Ceará desperdiça mais de 800 toneladas de caju e deixa de faturar milhões todos os anos
O Ceará é o maior produtor de castanha de caju do Brasil. No entanto, durante esse processo, cerca de 90% dos pedúnculos produzidos, a parte carnuda da fruta, são desperdiçados no Estado. Só em 2024, aproximadamente 825 toneladas (T) de pseudofruto (pedúnculo) foram perdidas no Ceará. A informação é do chefe-geral da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Agroindústria Tropical, Gustavo Saavedra.
Agricultores e pesquisadores cearenses já provaram que o não aproveitamento integral do caju está longe de ser causado pela falta do que fazer com a fruta. Pelo contrário: além de ser usada em doces, refrigerantes, cajuínas e compotas, a “carne” da fruta tem ganhado protagonismo em pratos veganos, como alternativa para recheios de origem animal.
Tanto a castanha quanto o pedúnculo já extrapolaram, inclusive, a bolha gastronômica, sendo usados como matéria-prima para cosméticos e na siderurgia.
Além disso, se o caju fosse integralmente aproveitado de maneira industrial no Estado, o valor arrecadado com a produção da fruta dobraria. É o que defende o presidente do Conselho Regional de Economia Ceará (Corecon-CE), Wandemberg Almeida.
Nesse cenário, o questionamento fica claro: se da ponta da castanha até a base do pedúnculo tudo pode ser aproveitado, por que, então, o Ceará insiste em limitar economicamente um dos maiores tesouros naturais do Estado?
Isso significaria uma renda de aproximadamente R$ 9,4 milhões, uma vez que o valor da produção arrecadada no Estado em 2024 foi cerca de R$ 4,7 milhões. Os dados são da pesquisa Produção Agrícola Municipal (PAM).
O Diário do Nordeste tentou contato com a Secretaria do Desenvolvimento Agrário do Ceará (SDA) para esclarecer o contexto de desperdício no uso do caju no Estado, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria. Em caso de novidades, o texto será atualizado.
O desafio do desperdício da carne do caju
Segundo Gustavo Saavedra, cada quilograma (kg) de castanha de caju produzida é equivalente a cerca de 9 kg de pseudofruto (pedúnculo).
Considerando essa estimativa e os dados do levantamento Produção Agrícola Municipal (PAM), realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em 2024, o volume de pedúnculo produzido no Ceará foi em torno de 917.379 T.
Ou seja, se 90% desse total foi desperdiçado, significa dizer que 825.641,1 T de pseudofruto foi para o lixo.
“A gente tem muitas árvores gigantes de caju de 5, 6 metros de altura. E o que acontece quando o caju cai e bate no chão? Ele tem dois dias de sobrevida. A castanha dura muito mais tempo que isso. Ela, mesmo mal conservada, vai durar dois anos”
E por que isso acontece? Conforme explica Gustavo, a causa do desperdício está no tipo de cajueiro plantado na maior parte do Estado.
De acordo com o chefe-geral da Embrapa Agroindústria Tropical, cerca de 80% da área reservada para o plantio de caju no Ceará ainda abriga cajueiros que não permitem a colheita adequada do pseudofruto.
Cajueiro anão: uma solução mais produtiva e cara
Na visão do especialista, o primeiro passo para evitar o desperdício é adotar um sistema organizado com o uso de clones de mudas de cajueiro anão, árvores de estatura reduzida desenvolvidas pela Embrapa que permitem maior aproveitamento do pedúnculo.
“O cajueiro anão é uma planta de 2 metros, 2,5 metros de altura. Você pode pegar (o caju) com a mão, colocar num recipiente e você vai aproveitar”, indica.
A partir da aplicação desse modelo, Gustavo garante que o aproveitamento do pseudofruto pode subir de 10% para 70% no Ceará.
A vantagem do cajueiro anão vai além da baixa estatura. Por serem plantas selecionadas dentro de um processo de melhoramento genético, são mais resistentes a doenças, pragas e à falta de água, gerando castanhas e pseudofrutos de maior qualidade.
Além disso, no Ceará, a média de produção de um cajueiro anão é de 600 kg por hectare/ano, enquanto a de um cajueiro gigante é de, no máximo, 200 kg, relata Gustavo.
Nesse sentido, apesar dos cajueiros gigantes representarem 80% da área plantada no Estado, esse tipo de planta só corresponde à 65% da produção cearense. Por outro lado, os 20% de área plantada com cajueiros anões produzem cerca de 35% do caju de todo o Ceará.
Essa produtividade poderia ser ainda maior, sugere Gustavo. Segundo ele, o potencial do cajueiro anão, quando cultivado de maneira adequada, é de, no mínimo, 1.200 kg por hectare/ano.
Substituir cajueiros gigantes por cajueiros anões no Ceará custaria R$ 2,4 bilhões
A estimativa de Gustavo é que a troca das plantas custaria em torno de R$ 11.000 por hectare. Considerando os dados da Produção Agrícola Municipal (PAM), isso levaria a um investimento total de, aproximadamente, R$ 2,4 bilhões.
"Trata-se de um programa de grande escala, até porque envolve agricultores familiares, que normalmente são descapitalizados. Se você simplesmente diz ‘vamos começar a arrancar tudo aqui’, como esse produtor vai sobreviver? Essa reconversão produtiva precisa ser tratada como um programa de Estado. E será um processo de longo prazo, que deve durar de uma a duas décadas”, reflete o especialista.
Já de acordo com dados da SDA, em 2024, a produção total da fruta no Ceará foi de 102.321 T, sendo 59.346 T de caju precoce (58%) e 42.975 T de caju comum (42%). O Diário do Nordeste procurou a pasta para questionar esses números, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria. O espaço permanece aberto para novas respostas.
A versatilidade do caju como fonte de renda no semiárido cearense
Na cozinha, Alexandra Lopes prova que o caju vai muito além da castanha. Da fruta nascem doces, biscoitos, geleias, compotas, cajuína, mel e até fibra de carne.
Aos 41 anos e residente de Chorozinho, no interior do Ceará, ela relata que a cajucultura representa a renda principal da casa, em uma propriedade de 16 hectares totalmente voltada para a plantação da fruta, onde Alexandra trabalha junto ao marido e do filho.
A demanda pelos subprodutos é alta, considera a agricultora. Com a comercialização dos itens, a família arrecada entre R$ 20.000 a R$ 30.000 por ano.
De acordo com ela, o crescimento do mercado vegano tem impulsionado a busca pelos produtos fabricados a partir do pseudofruto, com destaque para a fibra desidratada retirada da carne do pedúnculo. O ingrediente é comumente utilizado como alternativa a recheios de origem animal, aparecendo em pratos como empadas, pizza e lasanha.
O sucesso só não é maior devido a um detalhe: o armazenamento do pseudofruto. Alexandra explica que a colheita anual do terreno é de cerca de 20 T de caju por safra. Com apenas um freezer de 540 litros, a produtora consegue armazenar adequadamente cerca de 500 kg de pedúnculo, o que representa apenas 2,5% de sua produção total.
Mesmo assim, as propriedades nutritivas do caju não são desperdiçadas na fazenda. Segundo ela, os pedúnculos não utilizados são empregados como fertilizante, junto a esterco na plantação da horta, além de serem adicionados na ração dos animais.
“A gente trabalha outras culturas, mas a gente não consegue ter a estabilidade de produzir o ano todo porque nos falta água. E a cajucultura vai me proporcionar o período de safra e, na entressafra, o beneficiamento da matéria prima, tanto da castanha quanto do pedúnculo. Para minha família, a cajucultura nos proporciona condição de trabalho e estabilidade no campo”
Entre dificuldades e superações, para Alexandra, a cajucultura se tornou uma oportunidade de morar e trabalhar no semiárido.
Com 93% da produção ligada à agricultura familiar, cadeia do caju amplia oportunidades no interior
Na perspectiva do economista Wandemberg Almeida, atualmente, a cajucultura não é só uma fonte de renda, mas um segmento de inclusão social.
Com 93% dos estabelecimentos de produção de caju no Ceará administrados pela agricultura familiar, o presidente do Corecon-CE acredita que a atividade movimenta a economia rural do semiárido e gera empregos diretos e indiretos, tanto na colheita quanto no processamento da fruta e na fabricação de produtos.
“É um produto que pode ser utilizado de diversas formas e gera inclusão produtiva muito forte, com diversas pessoas de diferentes idades no mercado. O setor vem crescendo e ganhando mercado internacional. Tem muita coisa para se explorar”
Sendo parte de uma cadeia, o aproveitamento integral do caju também beneficia todo o ciclo produtivo da fruta, desde o campo e a indústria até a comercialização final.
Para a economista e professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Michele Aracaty, o potencial da cajucultura pode alavancar o surgimento de pequenos negócios e indústrias, principalmente no interior do Estado, onde a produção é concentrada. Dessa forma, surge uma economia mais descentralizada, gerando emprego e renda onde é mais necessário.
Outro benefício do combate ao desperdício da fruta apontado por Gustavo Saavedra é o aumento de novos postos de trabalho com carteira assinada, o que contribui para a arrecadação tributária do Estado.
“Você está gerando renda para agricultores e empregos industriais e de logística. É onde o Estado começa a recolher impostos. E isso se reverte para a população. Se você produz caju e joga fora, você está jogando dinheiro fora”, reforça.
O caju fora da gastronomia
Além do uso gastronômico, o caju é insumo para a indústria de cosméticos devido à sua composição rica em vitamina C, além dos complexos A e B, cálcio, ferro e potássio.
No mercado brasileiro, esse potencial foi explorado por uma multinacional francesa que, desde 2016, mantém uma linha baseada no pseudofruto. Atualmente, o segmento representa uma parcela relevante do faturamento da companhia.
Dados da empresa indicam que a linha Caju registrou expansão de 47% em 2024, totalizando 9% de sua participação total de mercado (market share).
Segundo Farid Saadi, coordenador de Pesquisa e Desenvolvimento da L’Occitane au Brésil, o extrato concentrado do alimento atua na preservação e estímulo de colágeno e elastina, proteínas essenciais para a estrutura e firmeza da pele.
No portfólio da marca, o sabonete líquido em óleo desta linha ocupa a terceira posição em volume de vendas, enquanto o creme hidratante firmador aparece em quarto lugar.
O trabalho é feito em parceria com a Cooperativa Potiguar de Agricultura e Desenvolvimento Rural Sustentável (Coopapi), sediada em Apodi, no Rio Grande do Norte. De acordo com Farid Saadi, a região se destaca pelos avanços tecnológicos e agroecológicos, permitindo a difusão de uma cajucultura sustentável.
Outro emprego do caju para além do uso como alimento foi encontrado por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC). A tecnologia utiliza o líquido da castanha de caju (LCC) na geração de aglomerantes para processos siderúrgicos, otimizando processos e reduzindo custos.
Além do retorno econômico para a empresa, o coordenador destaca que a comercialização de produtos do tipo beneficia famílias produtoras ao gerar um novo tipo de renda. Atualmente, cerca de 270 famílias agricultoras familiares integram a Coopapi.
A estratégia foi desenvolvida durante o doutorado de Leandro Miranda, sob orientação do professor Diego Lomonaco, do Departamento de Química Orgânica e Inorgânica, e recebeu a carta patente do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) em abril de 2025.
Combater o desperdício do pedúnculo é apenas o primeiro desafio
Sendo uma “fruta cheia de detalhes”, como salienta o chefe-geral da Embrapa Agroindústria Tropical, mesmo quando integralmente aproveitada, os desafios persistem.
O primeiro problema é o transporte: diferentemente de frutas como manga ou laranja, a locomoção do caju em longas distâncias se torna mais complexa devido à fragilidade da pele que envolve o pedúnculo, o que encurta a já reduzida vida útil de cerca de 20 dias da fruta.
É o que ocorre nas indústrias de suco e polpa de caju, principais consumidoras dos 10% dos pseudofrutos aproveitados no Ceará, aponta Gustavo.
Além disso, a baixa demanda no Ceará por esses produtos frente a outros tipos de suco e a ausência de uma organização forte no setor para que esses itens sejam adequadamente promovidos contribuem para que o número de pedúnculos aproveitados no Ceará continue baixo, reflete o especialista.
Nesse sentido, a introdução de novos subprodutos à base de caju no mercado cearense e nacional não depende apenas do combate ao desperdício da fruta, mas de investimentos em marketing, logística e de uma total reorganização da base produtiva.
É o que ressalta a economista Michele Aracaty. Na opinião da especialista em bioeconomia, a mudança só acontece a partir de políticas públicas voltadas para o setor.
Paralelo a isso, ela frisa a necessidade de aprimoramento em estradas, ferrovias e estratégias de distribuição e armazenamento da matéria-prima e subprodutos. Outros dois pontos fundamentais nesse processo, assegura Michele, são a valorização dos produtores que estão no início da cadeia produtiva e o olhar voltado não só para o mercado local, mas também nacional e internacional.
“A potencialidade da cajucultura é muito elevada no aspecto social e econômico. O que precisa mesmo é reestruturar essa cadeia produtiva. Se nós pudermos identificar um novo nicho de produto e novos mercados consumidores para esse produto, nós vamos ter muito mais aproveitamento”
A necessidade de investimentos no setor também é destacada por Wandemberg. “Está faltando mais envolvimento dos setores produtivos com os agricultores familiares, está faltando as instituições financeiras e os próprios órgãos ministeriais terem um olhar diferenciado para essa cadeia”, reitera.
Questionada sobre projetos da SDA que incentivem a cajucultura e o aproveitamento da fruta, a pasta informou que o "Projeto de Recuperação e Expansão da Cajucultura do Ceará foi lançado em 2007. Entre 2009 e 2017, foi utilizada a tecnologia de substituição de copa, permitindo a renovação de aproximadamente 32 mil hectares de áreas com cajueiros improdutivos".
Além disso, "em 2024/2025, foram ofertadas 408.600 unidades de mudas de caju, beneficiando 2.457 produtores em 48 municípios do Estado", completou a secretaria.