É vantajoso para uma cidade e seus habitantes sediar uma Olimpíada?

Abertura dos jogos olímpicos de Tóquio com vista da cidade
Legenda: Registro da cerimônia de abertura dos jogos olímpicos de Tóquio
Foto: Charly Triballe / AFP

Os Jogos Olímpicos Tóquio 2020 começaram. Isso mesmo, 2020! Como todos sabemos, com a pandemia da Covid-19, as Olimpíadas foram adiadas e inseridas no calendário esportivo deste ano. As próximas três edições, 2024, 2028 e 2032, têm suas sedes definidas; são, respectivamente, as cidades de Paris (França), Los Angeles (EUA) e Brisbane (Austrália). A grande pergunta debatida pela sociedade é a seguinte: sediar um megaevento esportivo como esse é vantajoso para uma cidade e para seus habitantes?

Para os brasileiros, de certo, ainda estão na memória os momentos dos jogos anteriores sediados na cidade do Rio de Janeiro em 2016. Na lembrança também estão os discursos que apontavam as supostas benesses em receber as disputas por medalhas: transformação nas infraestruturas urbanas, expansão de modais modernos de transporte, ampliação e melhorias em espaços públicos e de lazer, reestruturação da segurança pública, atração de investimentos privados, dinamização do mercado imobiliário e divulgação internacional do marketing urbano.

Passados cinco anos, no Rio de Janeiro, muitos objetivos ficaram pelo caminho. As Unidades de Polícia Pacificadora naufragaram e operações policiais como a do Jacarezinho demonstraram a ineficácia das estratégicas da polícia cidadã nas comunidades. Os corredores de ônibus expressos depredados e estações de linha de metrô inconclusas são, da mesma forma, rastros da incompetência da gestão desse processo.

Socialmente, os conflitos e a expulsão de comunidades, como a Vila Autódromo, exemplificam a insensibilidade com os menos assistidos e uma intenção radical em impor projetos de expansão urbana à custa dos mais pobres. O desuso das instalações esportivas, arenas e parque de competição, elevaram o custo de manutenção e o peso dessas infraestruturas no orçamento público.

Além de tudo isso, os Jogos Olímpicos demandam cada vez mais recursos financeiros. A preparação do Rio de Janeiro utilizou 41 bilhões de reais e Tóquio, algo próximo a 83 bilhões de reais. Em muitos países, as sociedades já entendem que esses custos são descabidos e não apresentam interesse em propor candidaturas. O número de concorrentes vem reduzindo.

Não à toa, quando Paris e Los Angeles se dispuseram para sediar 2024, o Comitê Olímpico Internacional aproveitou a oportunidade e já indicou a cidade americana para a edição posterior.

Desde Barcelona 1992, propagou-se um ideário de que os megaeventos representariam momento de melhoria nas cidades, uma verdadeira reestruturação urbana. Porém, isso não passa de conto fantasioso.

Na verdade, os governos citadinos têm utilizado esse evento para tocar projetos de renovação urbana em áreas específicas (zonas portuárias, por exemplo), o que é muito atraente para setores específicos da economia, sobretudo, o mercado imobiliário.

Ver os atletas em disputa, acompanhar as performances individuais e coletivas é sensacional. Sim, os Jogos são um grande espetáculo. Todavia, é preciso esclarecer a sociedade de que, de modo geral, a preparação para as Olímpiadas não resolve problemas estruturais das cidades e muito menos que as intervenções olímpicas executadas trazem benefícios diretos para a população.

Se hoje falamos de sustentabilidade, a realização dos próximos eventos deveria considerar a redução dos custos de realização, adaptando-se às infraestruturas já existentes nas cidades sede. Dessa forma, as sociedades e seus governantes tendem a entender que a cidade adequada para as competições esportivas será, ao mesmo tempo, aquela ideal para seus cidadãos.

Tomara que, daqui pra frente, para transformar nossas cidades, não careçamos utilizar álibis olímpicos ou outros quaisquer.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.