Quando as milhas deixam de ser vantagem e começam a custar caro
A frase parece traduzir uma decisão financeira inteligente. Afinal, se o gasto já será feito, por que não receber algo em troca?
Pontos, milhas, cashback e outros benefícios transformaram o cartão de crédito em uma ferramenta capaz de oferecer vantagens reais.
O problema começa quando a lógica se inverte: em vez de receber benefícios por gastos que já seriam realizados, passamos a realizar gastos para receber benefícios.
É aí que a milha pode sair cara. O interesse dos brasileiros por esse mercado é significativo.
Levantamento da Serasa Experian mostrou que mais de 21 milhões de brasileiros resgatam milhas e que Geração X e Millennials representam, juntas, 69,6% desse público.
Veja também
Outro estudo da instituição identificou 17,9 milhões de brasileiros com perfil viajante em 2026, dos quais oito em cada dez demonstram afinidade com o resgate de milhas.
Nada disso significa que programas de fidelidade sejam ruins.
Para quem mantém o orçamento organizado, concentra no cartão despesas que já seriam realizadas e paga integralmente a fatura, a recompensa pode representar um ganho adicional.
A pergunta decisiva é outra: eu faria esta compra se ela não gerasse pontos ou milhas?
Se a resposta for não, provavelmente não estamos diante de economia, mas de um incentivo ao consumo.
Quando a recompensa muda nosso comportamento
Imagine gastar R$ 1.000 a mais apenas para aproveitar uma promoção de pontuação turbinada.
Mesmo que essa compra produza R$ 50 ou R$ 100 em benefícios futuros, houve um desembolso muito maior para conquistar a recompensa.
Pesquisa publicada em 2026 no Journal of Banking & Finance ajuda a dimensionar esse risco.
Ao analisar uma campanha que oferecia apenas 1% de cashback, os pesquisadores verificaram aumento de 32% nos gastos dos participantes e de 8% em suas dívidas.
O efeito foi mais intenso entre consumidores com menor educação financeira e maior restrição de liquidez.
No Brasil, não há evidência suficiente para afirmar que a busca por milhas seja causa direta do endividamento. Mas o ambiente exige cautela.
A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da CNC, mostrou que 82% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida em agosto de 2026, enquanto 29,9% possuíam contas em atraso.
Dados divulgados pelo Banco Central também mostram um orçamento doméstico pressionado: o endividamento das famílias chegou a 49,8% da renda, e o comprometimento da renda com o serviço das dívidas alcançou 28,2%.
Nesse cenário, existe uma lembrança importante: limite do cartão não é renda.
Quem recebe R$ 5 mil e possui R$ 15 mil de limite não ganhou capacidade para consumir R$ 20 mil. O cartão apenas permite antecipar hoje uma renda que ainda será recebida amanhã.
Primeiro o orçamento, depois as milhas
A ordem saudável é simples: primeiro surge a necessidade de compra; depois verificamos se ela cabe no orçamento; em seguida escolhemos o meio de pagamento. A recompensa vem por último.
Antes de passar o cartão pensando nos pontos, vale responder quatro perguntas: eu faria essa compra sem a recompensa?
Veja também
O gasto já estava previsto? Tenho dinheiro para pagar integralmente a fatura? O benefício recebido supera anuidades, tarifas e outros custos?
Se alguma resposta for negativa, preservar o orçamento provavelmente vale mais do que aumentar o saldo de milhas.
A melhor recompensa é aquela recebida por uma despesa que já faria parte da sua vida, e não aquela que serviu de justificativa para gastar mais.
O desafio desta semana é simples: antes da próxima compra motivada por pontos, cashback ou milhas, imagine que o benefício não existe.
Se ainda assim a compra fizer sentido e couber no orçamento, aproveite a recompensa.
Caso contrário, talvez a economia esteja justamente em não passar o cartão.
Pensem nisso! Até a próxima. Ana Alves- @anima.consult
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.