Fãs voltam a se interessar por CDs, mas mercado brasileiro ainda enfrenta desafios para crescer
Impulsionadas por indústria do K-pop e retomada do interesse pela mídia física, vendas de CDs cresceram nos Estados Unidos, mas Brasil ainda precisa de incentivos para acompanhar tendência.
Recentemente, uma pesquisa feita pela Luminate, empresa especializada em dados da indústria de entretenimento, animou entusiastas de mídia física ao revelar que a venda de CDs cresceu 16% no primeiro semestre deste ano nos Estados Unidos. Apesar de parecer pequeno, o índice torna-se relevante frente ao desinteresse pelo compacto na última década e ao protagonismo do disco de vinil, que vinha se destacando sozinho na recente retomada pelo interesse em consumo de música além dos streamings.
Um ponto interessante é que esse olhar renovado para um formato que parecia obsoleto veio não só da geração millennial, que viveu a chegada, o auge e a decadência do CD, mas também da geração Z, que inclui ex-usuários da mídia, mas também jovens que nunca chegaram a dar play em um aparelho de som – muitos motivados por conteúdos nas redes sociais, outros pela vontade de ficar mais off-line. Mas ainda que tenha chegado como tendência de comportamento, será que o impacto econômico sentido nos EUA já chegou de algum modo no Brasil?
A realidade é que alguns fatores relacionados ao mercado nacional podem desanimar quem tem interesse em comprar ou vender CDs atualmente. Um deles é que, enquanto fábricas de discos de vinil surgiram ou voltaram a operar no País, a exemplo da Polysom, da Vinil Brasil e da Rocinante, pouquíssimas se dedicam a produzir CDs.
Desse modo, a maioria dos lançamentos nacionais nem chegam às poucas prateleiras dedicadas ao formato, saindo apenas em outros países. Quando muito, chegam em tiragem limitada em vinil. Além disso, a própria indústria de eletrônicos não fornece opções acessíveis para quem busca CD players – ou seja, muitos fãs nem têm onde ouvir seus álbuns favoritos, ou precisam aderir a suportes inadequados, como aparelhos de DVD, para escutá-los.
Criado em 1982, o CD chegou no Brasil em 1986, com o álbum “Garota de Ipanema”, da cantora Nara Leão.
A esperança reside no fato de que a volta do vinil, impulsionada por colecionadores, também começou sem grande estrutura. Fábricas fechadas e vitrolas a preços caríssimos, somadas ao próprio valor mais alto dos discos, foram impeditivos por anos, mas o desejo dos audiófilos, junto a tendências estrangeiras e novidades no marketing musical, causou impacto significativo no mercado.
Hoje, por exemplo, há vitrolas mais acessíveis e uma nova era da cultura de vinil, com clubes de assinatura e artistas contemporâneos de olho na mídia, além de uma noção muito maior sobre os problemas do streaming – incluindo catálogos incompletos e que mudam a todo o tempo –, o que impulsiona a retomada do consumo de música analógico.
O preço dos CDs, que costuma ser pelo menos a metade dos vinis, também pode mover o público colecionador na direção do CD. Ainda é possível, portanto, acreditar num futuro compacto, com leitura óptica, faixa a faixa, em que o CD não voltou em definitivo, mas permanece presente.
K-pop, Taylor Swift e metal: o que movimenta o mercado de CDs hoje em dia?
Apesar da retomada da mídia física ter sido impulsionada por diversos fatores, um gênero específico tem sido apontado como responsável pelo crescimento da venda de CDs: o K-pop, responsável por quase 10% do crescimento das vendas no primeiro semestre deste ano nos EUA, segundo a Luminate.
Isso se deve ao fato de que o CD hoje é menos visto como algo prático, apenas para ouvir a música, e mais como um item colecionável para fãs – e nenhum outro nicho musical sabe tão bem como produzir e apreciar itens colecionáveis como o pop sul-coreano.
Vendidos em combos com fotos, photobooks e embalagens elaboradas, muitos CDs do gênero quase se perdem nos boxes. No entanto, lojas físicas e on-line não costumam contar com esses álbuns no estoque, restando aos fãs a difícil, longa e cara saga da importação.
Mas se é difícil encontrar CDs de grupos como BTS ou Stray Kids nas lojas físicas, o pop ocidental, sobretudo o norte-americano, ainda domina as vendas nesses espaços. Em uma conversa da coluna com vendedores de discos e CDs em três lojas de mídia física de Fortaleza, o pop foi citado como o mais procurado pelos fãs.
Com edições mais simples, mas ainda sim com capas diferentes e vários títulos, nomes como Taylor Swift, Madonna e Lana Del Rey, entre outras, são as mais procuradas. No outro extremo, o segundo gênero mais procurado costuma ser o rock, especialmente bandas de metal – que também costumam investir em capas diferentes, edições colecionáveis e boxes premium.
Em Fortaleza, interesse por CDs chegou de forma desigual
Atualmente, há poucas lojas com grande acervo de CDs para venda na capital cearense. Entre os destaques das que se dedicam principalmente a artigos musicais estão a Disco Mania, que funciona desde 1988 na Galeria Pedro Jorge, a Galeria do Rock; a Planet CDs, também na galeria, na ativa desde 1997; e a Freelancer Discos, que completa uma década em dezembro, entre o início nas vendas on-line e a atual loja na rua Dr. João Moreira, também no Centro.
Enquanto a Disco Mania e a Planet CDs registraram aumento módico na venda de CDs do ano passado pra cá – talvez por já terem um público consolidado e investimento antigo no formato –, a Freelancer Discos, que anteriormente só vendia LPs, registrou aumento significativo nas vendas ao começar a investir nos CDs.
Atualmente, os CDs representam 40% das vendas da loja idealizada por Alex Aguiar. Cerca de 13 mil LPs e 5 mil CDs integram o estoque constantemente abastecido, com álbuns clássicos e contemporâneos usados, de diferentes estilos musicais. Os valores dos compactos vão de R$ 15 a R$ 150, em média.
“O CD está voltando com uma força que dá para a gente se admirar, porque era uma mídia que a gente estava achando que tinha morrido”, relata Alex à coluna. “Mas não está saindo qualquer tipo de CD, certo? O que ainda sai muito é rock em geral, jazz e música pop, tipo Taylor Swift, Lana Del Rey e essas cantoras novas”, completa.
Para Alex, o principal motivo do interesse recente do último ano é que “o pessoal está abrindo o olho com o streaming”. “Além de não entregar uma qualidade sonora decente, porque um Spotify da vida não entrega, eles tiram os álbuns do catálogo sem avisar. Um CD vai ser seu. Na hora que tu quiser tu pode ouvir, ou vender ou trocar por outra coisa”, aponta.
Outro fator é a dificuldade de encontrar certos títulos em vinil, bem como o preço por vezes proibitivo dos LPs. “Mas quem é fã mesmo de vinil nunca deixa, às vezes têm os dois”, brinca.
Se na Freelancer o público que busca CDs é diversificado, na Disco Mania – que hoje conta com cerca de 30 mil CDs no estoque, com preços entre R$ 10 e R$ 80 –, os fãs que compram álbuns nesse formato são cada vez mais jovens, entre os 20 e 30 anos.
Mesmo com a renovação do público, as vendas não subiram mais do que 10%, impulsionadas por nomes do pop, do rock e da MPB, um dos principais focos da casa. Um dos empecilhos para o crescimento, segundo o vendedor João Paulo Freire, que trabalha na loja há mais de 20 anos, é o catálogo reduzido no formato.
“Acho que poderia ter mais opções, porque como teve um declínio de produção por parte dos fabricantes, ficou algo de nicho, eles não fabricam mais como antigamente, fabricam bem menos. Se o mercado expandisse mais, seria bom para todo mundo, tanto para o vendedor como para o colecionador”, sugere.
Não raro, no entanto, um cliente chega por lá buscando um disco de Belchior ou Tim Maia e, ao se deparar com os altos preços dos vinis, opta pelo CD, mesmo que não tenha como reproduzi-lo de imediato, conta João Paulo.
O vendedor Fernando Gomes, que trabalha na Planet CDs há quase duas décadas, aponta que o “comprar só para apoiar” é um comportamento comum dos fãs atualmente. Talvez o melhor espaço para quem quer acompanhar lançamentos no formato hoje no Ceará, a loja conta com cerca de 20 mil CDs e, apesar de também vender vinis, sempre focou no compacto para chegar ao público.
Para ele, a retomada do vinil nos últimos anos acabou ajudando o CD a retornar como uma mídia física atraente, porque o público “pegou o hábito de colecionar discos de novo”. “E quem já estava com o hábito de colecionar viu que às vezes é mais difícil ter acesso ao disco, porque é raro, e o CD é a metade do valor”, explica.
“E você consegue escutar a qualidade do CD perfeita em qualquer toca-CDs”, completa. “O vinil, para você realmente ter o que o vinil proporciona, você tem que ter um equipamento — um receiver, um amplificador, umas caixas legais — para realmente sentir o que o vinil pode proporcionar”.
Representante fiel do gênero, a Planet CDs começou a receber antigos e novos rostos quase que na mesma medida no último ano.
“Quem sempre consumiu ainda consome, mas eu passei a notar que tem uma garotada nova e tem uma galera que fazia tempo que eu não via na loja e passou a vir de novo, passou a comprar de novo, remontar a coleção”, conta Fernando, que acredita que o hábito de colecionar CDs voltou para ficar. Para ele, o CD virou, mais uma vez, “a novidade do momento”.
Ele destaca, no entanto, que o formato só pode se manter se a tendência refletir na reabertura de fábricas e mais estímulo a selos e gravadoras menores, que nunca pararam de lançar álbuns com pequenas tiragens, de forma independente. A prensagem nacional, destaca, é o caminho para fortalecer o que pode ser mais que um interesse passageiro.