Ibovespa bate 160 mil pontos: essa festa é sua?

Escrito por
Alberto Pompeu producaodiario@svm.com.br
Legenda: O principal índice da B3 rompeu a barreira dos 160 mil pontos impulsionado pelo apetite global por risco e expectativas relacionadas às decisões de juros no Brasil e nos Estados Unidos.
Foto: Miguel Schincario AFP.

Enquanto a bolsa bate máximas históricas com valorização de 33% no ano, entenda se essa festa também é sua - ou se você está apenas assistindo pela janela. Nesta terça-feira, 2 de dezembro, a bolsa brasileira fez história. O Ibovespa ultrapassou pela primeira vez os 160 mil pontos, acumulando valorização impressionante de 33% em 2025.

Enquanto isso, seu José, porteiro em Fortaleza, perguntou-me: "Alberto, essa tal de bolsa batendo recorde... isso é bom pra mim?" A resposta sincera? Depende. E é exatamente sobre isso que precisamos conversar hoje.

O principal índice da B3 rompeu a barreira dos 160 mil pontos impulsionado pelo apetite global por risco e expectativas relacionadas às decisões de juros no Brasil e nos Estados Unidos. No acumulado do ano, a valorização já ultrapassa os 33%, segundo dados da própria bolsa.

Para colocar em perspectiva: quem investiu R$ 10 mil em janeiro teria hoje cerca de R$ 13.300. Um desempenho que deixa a poupança e até o Tesouro Selic no chinelo.

O que explica esse resultado?

Três fatores explicam esse momento de euforia. Primeiro, a entrada massiva de capital estrangeiro, cerca de R$ 30 bilhões em 2025, voltando a olhar para o Brasil depois de fugir em 2024.

Veja também

Segundo, a expectativa de que o Federal Reserve, banco central americano, corte juros na próxima semana, o que torna mercados emergentes como o nosso mais atrativos. Terceiro, sinais de que o Banco Central brasileiro pode começar a reduzir nossa Selic em 2026, após mantê-la em 15% ao ano.

O otimismo é tanto que grandes bancos revisaram suas projeções. A XP Investimentos elevou a estimativa de 170 mil para 185 mil pontos ao fim de 2026. O Bank of America projeta 180 mil pontos.

Já o Morgan Stanley, mais ousado, aposta em 200 mil pontos. Historicamente, os 12 meses após o primeiro corte da Selic tendem a ser muito positivos para a bolsa, com ganhos médios superiores a 20%.

Quem ganha?

Mas aqui está a verdade inconveniente que precisa ser dita: apenas 12,5% dos investidores na bolsa são pessoas físicas brasileiras. A festa está sendo comandada por estrangeiros, que representam 58% do mercado.

Enquanto isso, o trabalhador nordestino médio continua sem reserva de emergência, endividado no rotativo do cartão a juros de 450% ao ano, sem nunca ter aberto uma conta em corretora.

O recorde da bolsa pode ser notícia de primeira página, mas não muda em nada a vida de quem não está no jogo. É como comemorar o preço do caviar subindo quando você ainda está aprendendo a comprar arroz e feijão sem pesar no bolso.

E mesmo para quem já investe, é preciso cautela. Recorde histórico raramente é sinal de compra, muitas vezes é momento de realizar lucros e rebalancear carteira. Quando todo mundo está eufórico, o investidor inteligente fica atento. A história dos mercados está cheia de recordes que precederam quedas bruscas.

Então, o que o nordestino comum deve fazer com essa informação? Se você já investe em ações, celebre seus ganhos com responsabilidade, mas não se deixe levar pela ganância. Revise seu portfólio, realize lucros onde faz sentido, mantenha sua estratégia de longo prazo.

Vale a pena investir na bolsa agora?

Se você ainda não investe, não caia na tentação de entrar na bolsa no auge da euforia. Antes de sonhar com ações, construa sua base: quite as dívidas caras, especialmente cartão de crédito e cheque especial.

Monte uma reserva de emergência equivalente a seis meses de despesas em aplicações seguras como Tesouro Selic ou CDB de liquidez diária. Aprenda sobre renda fixa antes de se aventurar na renda variável.

E para todos, independente do nível de conhecimento, vale a máxima que todo investidor precisa tatuar na memória: rentabilidade passada não garante rentabilidade futura. O Ibovespa pode estar em 160 mil pontos hoje e em 140 mil daqui a três meses. Ninguém tem bola de cristal.

A bolsa em recorde é fascinante de acompanhar e pode, sim, fazer parte de uma estratégia inteligente de construção de patrimônio no longo prazo. Mas patrimônio real se constrói com fundamentos sólidos, disciplina e educação financeira, nunca com euforia ou medo de ficar de fora da festa.

A verdadeira riqueza não está em surfar ondas especulativas, mas em ter bases tão sólidas que você durma tranquilo, independente de a bolsa estar em alta ou em baixa.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor. 

Assuntos Relacionados