Eletrodomésticos disparam e materiais de construção afundam no Ceará; veja números
O comércio varejista cearense cresceu 4,3% no acumulado do ano até abril de 2026, segundo dados recentes publicados pelo IBGE — e 3,8% no conceito de comércio varejista ampliado, que inclui veículos e materiais de construção.
Os números são positivos, mas escondem dois movimentos opostos que merecem atenção: de um lado, os eletrodomésticos vivem um dos melhores momentos da série histórica; de outro, os materiais de construção enfrentam a pior fase desde a recessão de 2016.
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ELETRODOMÉSTICOS: O EFEITO COPA JÁ COMEÇOU?
As vendas de eletrodomésticos no Ceará cresceram 20,8% em abril de 2026, na comparação com o mesmo mês do ano anterior. Foi o melhor desempenho entre todos os segmentos do varejo cearense no mês e o melhor abril para a categoria desde 2022 (+27,8%).
No acumulado do ano de 2026, o volume de vendas de eletrodomésticos avança 10,4%. Parte desse resultado pode ter relação com a Copa do Mundo de 2026, que acontecem nos meses de junho e julho nos Estados Unidos, México e Canadá.
Historicamente, os meses que antecedem o torneio impulsionam as vendas de TVs e eletrônicos. Em 2014, quando o Brasil sediou a Copa, as vendas de eletrodomésticos no Ceará cresceram 9,6% em abril e 20,1% em maio.
Em 2018, abril ficou em 8,1%. Já em 2022, com a Copa do Catar realizada entre novembro e dezembro, o efeito se somou ao 13º salário e as vendas avançaram 22,6% em novembro.
MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO: O PIOR ABRIL EM UMA DÉCADA
Na outra ponta, os materiais de construção registraram queda de 13,9% em abril, frente ao mesmo mês de 2025. É o pior resultado para o mês desde 2016 (-33,4%), quando o país vivia uma recessão profunda, desconsiderando o período da pandemia.
No acumulado do ano de 2026, o tombo chega a 10,4% — o espelho exato, com o sinal trocado, do avanço dos eletrodomésticos (+10,4%). A reversão na performance de vendas de material de construção impressiona.
Em maio de 2025, o segmento ainda acumulava alta de 14,2% no ano: são quase 25 pontos percentuais de diferença em menos de 12 meses.
Nos últimos 12 meses, as vendas foram negativas em nove deles, e o ponto de baixa mais profundo foi fevereiro de 2026, quando a queda chegou a 17,7% em um único mês.
O PARADOXO DOS JUROS
Fica uma pergunta incômoda: se os dois segmentos vendem bens duráveis e sensíveis ao crédito, por que um dispara e o outro despenca? A resposta está no “tamanho do cheque”, ou melhor, no tamanho da dívida, e também no horizonte da decisão.
Comprar uma TV ou uma geladeira é um gasto de tíquete menor, parcelável em poucas vezes e muitas vezes movido por reposição — ou por um gatilho pontual, como a Copa.
Reformar ou construir é uma decisão de valor muito mais alto, de prazo longo e fortemente dependente de financiamento e de confiança no futuro.
É justamente aí que a taxa Selic em patamar restritivo, e por consequência os juros elevados, mordem com mais força o orçamento das famílias. O comportamento oposto dos dois segmentos não é contradição: mostra que o aperto do crédito pesa mais onde o tíquete é maior e o prazo, mais longo.
COMO O CEARÁ SE POSICIONA NO NORDESTE?
No comércio varejista ampliado, o Ceará ocupa a 5ª posição entre os nove estados nordestinos. Veja o ranking completo, pela variação acumulada no ano até abril de 2026:
- Pernambuco: +9,4%
- Maranhão: +4,8%
- Bahia: +4,3%
- Rio Grande do Norte: +4,2%
- Ceará: +3,8%
- Sergipe: +2,4%
- Paraíba: +1,8%
- Alagoas: +0,9%
- Piauí: -2,1%
JUROS ALTOS LIMITAM O AVANÇO
A renda cresce e o emprego avança, mas o peso dos juros sobre as dívidas cobra seu preço no balcão e ajuda a explicar por que, num varejo que cresce na média, há quem comemore e quem amargue prejuízo ao mesmo tempo.
Grande abraço e até a próxima semana!
Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.