De naufrágio a balsa desgovernada, relembre acidentes no litoral do Ceará; veja imagens

Embarcações fora de rota já despertaram curiosidade, preocupação e fascínio entre cearenses.

Escrito por João Lima Neto joao.lima@svm.com.br
30 de Agosto de 2026 - 07:00
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Legenda: Barcaça passou por Fortaleza para manutenção. O destino final dela foi Trinidad e Tobago.
Foto: Silvana Tarelho/SVM/Cdoc/17 de janeiro de 2005.

A imagem de uma grande embarcação encalhada diante da praia costuma despertar curiosidade, mas, no Ceará, cenas assim já fazem parte da história do litoral há pelo menos 40 anos.

O encalhe da balsa FLU-IPÊ, que permaneceu por quase 28 horas em um espigão da Praia do Icaraí, em Caucaia, em julho deste ano, é o episódio mais recente de uma sequência de casos que levou navios e barcaças a ocuparem a paisagem do Estado de forma inesperada.

Nas últimas décadas, os cearenses já viram embarcações à deriva, vazamento de cargas perigosas e estruturas que permanecem encalhadas até hoje. Todas essas ocorrências ajudaram a construir uma espécie de "memória marítima" do Ceará.

No passado era o “boca a boca” que espalhava a novidade, pelo menos até a chegada dos primeiros celulares. Hoje, os smartphones registram imediatamente e fazem a cena ganhar as redes sociais. 

Esses diferentes eventos na costa cearense também serviram para melhorar a atuação da Marinha do Brasil. Ao Diário do Nordeste, a Capitania dos Portos do Ceará (CPCE) declarou que "a experiência acumulada e a evolução dos recursos tecnológicos de comunicação e de monitoramento contribuíram para o aprimoramento da capacidade de acompanhamento e resposta a ocorrências”.

A corporação ressaltou ainda que ocasionou uma “maior integração entre a Autoridade Marítima e os demais órgãos envolvidos”.

Para entender como a segurança marítima evoluiu no litoral cearense, a reportagem selecionou situações que repercutiram em diferentes décadas.

Mara Hope: o navio que virou símbolo da orla

Se existe uma embarcação capaz de despertar lembranças imediatas nos fortalezenses, é o Mara Hope. O antigo petroleiro chegou ao Ceará de maneira inesperada em março de 1985, quando era rebocado para Taiwan, onde seria desmontado.

Antes de seguir viagem, o navio aguardava o conserto do rebocador Progress II na Indústria Naval do Ceará (Inace), na Praia de Iracema. Na noite de 21 de março, porém, uma tempestade rompeu as amarras e deixou o Mara Hope à deriva.

A embarcação acabou encalhando em um banco de areia a cerca de 700 metros da costa. Nas semanas seguintes, foram feitas várias tentativas de reflutuação, mas nenhuma conseguiu retirar o navio do local. Com o casco danificado, o petroleiro foi abandonado.

O tempo fez o restante. Vieram os saques, incêndios, desmontes parciais e a corrosão provocada pela maresia. Ainda assim, o Mara Hope permaneceu no mesmo lugar e continua sendo acompanhado pela Capitania dos Portos.

Ao longo dos anos, porém, os “restos mortais” da embarcação também ganharam outra função — viraram atração para os passeios turísticos realizados pela orla da Capital. O Mara Hope já serviu de cenário para desafios e aventuras, como a de um influenciador que chegou a passar uma noite na estrutura.

Barcaça no Pirambu virou atração improvisada

Barcaça passou por Fortaleza para manutenção. O destino final dela foi Trinidad e Tobago.
Legenda: Barcaça passou por Fortaleza para manutenção. O destino final dela foi Trinidad e Tobago.
Foto: Silvana Tarelho/SVM/Cdoc/17 de janeiro de 2005.

Em janeiro de 2005, foi a vez de uma barcaça de aproximadamente 85 metros chamar a atenção de quem passava pelo bairro Pirambu. A estrutura havia saído do Rio de Janeiro com destino a Fortaleza, onde passaria por manutenção antes de seguir para Trinidad e Tobago.

Durante a madrugada, porém, os fortes ventos romperam o cabo que a ligava ao rebocador Trinidad de Tobago.

Sem o controle do reboque, a barcaça ficou à deriva até atingir um espigão da Praia do Pirambu. A presença de uma estrutura daquele tamanho tão perto da areia rapidamente mudou a rotina da região.

Centenas de moradores foram até o local para observar a embarcação. Algumas pessoas chegaram a caminhar pelas pedras para conseguir vê-la mais de perto, enquanto crianças brincavam nas proximidades. Alguns adolescentes até arriscaram pular da barcaça.

A movimentação precisou ser controlada pela Capitania dos Portos e pela Polícia Militar, que isolaram parte da área por causa dos riscos. As primeiras tentativas de retirada também não avançaram, já que a maré baixa dificultava a aproximação dos rebocadores.

A solução veio cerca de uma semana depois. Com dois rebocadores e o auxílio da maré cheia, a barcaça finalmente foi desencalhada e retirada da praia.

Vazamento de navio no Porto do Mucuripe

O cargueiro francês Toulon chegou a Fortaleza com um vazamento em um tambor que armazenava Diisocianato de Tolueno (TDI).
Legenda: O cargueiro francês Toulon chegou a Fortaleza com um vazamento em um tambor que armazenava Diisocianato de Tolueno (TDI).
Foto: Eduardo Queiroz/SVM/Cedoc/19 de junho de 1986.

Nem todo episódio envolvendo grandes embarcações, porém, despertou apenas curiosidade. Em junho de 1986, o Porto do Mucuripe foi palco de uma situação que colocou autoridades e especialistas em alerta.

O cargueiro francês Toulon chegou a Fortaleza com um vazamento em um tambor que armazenava Diisocianato de Tolueno (TDI), produto utilizado para fabricar espumas flexíveis de poliuretano, que entram na composição de colchões, estofados de móveis e assentos automotivos 

Segundo reportagem da época, o navio transportava cerca de 100 toneladas da substância. Antes de chegar ao Ceará, havia informações de que a embarcação teria tentado atracar nos portos do Rio de Janeiro, Santos e Recife, sem sucesso.

Outro agravante era a reação do TDI com a água, capaz de produzir gases extremamente perigosos para o sistema respiratório. Na avaliação dos especialistas ouvidos naquele momento, o Ceará também não dispunha de estrutura adequada para enfrentar um eventual acidente envolvendo uma carga química daquela natureza.

A empresa responsável pela representação do cargueiro afirmou que apenas um tambor de 200 quilos apresentava vazamento e considerou a situação controlada.

Especialistas da Universidade Federal do Ceará (UFC), entretanto, chamaram atenção para os riscos. Os professores José Arizona Cordeiro Leite e Verbena Lima Vales alertaram que o produto poderia provocar irritações graves, reações alérgicas respiratórias, edema pulmonar e até morte em casos de exposição elevada.

Balsa no Icaraí atraiu multidão

População se reuniu em cima do espigão e na faixa de areia para observar a estrutura flutuante.
Legenda: População se reuniu em cima do espigão e na faixa de areia para observar a estrutura flutuante.
Foto: Fabiane de Paula.

Foi nesse contexto de lembranças que o caso mais recente se encaixou. A balsa FLU-IPÊ era rebocada pela embarcação SN Caraíva quando os cabos se romperam durante a madrugada. Sem propulsão própria, a estrutura ficou à deriva até atingir um dos espigões da Praia do Icaraí, em Caucaia.

Por quase 28 horas, a balsa permaneceu no local. A cena, incomum para quem está acostumado a ver embarcações seguindo pelo mar, rapidamente despertou a curiosidade de moradores, surfistas e turistas, que acompanharam de perto a operação de retirada.

Apesar da movimentação, o episódio terminou sem vítimas e sem consequências ambientais. Segundo a Marinha, a balsa estava vazia, não houve derramamento de óleo e a remoção foi concluída sem impactos ambientais.

Assim como ocorreu no caso da barcaça do Pirambu, a Capitania dos Portos instaurou um Inquérito Administrativo sobre Acidentes e Fatos da Navegação (IAFN) para apurar as circunstâncias do incidente.

No fim, o que atravessa cada um dos casos relatados até aqui é a molecagem do cearense diante do inesperado. 

Marinha faz alerta sobre cuidados no mar

Marinha do Brasil acompanha ocorrência na Praia do Icaraí.
Legenda: Marinha do Brasil acompanha ocorrência na Praia do Icaraí.
Foto: Fabiane de Paula/SVM.

Nos casos de encalhe ou de embarcações à deriva ao longo dos últimos anos, a CPCE avalia as condições de segurança, acompanha as operações de desencalhe ou reboque e verifica a existência de eventual risco de poluição.

Dependendo da ocorrência, também podem ser emitidos Avisos aos Navegantes e instaurados IAFNs.

A Marinha ressalta ainda que estruturas encalhadas ou embarcações à deriva podem oferecer riscos, principalmente durante operações de desencalhe e reboque.

Por isso, a recomendação é que moradores, turistas e curiosos mantenham distância e não se aproximem das áreas onde essas operações estão sendo realizadas.

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