O tarifaço não vai quebrar o seu bolso. A pressa, sim.
Escrevo esta coluna com o Brasil inteiro esperando um anúncio que deve sair de Washington a qualquer momento: uma tarifa de 25% sobre os nossos produtos.
O mercado, esse não esperou. Nessa quarta-feira, o Ibovespa perdeu os 176 mil pontos e trabalhava perto dos 175,5 mil, o dólar rondava os R$ 5,07, e os juros futuros subiam.
Tem um detalhe nisso que quase ninguém comentou: as bolsas lá fora estavam no azul. A gente caiu sozinho.
Eu sei muito bem o que uma manchete dessas provoca em quem lê jornal de manhã com o dinheiro do mês guardado na conta.
Provoca vontade de fazer alguma coisa. Qualquer coisa. E é justamente aí que nasce o prejuízo de verdade. Deixa eu explicar os motivos.
O mercado não reage ao fato. Ele reage à surpresa.
Essa tarifa não caiu do céu hoje. Ela vem sendo desenhada desde julho do ano passado, quando os americanos abriram uma investigação comercial contra o Brasil com base na Seção 301 da lei de comércio deles.
Faz um ano que o mercado convive com esse risco. Boa parte dele já está no preço.
O que ainda não está no preço é a lista de exceções. É ali que mora o jogo. Uma tarifa de 25% sobre tudo é uma coisa. Uma tarifa de 25% com metade da pauta de fora é outra completamente diferente.
A Confederação Nacional da Indústria calcula que a medida pode alcançar cerca de 4,1 mil produtos, algo perto de US$ 15 bilhões em exportações. Só que a lista final ainda não existe.
Ou seja: o número que vai sair no anúncio importa menos do que o que vem depois dele. E quem vende no dia do anúncio está vendendo antes de saber o que comprou.
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O que aconteceu da última vez que a gente se assustou
Volta comigo menos de um ano. Julho de 2025, susto anterior, tarifa anunciada de 50%. A bolsa caiu, o dólar disparou, o noticiário sugeria que o Brasil ia parar.
Quer saber o que aconteceu depois?
O Ibovespa fechou 2025 com alta de mais de 30% e renovando recordes. Em 20 de fevereiro deste ano, bateu 190.534 pontos, o maior patamar da história da bolsa brasileira.
Na sexta-feira passada, com um dado de inflação melhor que o esperado, o índice subiu quase 3% em um único pregão.
Quem vendeu tudo no susto de 2025 não perdeu dinheiro por causa da tarifa. Perdeu por causa do medo. E ficou de fora da maior alta da bolsa em muitos anos.
Isso não significa que tarifa seja irrelevante. É relevante, e é aqui do lado que ela dói mais.
Aqui no Ceará a conta é diferente
Enquanto o Brasil manda cerca de 12% das exportações para os Estados Unidos, o Ceará manda mais da metade. É o estado brasileiro com a maior dependência relativa daquele mercado, e a maior parte disso sai pelo Pecém.
Mais de três quartos do que a gente vende aos americanos é aço semimanufaturado. Aí tem uma boa notícia técnica que vale conhecer: aço, alumínio e cobre já estão sob outra regra americana, a Seção 232, e por isso tendem a ficar fora dessa nova cobrança, ainda que continuem enfrentando as barreiras que já existem.
O problema está em outro lugar. Calçados e pescados não apareceram na minuta das exceções. E são exatamente as duas cadeias que empregam gente aqui.
O Ceará é o segundo maior exportador de calçados do país, e nos quatro primeiros meses de 2026 a receita do setor já tinha recuado 27,3%. Na pesca, o mercado americano responde por quase toda a nossa venda de lagosta, peixe e camarão.
Em 2025, depois das tarifas, o BNDES identificou queda de 53% nas exportações brasileiras de pescados e crustáceos para os Estados Unidos.
Fábrica de calçado no interior não é planilha. É emprego de gente que eu conheço, na cidade onde eu cresci e nas vizinhas.
Do outro lado, castanha de caju, café, frutas tropicais e carne bovina aparecem entre os itens preservados nas minutas. Isso não é pouca coisa para o nosso agro.
E na sua carteira, o que isso muda
Vou ser direto, e já aviso: nada do que eu escrever aqui é recomendação de investimento. É leitura de cenário, para você decidir com a sua cabeça.
Primeiro: a bolsa não cai por igual. O Ibovespa é feito de banco, petróleo, mineração e empresa que vive do consumo daqui dentro. Quem exporta manufaturado e não tem fábrica lá fora sente na veia.
Já algumas das nossas grandes companhias de carne e de aço produzem dentro dos Estados Unidos, o que amortece o golpe. O que vem é dispersão, não catástrofe.
Segundo: o canal que realmente transmite o susto para a sua vida não é a bolsa. É o câmbio. Menos dólar entrando no país significa dólar mais caro, e dólar mais caro significa gasolina, remédio, trigo e insumo mais caros.
Some a isso o petróleo Brent perto de US$ 85 por causa das tensões no Estreito de Ormuz e o efeito do El Niño na comida, e já tem casa projetando a inflação de 2026 em 5,1%.
Terceiro, e esse é o que mais me preocupa: os juros. A Selic está em 14,25% desde junho, e o Banco Central se reúne de novo em 4 e 5 de agosto. O mercado vinha apostando em mais um corte. Real mais fraco estreita essa janela.
Traduzindo para o dia a dia: a sua parcela do carro, o seu limite do cartão e o rendimento da sua reserva estão todos amarrados nessa decisão.
Repare no que acabei de descrever. Quem tem dinheiro parado na poupança acha que está fora dessa história porque não tem ação nenhuma. Não está. Está exposto do jeito pior, que é sem escolher.
O que fazer com isso hoje
Nada às pressas. Uma tarifa anunciada é uma coisa. O impacto econômico dela é outra, e leva trimestres para aparecer em resultado de empresa. Ninguém precisa resolver a vida financeira até o fim do jornal nacional.
O que faz sentido é o trabalho chato de sempre: saber o que você tem, saber quanto disso depende do mercado americano, saber quanto disso você precisa daqui a seis meses e quanto pode ficar quieto por dez anos.
Diversificação não é palavra bonita de consultor. É a diferença entre levar um susto e levar um prejuízo.
Eu costumo abrir minhas aulas com Provérbios 21:5: "Os pensamentos do diligente tendem só para a abundância, porém os de todo apressado tão somente para a pobreza."
Esse versículo tem quase três mil anos e descreve o pregão de hoje melhor do que qualquer relatório que eu li nesta semana.
A tarifa é decidida lá fora. O que vai acontecer com o seu dinheiro é decidido aqui dentro, na sua casa, com a sua cabeça fria.
Alberto Pompeu escreve sobre investimentos e educação financeira. As análises desta coluna têm caráter informativo e não constituem recomendação de investimento.
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.