As faces visíveis do desaparecimento: reflexões sobre a ausência e a solidão

Escrito por
Adalberto Barreto producaodiario@svm.com.br
(Atualizado às 16:21)
Legenda: O sentimento de estar só não depende do ambiente externo — pode se manifestar entre amigos, durante conversas e na multidão.
Foto: KieferPix/Shutterstock.

Nem todo desaparecimento começa na delegacia. Às vezes, começa no espelho. No “depois eu vejo”. No “deixa pra lá”. Começa quando eu me retiro por dentro, mesmo sentado à mesa entre amigos. Eu também desapareço assim: sumo em pequenas concessões. Desligo o celular. Some-se das redes. Digo sim, quando deveria dizer não. 

Mudo o caminho. Ou fico — e calo. Quando o presente incomoda, sumir vira promessa de alívio e refúgio. Porque, antes do sumiço do corpo, existe o treino do sumiço. Ele aparece em desistências miúdas. Do convite. Da conversa. Do pedido de ajuda. Do próprio nome. E, quando ninguém repara — nem eu —, o desaparecimento aprende a ser discreto, imperceptível. Quase educado. Até o dia em que vira ruptura.

Eu também desapareço, quando me torno ausência. 

Desapareço quando aceito calado menos do que preciso. Quando silencio o que mexe comigo. Quando me torno indiferente aos maus-tratos que recebo, como se fosse normal. Eu desapareço quando me isolo em bolhas de desinformação, só para não encarar a dura realidade. Quando não faço perguntas aos outros — nem a mim mesmo. Quando finjo que não vejo, que não ouvi, que não estou ali. Às vezes, eu rio do que me fere para não chorar, para esconder meu sofrimento. Às vezes, viro produtividade para merecer e receber afeto. Às vezes, meu “tô bem” é só uma senha para encerrar o assunto e me desconectar.

Esses são os micros desaparecimentos: ninguém registra, mas eles somam. E, somados, pesam e como pesam.

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Tem dia que o fardo não cabe no corpo. Não é só falta de sono, de ânimo ou de apetite. É excesso de responsabilidade. É a vida pedindo firmeza quando a gente já não aguenta mais. O cansaço chega e muda a escala das coisas. O simples vira impossível. E desaparecer parece um jeito torto de suspender a cobrança. Nem que seja por um minuto ou até dias.

E tem o sumiço que nasce do não reconhecimento. Você faz. Entrega. Sustenta. E ninguém vê. Mas tem uma hora em que o olhar de fora vira voz de dentro. Eu começo a a agir como invisível. Aí vem a pergunta venenosa: “Se eu sumir, muda o quê?” Quando a resposta parece “nada”, eu acredito. E acreditar nisso é um tipo de desaparecimento.

Mesmo cercada de pessoas, a ausência de conexão verdadeira faz com que a solidão se instale. O sentimento de estar só não depende do ambiente externo — pode se manifestar entre amigos, durante conversas e na multidão.

Assim, a solidão não exige isolamento físico; ela se revela no distanciamento interno, no esvaziamento das trocas e na sensação de invisibilidade diante dos outros e de si mesmo. Ela se infiltra nas pequenas concessões do dia a dia, nos momentos em que deixamos de nos expressar, nos calamos diante do incômodo ou fingimos que está tudo bem.

O feed das redes sociais pode estar cheio de atualizações, o ônibus pode estar lotado e o quarto pode estar perfeitamente arrumado, mas ainda assim, a solidão permanece. Ela é silenciosa, mas não precisa do silêncio. Está presente mesmo onde há barulho, música, movimento e companhia. Ela se alimenta de ausências.

Dessa forma, o desaparecimento começa antes mesmo de ser notado pelos outros. Ele se dá na forma de afastamento emocional, na perda do contato consigo e com o mundo. A solidão, então, torna-se não apenas um sintoma, mas também um aviso de que algo precisa ser olhado com mais cuidado e acolhimento. 

Solidão é quando ninguém alcança você — e quando você já não se alcança. Ela convence devagar: “é você por você”. E, quando convence, sumir parece lógico. Só que lógica, nesse terreno, é armadilha. Tem horas em que minhas palavras não servem. Eu explico e viro rótulo. Ponho limite e viro “difícil”. Eu peço ajuda e ouço “exagero”. Aí eu me calo. E o silêncio, que parecia proteção, vira cárcere. Porque, se não me entendem quando estou aqui, eu começo a imaginar que só vão entender quando eu faltar. E isso dói muitas vezes. 

Há sumiços que são tentativas de proteção. Quando eu não consigo me proteger, eu fujo. Às vezes, de uma relação que machuca. Às vezes, de um medo que só cresce. Às vezes, de uma vergonha que me expõe. A pessoa não quer, necessariamente, deixar de existir. Quer deixar de ser alcançada. Desaparecer vira esconderijo — e o esconderijo vira hábito.

E existe o motivo mais triste, porque é pergunta disfarçada de sumiço: quando testo o valor que tenho. Eu desapareço para ver se sou lembrado. Para medir cuidado. Para confirmar que existo no outro. Não é conversa fiada. É falta de chão. Quando a gente se sente descartável, o desaparecimento vira um bilhete sem papel. Um pedido de prova. Uma última tentativa de pertencimento. 

Nada disso acontece por acaso. A cultura do desempenho cobra pressa e chama isso de virtude. A rotina transforma gente em função, em tarefeiro. E, quando a realidade aperta, a fuga vem com boa embalagem: distração infinita, certeza fácil, mentira confortável. Onde moro, às vezes, não dá espaço para expressar a minha dor. A amizade vira agenda. Quando o cuidado vira artigo raro, o desaparecimento deixa de ser exceção. Vira sintoma. E sintoma é aviso. É uma mensagem velada. É pedido de ajuda. 

A pergunta, então, muda: quais são os sinais que aparecem antes do sumiço? A gente repara. No isolamento repentino. Na irritação desproporcional. Na frase que parece brincadeira, mas tem fundo de verdade. E a gente também se repara. Porque posso estar sumindo sem perceber. Escutar sem julgamento já é uma forma de presença. E, quando há risco, violência ou sofrimento intenso, buscar ajuda profissional e os serviços de proteção e saúde é cuidado. Não é fraqueza. É direção. 

E o que posso fazer para assumir meu lugar, ser presença? 

Primeiro, parar de me tratar como rascunho. Gente que pede desculpa por existir vai ficando transparente, invisível. Assumir o próprio lugar começa em coisas pequenas: dizer “eu não concordo” sem gritar. Dizer “isso me feriu” sem pedir licença para sentir. Trocar o “tanto faz” por um “eu prefiro”. Presença é verbo. É posicionamento. E exige determinação. 

Dar visibilidade à minha existência não é fazer barulho. É fazer contato. É voltar a fazer perguntas — aos outros e a mim. “O que eu quero, de verdade?” “Do que eu tenho medo?” “O que eu estou tolerando por hábito?” É sair das bolhas que me dão certeza pronta e me devolvem vazio. É assumir o próprio lugar e se fazer presente. Isso exige coragem para escolher conversas difíceis, em vez de buscar refúgio em distrações que apenas adiam questões importantes. Encarar o diálogo verdadeiro, mesmo que desconfortável, é uma forma de romper o ciclo do desaparecimento silencioso, permitindo que sentimentos e necessidades sejam expressos sem máscara ou medo. 

Mais do que desempenhar papéis, é fundamental construir ao menos um vínculo onde seja possível ser inteiro, sem precisar atuar ou corresponder a expectativas alheias. Dessa maneira, presença se torna verbo, ação concreta em direção ao autocuidado e ao cuidado mútuo. 

Também é aprender a me proteger sem me apagar. Limite não é grosseria. É higiene. E cuidado não é prêmio por bom comportamento: é direito. Quando eu não dou conta sozinho, eu não preciso desaparecer para provar nada. Eu posso pedir ajuda. Posso procurar acolhimento, terapia, serviços de saúde, redes de proteção. Posso aceitar companhia e inclusive a minha.  

Alguém ver a minha dor não me diminui. Me localiza e me ajuda a me encontrar. 

Enfim, desaparecer não é só sumir. É interromper uma presença que doía. Que era pesada. Que era invisível. Ou ameaçada. É um gesto que fala quando a voz falhou. E é aqui que o tema deixa de ser “sobre o outro”. Porque eu também desapareço. Um pouco, toda vez que abandono meus sonhos, que renuncio meus desejos.

Assumir meu lugar é o movimento contrário: voltar para mim e para o mundo. Com limites. Com perguntas. Com gente. Se quisermos menos ausências, precisamos de mais presença. Menos indiferença, mais reconhecimento. Menos pressa, mais tempo. Menos rótulo, mais escuta. Para não virar uma alma penada em vida — aquela que está, mas não está, não é reconhecida. E para ter coragem de perguntar, em voz alta e por dentro: em que momento comecei a desaparecer em vida?

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.