Autonomia como moeda de permanência: o novo valor nas relações de trabalho
Iniciamos a segunda quinzena de julho e, com o fim das férias, muitos profissionais fazem um balanço íntimo: voltar com energia ou procurar outro lugar? E quando isso acontece em empresas que exigem retorno presencial, o sinal é claro: a autonomia deixou de ser diferencial, virou item mínimo. O que considerar para tomar uma decisão consciente? A autonomia só é possível no modelo home office?
Em 2023, a pesquisa Carreira dos Sonhos, da Cia de Talentos, abordou a “Busca pela Liberdade de Escolha” e analisou como a percepção de sucesso mudou ao longo dos anos. Em 2016, 67% dos profissionais afirmavam que o sucesso profissional era sua prioridade máxima. A realização pessoal estava diretamente ligada à carreira.
Sete anos depois, o cenário mudou. Qualidade de vida passou a ocupar o topo da lista. Em 2024, a mesma pesquisa ouviu mais de 93 mil brasileiros: 65% disseram que valorizam tempo livre e flexibilidade, inclusive o trabalho remoto, e 72% afirmaram que desejam um trabalho com propósito.
Este levantamento mostra que liberdade e autonomia de ação estão no centro do que faz um profissional se sentir pertencente a uma organização. Isso não é mais um benefício, é um pré-requisito. E quando faltam escuta, acolhimento e transparência, muitos respondem silenciosamente trocando de emprego.
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Na ressaca das férias, esse sentimento fica ainda mais forte: afinal, descanso expõe o que realmente importa. Se a empresa exige presença para alguns, ela ‘pode’ estar dizendo, no fundo, “não confiamos em você”.
E essa mensagem pesa. Permanecer não se compra com salário, conquista-se com liberdade, propósito e confiança. Mas o que são realmente liberdade, propósito, confiança Eventualmente, comento em palestra que esses três elementos, por vezes, criam nuances perigosas!
Não acredito em largar tudo por um ‘propósito’ que colocará em risco as necessidades básicas, por exemplo, ou buscar uma liberdade sem ter sustentabilidade financeira para usufruir dela. Enfim, decisões sempre precisam ser tomadas depois de várias noites de sono, sem emoção e/ou impulsividade.
E, principalmente, levando em consideração todos os possíveis impactos que ela gerará em sua vida. O número de demissões voluntárias aumentou em 2024. Uma pesquisa realizada pelo Ministério do Trabalho em 2024 ouviu 53.692 desses demissionários, e revelou que o fim do trabalho remoto pode ter influenciado a decisão dos profissionais que deixaram seus empregos.
Alguns dados mostram que:
· 15,7% citaram a falta de flexibilidade da jornada;
· 21,7% mencionaram dificuldade de mobilidade entre casa e trabalho;
· 9,1% apontaram a necessidade de cuidar de crianças ou de outros membros da família.
Como este cenário impacta a liderança?
Mais do que reter talentos, liderar agora é reconhecer essa realidade e conseguir destacar outros benefícios que possam equilibrar trabalho e qualidade de vida. O que profissionais querem e precisam vai além de uma cadeira no escritório. Eles desejam um lugar onde possam ter voz e realizar um trabalho que faça sentido. A volta ao presencial influencia sim, mas não é o fim.
No retorno pós-férias, líderes têm a oportunidade de usar esse momento para resgatar diálogo, reafirmar propósito e, principalmente, entender o que, de fato, faz as pessoas ficarem. Para tanto, algumas ações abaixo podem ajudar:
1. Reforçar a confiança por meio de entregas e metas claras - quando os objetivos são bem definidos, o local de trabalho torna-se secundário. É mais eficaz cobrar resultados do que presença.
2. Incluir a escuta ativa como parte da rotina da liderança - rodas de conversa, pesquisas internas e 1:1s sinceras ajudam a captar o clima organizacional antes que ele exploda em pedidos de demissão.
3. Trabalhar a cultura de pertencimento no ambiente presencial - se o retorno ao escritório for necessário, ele precisa fazer sentido. Que vínculos, rituais ou experiências presenciais são realmente relevantes? Reuniões podem ser online, mas conexões genuínas pedem intencionalidade.
4. Fomentar um plano de carreira adaptável à nova realidade - profissionais que enxergam crescimento e sentido em suas funções permanecem, mesmo diante de desafios logísticos. Mas esse plano precisa ser construído a partir do que cada geração valoriza e não de suposições.
5. Treinar líderes para gerir pelo exemplo e pela confiança - a retenção não é um esforço do RH, mas um compromisso da liderança, e começa quando o líder deixa de controlar e passa a inspirar.
Estou em dúvida sobre o meu trabalho atual, o que devo fazer?
Antes de tomar uma decisão, como pedir demissão, para preservar o trabalho remoto, vale refletir com calma sobre os pontos elencados abaixo:
· Mesmo sendo presencial, que outros benefícios meu cargo atual oferece?
· Tenho oportunidade de crescimento ou visibilidade?
· Meu incômodo é com o modelo de trabalho ou com a cultura da liderança?
· O que eu faria de diferente se estivesse em um novo lugar e por que não posso começar a mudar aqui?
· O que pesa mais neste momento: a flexibilidade do local ou a solidez do propósito?
A autonomia precisa ser compreendida com profundidade. Nem tudo é propósito, nem toda liberdade é sustentável. Escolhas conscientes exigem pausa, ponderação e responsabilidade. Evite decisões impulsivas. Avalie os prós e os contras. Às vezes, o que falta não é um novo lugar, é um novo olhar sobre onde você já está.
Nesta coluna, trarei reflexões sobre carreira, liderança, coaching e tendências que impactam o mundo do trabalho. Sua participação é muito bem-vinda! Deixe sua pergunta, comente este post ou envie uma mensagem pelo Instagram: @delaniasantosds. Aproveite para se inscrever no canal do YouTube: @delaniasantosds. Será um prazer ter você comigo nessa jornada. Até a próxima