URGENTE! A Selic caiu de novo. E a sua vida, mudou?

Escrito por
Alberto Pompeu producaodiario@svm.com.br
(Atualizado às 19:01)
Legenda: É a quarta redução consecutiva, depois das decisões de março, abril e junho.
Foto: Nanci Santos Iglesias/Shutterstock

O Copom anunciou mais um corte de 0,25 ponto percentual. A taxa básica de juros deixa os 14,25% e passa a 14% ao ano. É a quarta redução consecutiva, depois das decisões de março, abril e junho.

Se você leu essa manchete e sentiu exatamente nada, eu entendo. Um quarto de ponto percentual não muda o preço do pão, não paga a conta de luz e não aparece no extrato de ninguém no dia seguinte. Mas antes de fechar essa aba e rolar para a próxima notícia, eu queria pedir três minutos do seu tempo. Porque essa notícia diz muito mais sobre o seu dinheiro do que a maioria das pessoas percebe.

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O número é pequeno, o patamar não é

Comecemos pelo tamanho real do número. Mesmo caindo pela quarta vez seguida, o Brasil segue com um dos maiores juros reais do planeta. Juro real é o que sobra depois de descontada a inflação, e é a única conta que interessa de verdade. 

Na última decisão, com a Selic em 14,25%, o país liderou o ranking mundial elaborado pela MoneYou em parceria com a Lev Intelligence, com uma taxa real perto de 9,7% ao ano, à frente de Rússia, Turquia e México. Com 14%, esse número recua um pouco. Continua absurdamente alto para os padrões do mundo.

Traduzindo para a linguagem que interessa: estamos vivendo, neste exato momento, um dos períodos mais generosos da história recente para quem guarda dinheiro no Brasil. E um dos mais cruéis para quem deve.

O sinal que nunca chega

Agora vem a parte que me incomoda. Eu escrevo sobre investimentos há anos, dou aulas para milhares de pessoas, e a frase que mais escuto não é uma dúvida técnica. É uma promessa adiada. "Professor, ano que vem eu começo." "Quando a Selic estabilizar, eu entro." "Quando eu quitar o carro, aí sim."

A maioria das pessoas que diz que vai começar a investir nunca começa. Não por falta de dinheiro, e nem por falta de informação, que hoje está toda de graça na internet. É por outra coisa: falta de gatilho. A pessoa espera um sinal claro do universo dizendo "é agora". Esse sinal nunca vem, porque o mundo nunca fica organizado. Sempre haverá uma eleição, uma guerra no Oriente Médio pressionando o petróleo, um El Niño ameaçando a safra, uma nova tarifa de importação mexendo com o câmbio. Faz parte. O cenário perfeito é um lugar que não existe no mapa.

Enquanto isso, o tempo, que é o único ingrediente que ninguém consegue comprar depois, vai passando.

Deixe eu dar um exemplo que dói. A caderneta de poupança, quando a Selic está acima de 8,5% ao ano, rende 0,5% ao mês mais a TR. Dá algo em torno de 6,2% ao ano. A projeção de inflação para 2026, no último Boletim Focus, está em 5,03%. Faça a conta de cabeça: o dinheiro parado na poupança está, na prática, andando de lado. Não é opinião minha, é aritmética. E ainda assim a poupança segue como o destino mais popular do dinheiro do brasileiro.

O corte de agora também não resolve o outro lado da moeda. Uma queda de 0,25 ponto na taxa básica não derruba o juro do rotativo do cartão, que continua acima de 50% ao ano, nem o do cheque especial. Quem espera o Banco Central resolver uma dívida cara vai esperar sentado. Trocar dívida cara por dívida barata, ou simplesmente quitá-la, costuma render mais do que praticamente qualquer aplicação disponível. É o passo zero, antes de qualquer carteira.

O que muda na prática

E o que muda, de fato, para quem já investe ou está prestes a começar? Muda o equilíbrio entre os tipos de título. Quando o mercado passa a acreditar em uma sequência de cortes, os papéis prefixados e os atrelados à inflação tendem a se valorizar, enquanto as aplicações pós-fixadas, que acompanham a Selic no dia a dia, seguem rendendo bem, só que um pouquinho menos a cada corte. Isso não é recomendação de compra nem de venda, e cada pessoa tem uma realidade, um prazo e uma tolerância a risco diferentes. É apenas o mecanismo. Entender o mecanismo é o que separa quem decide de quem é decidido.

A verdade é que a Selic a 14% não é o assunto. O assunto é você.

Se essa notícia te encontrou sem nenhum real investido, ela é só mais uma manchete de economia que vai ser esquecida até sexta-feira. Se ela te encontrou com uma carteira montada, por menor que seja, ela é informação que muda decisões. A mesma notícia, dois efeitos completamente opostos, e a diferença entre um e outro não é sorte nem salário. É ter começado.

Provérbios 21:5 diz que os planos do diligente tendem à abundância, mas todo apressado caminha para a pobreza. Diligente não é o mais inteligente da sala. É o que faz de novo, no mês seguinte, aquilo que fez neste mês.

O Copom se reúne outra vez em setembro. A taxa vai subir, cair ou ficar parada, e sinceramente eu não sei qual das três. Ninguém sabe, por mais confiante que apareça na televisão. O que eu sei é que, entre hoje e lá, vão se passar quarenta e cinco dias. São quarenta e cinco dias que vão passar de qualquer jeito, com ou sem a sua decisão.

A sua aposentadoria não vai ser construída pela Selic. Vai ser construída pela sua constância.

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

 
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