale uma reflexão honesta. A Geração Z está recusando esse modelo. E, no fundo, muitos líderes também gostariam de tê-lo recusado. O comprometimento real se mede pela qualidade da entrega, não pelo tamanho do sacrifício.
Liderar essa geração exige mais preparo, mais clareza e mais disposição para se revisar. Não é confortável, mas nenhuma liderança de verdade o é.
O líder que só consegue engajar quem não questiona talvez nunca tenha sido testado de verdade. A Geração Z não veio para dificultar a vida de quem lidera. Veio, sem saber, para revelar o quanto ainda há para evoluir.
Nesta coluna, trarei reflexões sobre carreira, liderança, coaching e as principais tendências que impactam o mundo do trabalho. Sua participação é muito bem-vinda. Comente, envie sua pergunta ou fale comigo pelo Instagram @delaniasantosds. Aproveite também para se inscrever no canal do YouTube @delaniasantosds. Será um prazer ter você comigo nessa jornada. Até a próxima!
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