Quando as milhas deixam de ser vantagem e começam a custar caro

Escrito por
Ana Alves animaconsultoria@yahoo.com.br
Legenda: No Brasil, não há como afirmar que a busca por milhas seja causa direta do endividamento, mas o ambiente exige cautela.
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A frase parece traduzir uma decisão financeira inteligente. Afinal, se o gasto já será feito, por que não receber algo em troca?

Pontos, milhas, cashback e outros benefícios transformaram o cartão de crédito em uma ferramenta capaz de oferecer vantagens reais. 

O problema começa quando a lógica se inverte: em vez de receber benefícios por gastos que já seriam realizados, passamos a realizar gastos para receber benefícios. 

É aí que a milha pode sair cara. O interesse dos brasileiros por esse mercado é significativo.

Levantamento da Serasa Experian mostrou que mais de 21 milhões de brasileiros resgatam milhas e que Geração X e Millennials representam, juntas, 69,6% desse público.

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Outro estudo da instituição identificou 17,9 milhões de brasileiros com perfil viajante em 2026, dos quais oito em cada dez demonstram afinidade com o resgate de milhas. 

Nada disso significa que programas de fidelidade sejam ruins.

Para quem mantém o orçamento organizado, concentra no cartão despesas que já seriam realizadas e paga integralmente a fatura, a recompensa pode representar um ganho adicional. 

A pergunta decisiva é outra: eu faria esta compra se ela não gerasse pontos ou milhas? 

Se a resposta for não, provavelmente não estamos diante de economia, mas de um incentivo ao consumo. 

Quando a recompensa muda nosso comportamento 

Imagine gastar R$ 1.000 a mais apenas para aproveitar uma promoção de pontuação turbinada.

Mesmo que essa compra produza R$ 50 ou R$ 100 em benefícios futuros, houve um desembolso muito maior para conquistar a recompensa. 

Pesquisa publicada em 2026 no Journal of Banking & Finance ajuda a dimensionar esse risco.

Ao analisar uma campanha que oferecia apenas 1% de cashback, os pesquisadores verificaram aumento de 32% nos gastos dos participantes e de 8% em suas dívidas.

O efeito foi mais intenso entre consumidores com menor educação financeira e maior restrição de liquidez. 

No Brasil, não há evidência suficiente para afirmar que a busca por milhas seja causa direta do endividamento. Mas o ambiente exige cautela.

A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da CNC, mostrou que 82% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida em agosto de 2026, enquanto 29,9% possuíam contas em atraso. 

Dados divulgados pelo Banco Central também mostram um orçamento doméstico pressionado: o endividamento das famílias chegou a 49,8% da renda, e o comprometimento da renda com o serviço das dívidas alcançou 28,2%. 

Nesse cenário, existe uma lembrança importante: limite do cartão não é renda. 

Quem recebe R$ 5 mil e possui R$ 15 mil de limite não ganhou capacidade para consumir R$ 20 mil. O cartão apenas permite antecipar hoje uma renda que ainda será recebida amanhã. 

Primeiro o orçamento, depois as milhas 

A ordem saudável é simples: primeiro surge a necessidade de compra; depois verificamos se ela cabe no orçamento; em seguida escolhemos o meio de pagamento. A recompensa vem por último. 

Antes de passar o cartão pensando nos pontos, vale responder quatro perguntas: eu faria essa compra sem a recompensa?

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O gasto já estava previsto? Tenho dinheiro para pagar integralmente a fatura? O benefício recebido supera anuidades, tarifas e outros custos? 

Se alguma resposta for negativa, preservar o orçamento provavelmente vale mais do que aumentar o saldo de milhas. 

A melhor recompensa é aquela recebida por uma despesa que já faria parte da sua vida, e não aquela que serviu de justificativa para gastar mais. 

O desafio desta semana é simples: antes da próxima compra motivada por pontos, cashback ou milhas, imagine que o benefício não existe.

Se ainda assim a compra fizer sentido e couber no orçamento, aproveite a recompensa. 

Caso contrário, talvez a economia esteja justamente em não passar o cartão. 

Pensem nisso! Até a próxima. Ana Alves- @anima.consult

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

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