Veja os principais pontos e plataformas gratuitas para virar a chave da educação financeira
A educação financeira, longe de ser apenas um conjunto de técnicas para que cada pessoa gaste melhor, é uma peça fundamental da vida econômica de um país.
No contexto brasileiro — e também no Estado do Ceará — ela tem um papel que ultrapassa a vida pessoal e influencia diretamente o desempenho econômico das famílias, das empresas e das políticas públicas.
Ainda assim, o Brasil ainda trata esse tema de forma insuficiente diante da sua importância real.
O que é educação financeira — e o que ela não é
Uma confusão comum é achar que educação financeira significa apenas aprender a “poupar mais” ou “gastar menos”.
A OCDE define educação financeira como uma combinação de conhecimento, habilidades, atitudes e comportamentos que permitem decisões financeiras informadas e o alcance do bem-estar financeiro.
Isso inclui:
- Entender restrições orçamentárias e custo de oportunidade;
- Compreender riscos e retorno associado a decisões financeiras;
- Planejar o uso do dinheiro ao longo do tempo, considerando objetivos de curto e longo prazo;
- Avaliar produtos financeiros e evitar armadilhas como crédito predatório;
- Ou seja, envolve compreensão profunda de conceitos e estrutura de tomadas de decisão — não apenas decorar uma fórmula ou aprender a “cortar gastos”.
Sugestões de links para aprender sobre Educação Financeira
1. Escola Virtual de Governo – Educação Financeira Pessoal
Curso gratuito promovido pelo Banco Central do Brasil e ENAP, com certificado. Ensina, de forma prática, como planejar seu dinheiro, poupar e usar crédito de forma responsável.
Indicado para iniciantes e qualquer pessoa interessada em melhorar o uso do dinheiro no dia a dia.
2. Aprende Brasil – Educação Financeira para Escolas
Plataforma com recursos pedagógicos focados no Ensino Fundamental. Apresenta uma jornada de aprendizado para estudantes, com atividades e materiais didáticos que ajudam a entender conceitos como orçamento, consumo consciente e tomada de decisões financeiras desde cedo.
3. Vida e Dinheiro (material oficial da Estratégia Nacional de Educação Financeira)
Portal do governo brasileiro que concentra materiais didáticos, cartilhas, vídeos e conteúdos explicativos sobre planejamento financeiro, consumo consciente, crédito e investimentos — tudo com linguagem acessível e em português.
4. FIPECq – Educação Financeira
Portal da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras com artigos, vídeos e dicas práticas, desde como organizar um orçamento até explicações sobre juros, inflação e investimentos básicos — ideal para quem quer aprender com exemplos reais e linguagem simples.
5. Educação de Pais do Brasil – Educação Financeira
Espaço voltado para famílias e educadores que explica o valor de ensinar finanças desde a infância, relacionando o uso consciente do dinheiro com valores como solidariedade, ética e bem-estar familiar. Útil para quem quer começar a aprender ou ensinar em casa.
A educação financeira no Brasil: um diagnóstico preocupante
A realidade brasileira em termos de educação financeira não é satisfatória. Dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que, em 2022, cerca de 45% dos estudantes brasileiros de 15 anos não atingiram um nível básico de proficiência em literacia financeira na avaliação PISA, enquanto a média nos países OCDE era de apenas 18%..
Isso significa que uma grande parcela dos jovens brasileiros não domina conceitos financeiros essenciais como orçamento, crédito, juros e decisões de consumo — competências que deveriam ser parte da formação básica para qualquer cidadão.
Esse baixo nível de conhecimento tem consequências objetivas na vida das pessoas.
No Brasil, quase metade das famílias está endividada, e muitos brasileiros tomam decisões financeiras sem compreender completamente os riscos envolvidos, como participar de jogos de apostas ou contrair dívidas com juros altos.
Nesse contexto, poupar, planejar o futuro ou mesmo fazer escolhas conscientes de consumo exigem mais do que vontade: exigem educação.
Por que a educação financeira não avança no Brasil
Percebemos que a educação financeira não é tratada como prioridade no Brasil por uma combinação de razões estruturais e históricas. Entre elas:
1. Currículo escolar já sobrecarregado — Inserir a educação financeira de maneira efetiva exigiria mudanças curriculares profundas e formação específica de professores.
2. Falta de formação docente adequada — Muitos educadores não estão preparados para ensinar o tema com profundidade e contexto realista.
3. Abordagem ainda superficial — Quando presente, a educação financeira muitas vezes se limita a tópicos isolados sem conexão com a vida cotidiana dos estudantes.
Esses desafios não são exclusivos do Brasil. Em diversos países, como o Reino Unido, a presença de educação financeira no currículo escolar é irregular, depende de recursos locais e enfrenta obstáculos como a falta de professores capacitados e tempo disponível.
Educação financeira vai além do indivíduo
É essencial reconhecer que educação financeira não é apenas uma ferramenta de consumo consciente. Ela tem implicações que reverberam na economia como um todo:
1. Redução do endividamento e do uso de crédito informal
Estudos indicam que maior letramento financeiro está associado a decisões menos impulsivas e menor probabilidade de recorrer a empréstimos informais ou formas de crédito com custos excessivos.
A educação financeira fornece às famílias ferramentas para entender melhor as implicações de contratos financeiros, o que reduz o risco de superendividamento e aumenta a resiliência em situações de crise.
2. Inclui a população no sistema financeiro formal
Populações com maior conhecimento financeiro tendem a participar mais de serviços financeiros formais, como contas bancárias, produtos de poupança e investimentos.
Isso fortalece a base de economia formal e facilita o acesso a crédito com melhores condições, aumentando a eficiência da economia.
3. Contribui para decisões públicas melhores
Cidadãos financeiramente educados tendem a compreender melhor temas macroeconômicos, como inflação, dívida pública e tributação, o que eleva o nível do debate público e melhora a qualidade das demandas por políticas públicas.
Quando uma sociedade entende como juros, inflação e orçamento funcionam, ela pode exigir decisões mais responsáveis das instituições e líderes políticos.
4. Fomenta empreendedorismo e inovação
Empreendedores com educação financeira estruturada são mais capazes de fazer planejamento de caixa, controlar custos, analisar investimentos e sustentar um negócio no longo prazo. Isso é fundamental para dinamizar economias locais e gerar empregos.
O Brasil já avançou, mas ainda falta muito
O Brasil reconheceu, na última década, a importância de educação financeira como política pública. A educação financeira foi incorporada como tema transversal na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o que significa que deve ser integrada em várias disciplinas do currículo escolar, como matemática e ciências sociais.
Além disso, programas como o Aprender Valor do Banco Central têm buscado apoiar professores e escolas com conteúdos e formação para efetivar o ensino.
Contudo, essa inclusão ainda enfrenta desafios: em muitos casos o conteúdo é tratado de forma pontual ou teórica, sem conexão prática com a realidade dos estudantes — e sem estrutura adequada de formação de professores e materiais didáticos adequados.
Educação financeira e desigualdade social
A educação financeira também está conectada com desigualdades sociais. Estudos em diversos contextos demonstram que pessoas de maior renda e formação tendem a ter maiores níveis de letramento financeiro, enquanto população de baixa renda e menor escolaridade muitas vezes carece de acesso a esse conhecimento — criando um ciclo no qual a falta de educação financeira reforça desigualdades.
No Brasil, incorporar educação financeira de forma eficaz nas escolas públicas pode ajudar a reduzir as desigualdades, oferecendo a todos os jovens, independentemente de sua origem socioeconômica, uma base sólida de conhecimento para decisões financeiras mais justas, responsáveis e sustentáveis.
Educação financeira como ferramenta de cidadania
Encarar a educação financeira como parte da formação cidadã significa ampliar sua visão além do orçamento doméstico. Trata-se de fortalecer a autonomia de cada indivíduo e, ao mesmo tempo, capacitar uma sociedade crítica e preparada para os desafios econômicos do século XXI.
Nesse sentido, educação financeira é tão essencial quanto habilidades de leitura, escrita e matemática, pois permite que cada cidadão participe plenamente de sua vida econômica — seja como consumidor, profissional ou empreendedor.
E o Carnaval ? Finanças também entram na folia
E por que trazer o Carnaval para essa reflexão? Porque em períodos de festa e celebração, como o Carnaval, as decisões financeiras se tornam palpáveis para qualquer pessoa.
Planejar os gastos com viagens, ingressos, alimentação, transportes, hospedagens e até lembranças exige exatamente aquilo que a educação financeira busca desenvolver: consciência de orçamento, comparação de custos, definição de prioridades e gestão do dinheiro ao longo do tempo.
Saber equilibrar o desejo de aproveitar a folia com a necessidade de manter equilíbrio financeiro no dia seguinte é um exercício direto das competências que a educação financeira pretende fortalecer.
Se encararmos o Carnaval como um laboratório prático para a vida financeira, fica claro que educação financeira não é um tema “chato” ou distante da realidade — ela está nas decisões que tomamos todos os dias, nas escolhas que fazemos e no futuro que construímos para nós mesmos e para a sociedade.
Portanto, Educação financeira no Brasil e no Ceará é muito mais do que aprender a economizar ou a fazer planilhas de gastos: é aprender a agir com autonomia, consciência e responsabilidade em uma economia complexa e dinâmica.
Está associada a decisões melhores para famílias, redução de endividamento, inclusão no sistema financeiro, fortalecimento da cidadania e maior resiliência frente às crises.
Para que isso se torne realidade de forma plena, é preciso superar desafios estruturais — fortalecer a formação de professores, desenvolver materiais adequados, integrar efetivamente o tema no currículo escolar, promover políticas públicas consistentes e, acima de tudo, reconhecer que educação financeira é um direito fundamental para o exercício pleno da cidadania no século XXI.
Esse reconhecimento é o primeiro passo para que mais brasileiros vivam com mais segurança, escolhas conscientes e um futuro financeiro mais sólido — carnaval ou não.
Que fique aqui o alerta para refletirmos sobre esta a realidade diária em nossas vidas e possamos decidir com cuidado sobre nossas escolhas.
Pensem nisso! Até a próxima.
Ana Alves- @anima.consult
Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.