Como desenvolver inteligência emocional para lidar com os desafios diários no trabalho?
O Brasil entrou em campo no MetLife Stadium na estreia da Copa do Mundo com toda a expectativa de uma nação sobre os ombros. Nos primeiros minutos, o que faltou não foi técnica nem tática. Foi a inteligência emocional para fazer os dois funcionarem sob pressão.
Além disso, um outro elemento invisível afetou tudo isso: a expectativa de milhões de brasileiros.O elenco brasileiro demonstrou, de forma bastante visível, aquilo que nenhuma comissão técnica gosta de admitir em público: a pressão emocional chegou antes do adversário.
É comum ouvir que o Marrocos não precisou fazer muito. Eu discordo. Eles demonstraram consistência técnica, resultante de um processo de quatro anos ou mais.
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E aí sim, bastou manter a calma para, além de executar seu plano de jogo, explorar os espaços que a ansiedade brasileira foi abrindo. Aos 21 minutos, o gol marroquino foi, também, consequência de um estado mental que antecedeu qualquer erro técnico.
Quem trabalha com liderança reconhece esse padrão imediatamente. Não é o adversário que derruba primeiro, é a instabilidade interna.
E ela não chega anunciada. Aparece nas seguintes situações:
- Na fala que sai antes do pensamento terminar;
- Na decisão tomada no calor de uma reunião que, horas depois, já não faz mais sentido;
- Na dificuldade de ouvir quando a cabeça está ocupada demais com o que vai responder;
- No e-mail enviado no pico da irritação que nenhum recuo consegue desfazer;
- Na sensação de que tudo é urgente ao mesmo tempo, o que, na prática, significa que nada está sendo priorizado com clareza;
- No tom defensivo diante de qualquer feedback, mesmo quando ele é construtivo;
- Na paralisia que se instala exatamente quando a situação exige movimento.
Esses sinais raramente são interpretados como falta de regulação emocional. No ambiente corporativo, eles costumam ganhar outros nomes: liderança intensa, perfil exigente, alto nível de comprometimento, comportamento orientado para resultados.
A narrativa muda, o problema, não. Inteligência emocional não é sobre não sentir, é sobre não ser governado pelo que sente e ser cuidadoso com o bem-estar coletivo. A falta de regulação emocional cria marcas que um pedido de desculpas não é capaz de recuperar.
O Brasil do primeiro tempo mostrou o que acontece quando a emoção assume o comando: movimentos descoordenados, falta de clareza nas jogadas, reatividade no lugar de estratégia.
E mostrou também o que a regulação emocional é capaz de produzir: no segundo tempo, vimos uma mudança técnica que melhorou um pouco a marcação ao longo da partida, dando poucas chances para o time adversário. Aos poucos, o time encontrou o equilíbrio e fechou o jogo de forma mais consistente.
Não confunda Inteligência Emocional com indiferença ou superioridade
Marrocos respeitou o seu oponente e, por isso, se preparou. Quando encaramos a realidade na qual estamos inseridos e entendemos o verdadeiro impacto dos nossos resultados, somos mais conscientes do que precisamos fazer e/ou abrir mão para chegar ao alvo.
Ser inteligente emocionalmente requer que saibamos exatamente quais são nossas fraquezas e, também, as fortalezas com as quais não sabemos lidar.
Quando cito isso em palestras ou mentorias, é comum o estranhamento das pessoas. Como assim, conhecer fortalezas com as quais não sabemos lidar?
As fortalezas podem nos cegar e minimizar o 'trabalho árduo', os desafios e as outras pessoas. Quanto mais conhecimento temos sobre algo, mais 'certeza' podemos ter sobre o nosso posicionamento, e é aí que a armadilha é criada.
Tornamo-nos inflexíveis e, muitas vezes, totalmente avessos a opiniões diferentes. Nesse sentido, o desenvolvimento da IE não só envolve nossas misérias, mas, também, nossos talentos naturais e como nos sentimos com relação a eles.
Isso acontece todos os dias, em todos os lugares! Imagine um atleta de alto desempenho discordando da estratégia de jogo; um liderado que não aceita receber feedbacks; ou ainda um líder que não tem alinhamento cultural com a empresa na qual trabalha. Isso, certamente, impacta o desempenho.
Como aplicar essas reflexões para desenvolver a Inteligência Emocional?
Construir essa habilidade exige um trabalho que começa antes da situação de pressão. O primeiro passo é entender o que realmente lhe tira do eixo. Não a situação em si, mas o que ela ameaça.
Por trás de toda reação desproporcional existe algo que a pessoa está tentando defender: autoridade, reconhecimento, controle, segurança. Identificar esse gatilho é o que separa quem reage de quem responde.
O segundo passo é ter estratégias práticas para interromper o ciclo antes que ele se complete. Sair do ambiente por alguns minutos; adiar uma conversa que, naquele momento, só vai gerar ruído; respirar antes de responder; não são recursos óbvios que todo mundo já sabe e ninguém aplica.
São decisões conscientes que precisam ser treinadas para estarem disponíveis exatamente quando a pressão é maior.
O terceiro passo é avaliar o próprio comportamento depois que a situação passa. O que eu fiz? O que aquilo disse sobre mim? O que eu faria diferente? Sem esse olhar retrospectivo, o padrão se repete. Com ele, a mudança começa. Quanto maior o nível de performance, maior a necessidade desse olhar.
O quarto passo é sentar-se na cadeira do outro: pensar sobre qual foi a sua intenção, estratégia e o que desejava defender. Isso traz clareza sobre a proporcionalidade da atuação de todos os envolvidos.
A pergunta que fica não é sobre o Brasil ou sobre Marrocos. É sobre o que você faz nos seus primeiros onze minutos quando o contexto é adverso, a pressão é real e a plateia está assistindo, porque o resultado de qualquer jogo decisivo começa a ser construído muito antes do apito inicial.
Começa na capacidade de entrar em campo inteiro, independente do que está em jogo.
Nesta coluna, trarei reflexões sobre carreira, liderança, coaching e as principais tendências que impactam o mundo do trabalho. Sua participação é muito bem-vinda. Comente, envie sua pergunta ou fale comigo pelo Instagram @delaniasantosds. Aproveite também para se inscrever no canal do YouTube @delaniasantosds. Será um prazer ter você comigo nessa jornada. Até a próxima!