Tudo começou aos 12 anos, com a venda de fotos por R$ 1 no intervalo entre as aulas do Colégio Militar de Fortaleza. Anos depois, Diana Teixeira, hoje com 21 anos, começou a fazer os próprios cadernos, que também chamaram atenção dos colegas. 

Hoje em dia, são mais de 10 mil itens produzidos por mês e encomendas para todo o Brasil. Entre os produtos da 'Artes por Dianinha', estão cadernos, planners, agendas e adesivos.

O diferencial do carro-chefe, o caderno reposicionável, é a personalização de capas e uma variedade de refis para acrescentar folhas e utilizar conforme a necessidade profissional ou escolar.

“Eu fazia meus cadernos porque os modelos que eu gostava não eram fáceis de encontrar aqui em Fortaleza. E aí os alunos começaram a se interessar e quando eu percebi, estava cheia de encomendas. Eu estudava de tarde e virava a noite com minha mãe para fazer os cadernos”, lembra Diana.

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Legenda: Diana Teixeira começou a fazer os próprios cadernos na escola e hoje é líder do próprio negócio.
Foto: Fabiane de Paula.

A fabricação era manual, no quarto da jovem em sua casa no Conjunto Ceará. Em 2020, com a pandemia e a interrupção das aulas presenciais, a jovem de 15 anos perdeu a fonte de renda e decidiu vender pela internet. 

“A loja está prestes a completar seis anos e o sentimento principal é de orgulho. Nosso maior público hoje não está no Ceará, mas sim em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. São cerca de 3.500 pedidos por mês, o que representa mais de 10 mil produtos feitos mensalmente”, exalta.

Para atender a demanda, o negócio exigiu espaço próprio e tem uma equipe de dez funcionários. A evolução permitiu que a jovem mudasse a vida de sua família, principalmente da mãe, que sempre a auxiliou na produção dos cadernos, e do pai, que foi seu primeiro entregador do delivery.

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Legenda: Fruto de sonho de infância de Diana Teixeira, a Cadernos AD agora opera com dez funcionários.
Foto: Fabiane de Paula.

“Hoje não é mais só sobre mim. São pessoas e famílias que dependem desse trabalho. Para o futuro, meu maior plano é estruturar cada vez mais a empresa, profissionalizar os processos, fortalecer a marca e alcançar ainda mais pessoas, mas sempre com cuidado para crescer de uma forma organizada e com um propósito”, aponta. 

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NÚMERO DE EMPRESAS ABERTAS POR JOVENS SALTA NO CEARÁ

Assim como Diana, outros milhares têm dado uma cara mais jovem ao empreendedorismo no Ceará. O número de empresas constituídas por sócios entre 16 e 30 anos, da chamada Geração Z, saltou 116% de 2022 a 2025, segundo dados da Junta Comercial do Estado do Ceará (Jucec).

Ao longo de 2025, 56.974 pessoas nessa faixa etária passaram a empreender. O intervalo de idade com maior representatividade na constituição de sociedades é de 31 a 45 anos, mas a diferença vem diminuindo nos últimos anos.

Os negócios se enquadram principalmente nos segmentos de comércio varejista de roupas, promoção de vendas, serviços de cabeleireiro de manicure, comércio varejista em geral e restaurantes e similares.

O crescente protagonismo dos jovens na atividade empreendedora está associado à ampliação da cultura digital e à percepção de que o emprego formal não é a única trajetória possível, avalia Monica Arruda, articuladora da Unidade de Educação Empreendedora do Sebrae/CE.

“As gerações mais jovens buscam projetos de vida pessoal que permitam maior autonomia, realização e propósito para a sociedade por meio de negócios. O empreendedorismo em negócios inovadores e de impacto atraem esse perfil de público”, comenta.

Esses negócios são mais propícios a incorporar tecnologias e se adaptar às mudanças de consumo, segundo a especialista. Como consequência, a economia local retém jovens talentos, evitando a evasão para centros maiores.

Monica Arruda pondera que todo novo negócio precisa ser baseado em um plano de negócios realista para prosperar. 

“Não se pode subestimar os controles financeiros, projeções de custos, lucro e ponto de equilíbrio, para não comprometer a sustentabilidade da empresa. Testar produtos e serviços antes de um lançamento amplo permite entender se há demanda real e ajustar propostas de valor antes de escalar e investir”, acrescenta.

MUDANÇA DE VIDA PELO EMPREENDEDORISMO

Seguir uma carreira tradicional nunca esteve nos planos de Pedro Edley, de Trairi, na Região Metropolitana de Fortaleza. Aos 26 anos, o jovem tem três empresas e se orgulha de empregar 45 funcionários

“Eu me sinto uma pessoa muito realizada de saber que muitas pessoas sobrevivem dos negócios que a gente administra. Ver pessoas realizando sonhos com o fruto do meu trabalho é uma forma de felicidade”, aponta.

Foto de Pedro Edley, jovem empreendedor que fundou fábrica de rações e loja de autopeças em Trairi, no Ceará.
Legenda: Empreendedor de Trairi, Pedro Edley tem três empresas e emprega 45 funcionários.
Foto: Reprodução: Samuel Costa Melo.

O jovem deu o pontapé na primeira empresa, uma loja de rações para gado, aos 17 anos. Ele se valeu dos conhecimentos da formação Jovens Empreendedores Primeiros Passos, concedida pelo Sebrae em escolas públicas. Mais de 400 mil alunos foram impactados pelo programa até 2025. 

Para investir, Pedro economizou a bolsa que recebia no estágio realizado durante o ensino profissionalizante. O negócio se consolidou e agora abastece fazendas de toda a região do Vale do Curu. 

“Eu ia só economizando e reinvestindo o que a gente apurava na loja. Aí a gente conseguiu uma crescente muito boa, ampliamos e, depois de três anos, surgiu a oportunidade de criar uma autopeças. Passou mais um ano, e coloquei a minha própria fábrica de rações, para revender na loja”, conta. 

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Legenda: Aos 26 anos, Pedro Edley tem fábrica de rações que abastece diversos municípios do Vale do Curu.
Foto: Reprodução/Samuel Costa Melo.

Além da Brasil Rações e da Brasil Auto Peças, Pedro Edley está investindo em uma indústria de beneficiamento de coco. A inspiração para todas as iniciativas vem de sua mãe, que vendia roupas em casa desde quando ele era criança e agora se tornou sua 'sócia majoritária'.

“Eu ficava vendendo bombom do lado de fora para quem ia comprar roupa com ela. Hoje, ela abandonou tudo e trabalha comigo. Já comprei casa, carro, moto para ela. Conquistei e quero conquistar cada vez mais, devagarzinho porque sei que a gente está bem no começo”, avalia. 

REFLEXOS NO MERCADO DE TRABALHO

A busca por autonomia e novas formas de trabalho, seja com a consolidação da própria empresa ou por meio de plataformas, tem transformado o mercado de trabalho, avalia João Mário de França, professor do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e pesquisador do FGV Ibre.

“Claramente o movimento ocorre no sentido de menor rigidez que a contratação via carteira assinada impõe para modelos mais híbridos, como o empreendedorismo”, comenta.

A geração Z tem movimentado as redes sociais nos últimos anos com críticas ao emprego CLT. A tendência, entretanto, levanta preocupações em relação à estrutura previdenciária, já que ocorre uma diminuição do número de contribuintes. 

“Mesmo no caso mais positivo, de microempreendedor individual (MEI) com pagamento em dia para a previdência, a alíquota de contribuição é muito reduzida. Isso gera um déficit estrutural já que a receita gerada dessas contribuições cobre muito pouco dos benefícios concedidos”, aponta.

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Apesar do debate crescente sobre transformações nas relações de trabalho, o emprego formal também vem crescendo na faixa etária jovem.

A faixa etária lidera em número de admissões em 2025, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged). João Maria França avalia que os dois fenômenos não são contraditórios. 

“A elevação significativa de empresas com sócios com idade até 30 anos reflete a tendência desse público por mais protagonismo e independência. Já o aumento de empregos CLT, por outro lado, tem a ver com a recuperação da economia pós-pandemia impulsionada pela expansão do consumo e de investimentos”, aponta. 

NEGÓCIOS QUE PROSPERAM A PARTIR DO EMPREGO FORMAL

Em um contexto de mercado de trabalho aquecido, é comum que os jovens utilizem a renda e a segurança do trabalho formal para iniciar os próprios negócios, comenta Delania Santos, mestra em administração e colunista do Diário do Nordeste.

“Muitos empreendem a partir de uma posição menos defensiva. Alguns mantêm o emprego enquanto testam o negócio, outros usam o empreendedorismo como forma de acelerar aprendizado e renda. Ou seja, não é um movimento de fuga do emprego, mas de ampliação das possibilidades de inserção profissional”, aponta. 

Os profissionais se tornam mais adaptáveis e estratégicos e, mesmo quando os negócios não prosperam, retornam ao mercado mais maduros. 

Na avaliação da especialista, o mercado de trabalho colhe bons frutos do empreendedorismo precoce, mas tem o desafio de absorver profissionais com trajetórias não lineares.

“Parte desses jovens pode pular etapas importantes de formação, como aprender a operar dentro de estruturas maiores, lidar com processos, governança e liderança madura. E quando o empreendedorismo nasce sem preparo ou acompanhamento, pode gerar frustração precoce e instabilidade financeira”, pondera. 

A experiência de emprego CLT em uma grande marca de óculos de sol deu a bagagem necessária para Ketlen Rossas alavancar a própria empresa - a loja online Tanto Faz.

Parte da venda das camisetas, bolsas e acessórios é destinada para apoio de animais abandonados e em situação de risco. Esse foi o propósito da jovem ao iniciar o negócio em 2013, aos treze anos. 

“Minha mãe sempre foi muito ativa à causa animal e quando eu estava na sétima série ela resgatou o Sorte, que foi o primeiro animal que a gente ajudou. Comecei a vender itens, na época a loja se chamava 'Oh My God'. Foi um processo lento, porque imagina uma jovem de 13 anos que não sabia sobre CNPJ, financiamento bancário ou incentivos do governo”, lembra. 

Aos 18 anos, Ketlen precisou conciliar o empreendimento com o trabalho CLT, pois o negócio não rendia o suficiente para ajudar no orçamento familiar. Em 2020, em meio a uma internação por Covid-19, a jovem se capacitou para aprimorar o negócio.

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Legenda: Loja Tanto Faz nasceu de vontade de Ketlen Rossas, ainda adolescente, de salvar animais abandonados.
Foto: Reprodução/Loja Tanto Faz.

As vendas cresceram de forma digital e em Fortaleza, exigindo um espaço físico. Hoje, a Tanto Faz opera apenas com e-commerce, com produção private label - os itens são fabricados de forma terceirizada. 

Além dos frutos financeiros para a família, Ketlen formou autoridade como empreendedora e passou a atuar na área de comunicação para marcas

“Para minha realidade, tudo é grandioso. Eu tenho consciência de que não venho de uma família rica. A Tanto Faz começou no meu quarto em caixas, depois ela foi para lojas compartilhadas, lojas colaborativas, depois para uma loja própria em um shopping, depois para os eventos grandes da cidade, como os shows, feiras criativas”, comemora. 

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