Intolerância no convívio com as diferenças: quando a ausência de diálogo se transforma em violência

Reaprender a conviver com as diferenças exige um esforço coletivo.

Escrito por
Adalberto Barreto producaodiario@svm.com.br
Legenda: O sofrimento psíquico, quando silenciado ou desassistido, pode levar a pessoa a assumir para si o papel de juiz e executor.
Foto: Oleg Elkov/Shutterstock.

A história da humanidade é, em grande medida, a história de nossos conflitos. Conflitos familiares, sociais, políticos, religiosos e culturais atravessam os séculos e revelam uma dificuldade persistente: conviver com o diferente.

Quando o diálogo fracassa, quando a escuta é substituída pela imposição da própria vontade, a intolerância encontra terreno fértil — e a violência passa a ser tratada como solução. O resultado é conhecido e trágico: guerras, vidas interrompidas, laços rompidos, sociedades feridas.  

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O colapso em espaços de convivência

O exemplo mais doloroso dessa intolerância manifesta-se no espaço que deveria ser o mais protegido: o lar. Quando um marido mata sua esposa por não conseguir dialogar, chamamos de feminicídio. O termo jurídico, necessário para nomear o crime, não dá conta do drama humano que ele encerra. Trata-se do colapso da convivência, da negação radical da alteridade, da transformação do outro em inimigo.

O agressor, incapaz de reconhecer limites e recorrer às instituições e às redes de cuidado, assume para si o papel de juiz e executor, impondo sua própria “justiça”.

Em outra dimensão igualmente trágica, um filho mata o pai na tentativa de proteger a mãe ameaçada. O que deveria ser um núcleo de cuidado e proteção transforma-se em palco de violência extrema. Chamamos esse ato de parricídio, mas por trás do nome está a falência de um sistema de relações marcado pelo medo, pelo silêncio e pela ausência de mediação.

Quando não há espaços seguros de escuta, acompanhamento psicológico, apoio comunitário e intervenção institucional, a violência tende a ocupar o lugar do cuidado que faltou.

Há ainda uma forma de violência menos visível, mas não menos devastadora: o suicídio. Nesse caso, o próprio indivíduo decide retirar a própria vida por não mais conseguir conviver consigo mesmo e com o meio em que vive. Aqui, a intolerância não se dirige a um outro externo, mas volta-se contra o próprio sujeito. Trata-se da ruptura radical do diálogo interior, do esgotamento emocional, da sensação de não pertencimento e da ausência — real ou percebida — de redes de cuidado e apoio.

O sofrimento psíquico, quando silenciado ou desassistido, pode levar a pessoa a assumir para si o papel de juiz e executor, negando a própria vida como se não houvesse alternativas possíveis. Falar de intolerância, portanto, é também falar de saúde mental. É reconhecer que sociedades que naturalizam o ódio, a exclusão, o silêncio e a desqualificação do sofrimento criam ambientes adoecedores.

A dificuldade de conviver com as diferenças — internas e externas — pode gerar angústia profunda, sentimentos de inadequação, desamparo e desesperança. Sem escuta, sem acolhimento e sem políticas públicas eficazes de saúde mental, o sofrimento tende a se agravar e, em casos extremos, a se transformar em autodestruição.

Esse mesmo padrão se repete em escala ainda maior quando olhamos para o cenário internacional. Quando um governante decide eliminar o líder de outro país, declara-se uma guerra. Milhares de vidas são destruídas em nome de interesses políticos, econômicos ou ideológicos. A lógica é a mesma: a negação do diálogo, o desprezo pelas instituições multilaterais, a imposição da força como critério de verdade.

Assim como no plano individual, também no plano coletivo a ausência de mediação e de cuidado produz adoecimento social e destruição. 

O que essas diferentes formas de violência têm em comum?  

Todas partem da mesma raiz: a intolerância diante da diferença e a crença de que a força pode substituir o diálogo. Seja no feminicídio, no parricídio, no suicídio ou na guerra, alguém se arroga o direito de decidir sobre a vida — própria ou alheia — colocando-se acima da lei, da ética e da justiça. Ao impor a própria justiça, o indivíduo ou o grupo torna-se juiz em causa própria — e esse é sempre o caminho mais curto para a barbárie.

Mas há uma pergunta ainda mais profunda que precisa ser feita: na lógica de eliminar o outro que me contradiz, o que estou eliminando, de fato? Ao eliminar o outro — ou a si mesmo — eliminam-se também possibilidades de crescimento pessoal, de amadurecimento emocional, de revisão de certezas e de elaboração do sofrimento. Elimina-se a chance de encontrar saídas mais criativas para os conflitos, de enriquecer o repertório de possibilidades, de transformar a dor em aprendizado.

O diferente, seja ele externo ou interno, não é apenas um obstáculo; muitas vezes é a condição para que nos tornemos mais conscientes, mais resilientes e mais humanos. Um ponto de vista é apenas a vista de um ponto. E os outros pontos de vistas não seriam enriquecedores considerá-los?

Quando a diferença é percebida como ameaça, perde-se a oportunidade de aprendizado que ela carrega. O conflito, que poderia ser um espaço fértil de transformação e cuidado, converte-se em campo de aniquilação. A violência, nesse sentido, não elimina apenas o outro: empobrece quem a pratica, fragiliza a saúde mental coletiva, reduz o mundo a uma única perspectiva e fecha todas as portas para o novo.

Em sociedades que se pretendem civilizadas, os conflitos não deveriam ser resolvidos pela violência, mas mediados por instituições legítimas e por redes de cuidado. O Estado de Direito nasce exatamente para isso: para impedir que a vingança pessoal ou o desespero individual substituam a justiça coletiva. Tribunais, leis, políticas públicas, serviços de saúde mental, assistência social e organismos internacionais existem para oferecer caminhos de mediação, negociação, acolhimento e reparação. Quando essas estruturas são desacreditadas ou negligenciadas, abre-se espaço para o caos, para o adoecimento social e para o lucro/sucesso desenfreado de quem o promove. 

No contexto brasileiro, essa reflexão é urgente

Vivemos tempos de polarização intensa, em que divergências políticas, religiosas e culturais frequentemente se transformam em hostilidade. O espaço do diálogo vem sendo ocupado por discursos de ódio, desinformação e silenciamento. Esse ambiente não apenas empobrece o debate público, como também adoece indivíduos e comunidades, tornando a violência — inclusive contra si mesmo — uma possibilidade cada vez mais naturalizada.

Reaprender a conviver com as diferenças exige um esforço coletivo. Passa pela educação para o diálogo, pela escuta empática, pelo fortalecimento das instituições e, de modo central, pelo investimento consistente em saúde mental e redes de cuidado.

Passa também por uma responsabilidade individual: reconhecer que ninguém detém sozinho a verdade absoluta e que sempre existem alternativas à eliminação — do outro ou de si mesmo. Não se trata de negar os conflitos — eles são inevitáveis. Trata-se de escolher como lidamos com eles.

A violência pode até parecer uma solução rápida, mas seu legado é sempre a destruição. O cuidado, o diálogo e a escuta, embora mais lentos e exigentes, são os únicos caminhos capazes de preservar vidas, relações e possibilidades. Talvez este seja, de fato, o momento de relembrar a história. Não para repetir seus erros, mas para reler as mensagens daqueles que nos alertaram sobre os riscos da intolerância. Sem valores universais, sem respeito mútuo, sem justiça — e sem cuidado com a saúde mental — a convivência entre pessoas, grupos, nações e até consigo mesmo torna-se impossível.

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.