Risco de morte no trânsito de Fortaleza aumentou 80% na pandemia

Risco é atribuído por especialistas a comportamentos estimulados pelo “esvaziamento” da cidade, como dirigir em velocidade excessiva e avançar sinalização

Em 2020, 193 pessoas morreram no trânsito da Capital e 10,8 mil ficaram feridas, segundo o Anuário da Segurança Viária.
Legenda: Em 2020, 193 pessoas morreram no trânsito da Capital e 10,8 mil ficaram feridas, segundo o Anuário da Segurança Viária.
Foto: Fabiane de Paula

O risco de morte no trânsito de Fortaleza aumentou em 80% no segundo semestre de 2020, comparado ao mesmo período de 2019. O dado está na mais recente edição do Anuário da Segurança Viária da Capital, que registrou 193 vítimas fatais e 10,8 mil feridas ano passado.

Apesar de tanto o número de mortos quanto o de feridos no trânsito ter seguido a tendência de diminuição dos anos anteriores, o ritmo da redução, especialmente de vítimas fatais, caiu em 2020, enquanto que aumentaram as estatísticas de infração por velocidade excessiva e avanço de sinalização semafórica, segundo o documento.

Para Caio Torres, coordenador de segurança no trânsito na Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC), a adoção do comportamento de risco durante a pandemia de Covid-19 tem justificativas que estão diretamente ligadas às mudanças impostas pelo isolamento social.

Ele cita, por exemplo, que ruas esvaziadas estimulam o desenvolvimento de velocidade excessiva e que mudou o perfil do condutor que circula pela Cidade. “O isolamento tirou das ruas exatamente as pessoas que tornam o trânsito mais seguro”, afirmou, explicando que os condutores mais cautelosos são os que também tendem a obedecer mais às restrições sociais.

Renato Campestrini, especialista em trânsito, mobilidade e segurança, afirma que o problema é nacional. Segundo ele, além de Fortaleza, outras cidades do País também registraram aumento nas infrações em 2020 por excesso em mais de 50% dos limites de velocidade.

Em um artigo publicado ainda ano passado no instituto de pesquisa WRI Brasil, os especialistas Bruno Rizzon e Fernando Corrêa relataram que Porto Alegre e Goiânia registraram aumento de 47% e 79%, respectivamente, no número de infrações por excesso de velocidade em relação a 2019. 

Velocidade é o principal fator de risco nos acidentes de trânsito, e isso ajuda a explicar a diferença entre as reduções de ocorrências e de óbitos. Não se pode contar somente com a diminuição da exposição a partir da redução de fluxo de veículos nas ruas como estratégia para reduzir mortes”.
Bruno Rizzon e Fernando Corrêa
Analistas de mobilidade ativa e comunicação do WRI Brasil

Baixa fiscalização  

Além disso, assim como, também, em outras capitais, por algum tempo em 2020, especialmente no primeiro semestre, as operações de fiscalização da AMC em Fortaleza tiveram de diminuir devido às recomendações de distanciamento nas blitze, o que também pode ter dado ao condutor uma falsa sensação de impunidade que se estendeu ao longo do ano.

Conforme o anuário, o acumulado mensal de sinistros na Cidade — antes chamados erroneamente de “acidentes”, visto que são preveníveis — com vítimas (entre mortos e feridos) saltou de 522 em abril — o mais baixo do ano, no primeiro lockdown — para 1.078 em dezembro — o mais alto.

A gente voltou a patamares maiores do que antes do lockdown”.
Caio Torres
Coordenador de segurança no trânsito na AMC

Para Campestrini, além da diminuição das operações de fiscalização, pode ter influenciado no comportamento inadequado dos condutores, em nível nacional, a suspensão do envio da notificação da autuação. “Lamentamos, mas, ainda hoje, notamos que parte dos condutores somente adotam comportamentos seguros quando estão sendo fiscalizados”, opina.

Entregadores de delivery

Das 10,8 mil vítimas feridas no trânsito da Capital no primeiro ano da pandemia, 67,4% eram motociclistas. Eles representaram, também, a maior parcela (47,2%) das mortes registradas — em 2019, pedestres eram os que mais morriam (40,4%); motociclistas estavam em segundo lugar (37,9%). 

Torres atribui parte significativa disso ao aumento da circulação de entregadores de delivery, uma vez que o isolamento das pessoas em casa fez crescer a demanda do serviço. “Existe um comportamento bem agressivo deles [entregadores] por causa dos prazos [estipulados pelas empresas que intermediam o serviço]”, argumenta o técnico.

O Anuário da Segurança Viária de 2020 aponta que o 'boom' de demanda de serviços por delivery pode ter influenciado no aumento do risco de morte no trânsito da Capital.
Legenda: O Anuário da Segurança Viária de 2020 aponta que o 'boom' de demanda de serviços por delivery pode ter influenciado no aumento do risco de morte no trânsito da Capital.
Foto: Helene Santos

Nicolas Gonçalves Rocha, 23, trabalha no ramo desde 2019. Ele diz que, no início da pandemia, notou o trânsito “muito mais tranquilo”, mas observou alguns condutores — de carro e moto — excedendo velocidade. Muito porque as vias estavam esvaziadas, principalmente as expressas como a rodovia BR-116 e a avenida Almirante Henrique Sabóia, cita.

Em situações em que eu não via nenhum carro na minha frente, nada mesmo, eu me sentia mais seguro pra ir um pouco mais rápido, sim. Porque não tinha nada na minha frente, eu não teria que ficar desviando. Isso acaba sendo um risco porque, independentemente de ter alguma coisa ou não, quanto maior a velocidade, maiores os danos”.
Nicolas Gonçalves Rocha
Entregador de delivery

Consciente da hierarquia das responsabilidades no trânsito, Nicolas diz que muitos comportamentos inadequados cometidos nas vias são por falhas humanas, excesso de confiança e falta de empatia. “Pro trânsito ser melhor, acho que depende muito mais de quem tá lá do que de quem tá monitorando”, aposta.

Intervenções

Para diminuir o risco de morte no trânsito de Fortaleza na retomada das atividades econômicas e sociais e evitar retrocesso nas estatísticas de segurança viáriareconhecidas internacionalmente, a AMC deve ampliar a malha viária com limites de velocidade ajustados ao que recomenda a Organização Mundial da Saúde (OMS), que diz que vias urbanas não devem ultrapassar o limite de 50 quilômetros por hora (km/h). “É uma intervenção ainda um pouco antipática, mexe com o cotidiano, mas é a recomendada”, alega Caio Torres.

Apesar da “antipatia” da readequação dos limites de velocidade e da rejeição por parte dos condutores ao retorno das operações de fiscalização e, consequentemente, das multas por infrações, Renato Campestrini reforça que as medidas são necessárias para coibir comportamento de risco e estimular um trânsito mais seguro.

Os dados de aumento do risco de morte na casa de 80% são chocantes e a sociedade precisa ter consciência de que está em suas mãos reverter isso, principalmente para Fortaleza continuar sendo um exemplo para o País de local em que as ações em prol da segurança viária deram resultados positivos”.
Renato Campestrini
Especialista em trânsito, mobilidade e segurança

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